PUBLICIDADE Apesar das alegações do governo americano sobre vitória contra Teerã, regime em Teerã parece prestes a acessar ativos financeiros bloqueados em troca de reabertura de Ormuz, cujo fechamento veio com a guerra 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Mulher iraniana passa por um enorme outdoor em apoio à seleção nacional de futebol do Irã para a Copa do Mundo de 2026, em Teerã — Foto: AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 15/06/2026 - 20:25 Acordo EUA-Irã: Analistas Questionam Eficácia e Paz Duradoura O recente acordo entre EUA e Irã para suspender a guerra no Oriente Médio e reabrir o Estreito de Ormuz não garante paz duradoura, afirmam analistas. Enquanto Teerã parece ter obtido uma vitória estratégica, acessando ativos financeiros bloqueados, os EUA não alcançaram seus objetivos militares e diplomáticos iniciais. A negociação, que envolve outros países, enfrenta ceticismo quanto à sua eficácia e à implementação dos termos acordados. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO O anunciado acordo entre EUA e Irã para suspender a guerra no Oriente Médio e reabrir o Estreito de Ormuz ainda não corresponde a uma garantia de paz duradoura. Com termos a serem negociados e discordâncias marcantes entre alguns dos atores interessados, o avanço do processo diplomático, por outro lado, já representa uma vitória estratégica para Teerã, que após sofrer pesados ataques parece ter arrancado concessões da maior potência militar do mundo — alcançando uma posição apontada por analistas como mais forte do que a que detinha antes do início do conflito. — A construção do possível acordo envolve países que há um ano tratavam a revolução iraniana [de 1979] como derrotada, e que agora fazem parte de articulações para viabilizar a negociação — apontou o professor Michel Gherman, coordenador do Núcleo de Estudos Judaicos da UFRJ e pesquisador do Centro de Estudos do Antissemitismo da Universidade Hebraica de Jerusalém, em entrevista ao GLOBO. — Há uma expansão da legitimidade do Irã passando para além do Oriente Médio. Em contraste com o tom de vitória proclamado pelo presidente dos EUA, Donald Trump, ao anunciar no domingo que as partes chegaram a um acordo — na realidade, um memorando de entendimento que suspende por 60 dias o conflito —, os objetivos centrais indicados pelo republicano ao desencadear a guerra em 28 de fevereiro junto com Israel não foram obtidos. Trump afirmou que iria "aniquilar" as capacidades militares do Irã, mas teve que recorrer ao acordo para romper o efetivo bloqueio iraniano em Ormuz; falou em derrubar o governo iraniano, ao qual acabou dando legitimidade ao sentar para negociar por meses; falou em eliminar as ambições nucleares de Teerã, que mesmo tendo negado perseguir armas atômicas, conseguiu adiar a resolução do tema para tratativas futuras. Embora os termos ainda não tenham sido apresentados oficialmente, analistas apontam que a parte que chegou ao conhecimento público indica um acerto positivo para Teerã. Enquanto a reabertura de Ormuz, alardeada como vitória por Trump, foi uma situação que entrou em pauta justamente por causa da guerra — o Irã só fechou o estreito como resposta ao ataque israelense-americano — , o regime iraniano parece prestes a conseguir em troca o descongelamento de bilhões de dólares em ativos financeiros bloqueados no exterior. Além do alívio financeiro, Teerã persegue o reconhecimento dos termos pelo Conselho de Segurança da ONU — algo que o acordo nuclear fechado pelo governo de Barack Obama, em 2015, não permitiu. A avaliação sobre o encaminhamento das negociações nucleares foi alvo de críticas de analistas americanos. Em um comentário na rede social X, o ex-embaixador dos EUA em Israel e pesquisador do Atlantic Council Daniel Shapiro afirmou que Trump parecia concentrado em um acordo melhor do que o de Obama, mas que os EUA ainda estavam longe de chegar a isso. "É possível que nenhum acordo jamais seja alcançado. É muito provável que, se um for alcançado, ele seja pior do que aquilo que poderíamos ter conseguido por meio da diplomacia antes da guerra", disse Shapiro na publicação, acrescentando que o memorando não corresponde a qualquer acordo nuclear, e que Washington parecia "estar pagando" pela reabertura de Ormuz. Fatores externos Para além da negociação de prestações e contraprestações entre EUA e Irã, os termos versam também sobre atores alheios ao processo de negociações Autoridades dos dois países e do Paquistão, que atua como mediador do diálogo indireto, afirmaram que o cessar-fogo inclui também o Líbano, onde Israel ataca posições do movimento Hezbollah diariamente. Novos ataques foram registrados nesta segunda, embora em menor intensidade, enquanto integrantes de linha-dura do governo israelense rejeitaram recuar por ordem dos EUA. Em um comentário no podcast "Conflicts of Interest" no sábado, do centro de estudos americano ACLED, a CEO da organização de pesquisa, Clionadh Raleigh, apontou que as contrapartidas associadas a países alheios como um fator a causar dificuldade de implementação em qualquer acordo alcançado. — Grande parte dessa questão envolve como os Estados do Golfo devem agir, como Israel deve se comportar e como os outros Estados banhados pelo estreito devem agir. Nenhum deles foi formalmente incluído nesse processo — afirmou, questionando a eficácia de qualquer acordo nesse formato. Gherman também se disse pessimista sobre qualquer avanço em questões centrais no período de 60 dias estabelecido pelo memorando para as novas negociações. Ele menciona, porém, que o alívio que a desescalada ofereceu imediatamente à economia mundial é um fator que pode inibir uma retomada de qualquer conflito de alta intensidade, no formato previamente observado na região. — Se por um lado eu estou pessimista que este seja efetivamente um acordo de paz, é impossível que as guerras voltem nas condições que estavam — disse o professor, indicando como cenário provável para o caso de um futuro conflito, uma disputa regional entre Israel e Irã, com um escrutínio maior a eventuais impactos a economia da nação persa, por seu impacto abrangente. — É possível que a gente se depare com uma situação muito paradoxal, dos EUA apoiando o regime iraniano se Israel ameaçar atacá-lo. (Com NYT)
Acordo com os EUA não garante paz duradoura no Oriente Médio e oferece vitória estratégica ao Irã, dizem analistas
Apesar das alegações do governo americano sobre vitória contra Teerã, regime em Teerã parece prestes a acessar ativos financeiros bloqueados em troca de reabertura de Ormuz, cujo fechamento veio com a guerra













