Um homem caminha ao lado de um mural que retrata uma Estátua da Liberdade danificada, em uma rua de Teerã, Irã , em 26 de fevereiro de 2026 — Foto: Majid Asgaripour/WANA (West Asia News Agency) via REUTERS O acordo entre os Estados Unidos e o Irã — o primeiro assinado por um presidente americano e um presidente iraniano desde a Revolução Islâmica de 1979 — está sendo celebrado por seus apoiadores como o acordo do século. Mas, para os adversários de Teerã em todo o Oriente Médio — de Israel aos países do Golfo e facções no Líbano — ele parece mais uma maldição do século: um acordo que pode deixar o Irã mais seguro, mais legítimo e, em última instância, mais influente. O presidente dos EUA, Donald Trump, e o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, assinaram o acordo provisório na quarta-feira (17), encerrando uma guerra de três meses. Trump escolheu formalizar o pacto em Versalhes, durante a cúpula do G7 — um cenário amplamente visto como simbólico da reconstrução da ordem internacional após um conflito. O acordo de 14 pontos prolonga o cessar-fogo por 60 dias, incluindo no Líbano, para permitir negociações sobre uma solução permanente e abordar questões como o programa nuclear iraniano. “Para Washington e Teerã, esta é uma grande barganha — o acordo do século, sem possibilidade de retorno”, afirmou o comentarista libanês Sarkis Naoum. “A probabilidade de sucesso supera o risco de fracasso. O Irã não pode suportar mais sofrimento econômico sob sanções, e Trump não tem incentivo para iniciar uma nova guerra.” Acordo é um revés para Israel O analista israelense Danny Citrinowicz descreveu o acordo como uma “catástrofe” estratégica. O que havia sido apresentado como uma campanha conjunta entre EUA e Israel para enfraquecer ou até derrubar a República Islâmica transformou-se, em sua visão, em um reconhecimento americano do Irã. “Fomos para derrubar o regime com apoio dos EUA e terminamos com Washington efetivamente legitimando e fortalecendo o mesmo regime que queríamos derrubar”, disse Citrinowicz, pesquisador sênior sobre o Irã no Instituto de Estudos de Segurança Nacional de Israel. Segundo ele, o acordo não atende nenhuma das principais exigências de Israel: não impõe restrições ao programa de mísseis do Irã nem aos seus aliados regionais, tampouco estabelece um caminho claro para o desmantelamento de suas instalações nucleares. Até mesmo a campanha israelense no Líbano foi limitada pela estrutura de cessar-fogo imposta por insistência iraniana. As consequências são tanto políticas quanto estratégicas. O acordo enfraquece a narrativa de Benjamin Netanyahu sobre o Irã e expõe os limites de sua influência junto a um presidente americano considerado próximo de Israel. Citrinowicz afirma que o Irã ganhou margem de manobra e que o acordo corre o risco de consolidar sua posição enquanto aprofunda o isolamento de Israel. “Tudo é ruim”, afirmou de forma direta. “E só vai piorar.” Se o acordo se mantiver, o Irã parece garantir o resultado mais favorável: o fim da guerra, alívio gradual das sanções, retomada das exportações de petróleo e a perspectiva de amplos fundos para reconstrução, além da aceitação implícita de seu sistema político. Washington, por outro lado, fica aquém de objetivos que compartilhava com Israel: derrubar o regime teocrático, desmontar o programa nuclear iraniano e limitar sua influência regional. Em vez de alterar a posição do Irã, o acordo a restaura. Os EUA e Israel iniciaram a guerra contra o Irã em 28 de fevereiro, assassinando o líder supremo de 86 anos, aiatolá Ali Khamenei, e outras figuras importantes nos primeiros dias. O conflito se agravou, causando mais de 7 mil mortes, principalmente no Irã e no Líbano, elevando os preços da energia e aumentando os temores de uma crise alimentar em países em desenvolvimento. Irã ganha vantagem no Líbano Para o Líbano, o acordo desloca o equilíbrio em favor do Irã, reforçando o papel da milícia xiita Hezbollah, apoiada por Teerã, e inserindo o país em uma estrutura mais ampla de negociações entre EUA e Irã, enquanto marginaliza as conversas entre Beirute e Israel. O pacto vincula o Líbano ao cessar-fogo de 60 dias, comprometendo todas as partes a interromper operações em todas as frentes. O presidente libanês Joseph Aoun advertiu na semana passada que o Irã não pode negociar em nome do Líbano em questões como o cessar-fogo e a retirada israelense do sul do país. Entretanto, fontes próximas ao Hezbollah argumentam o contrário: que o eixo EUA-Irã fortalece a posição do Líbano ao elevá-lo para um nível superior de negociação. Na visão delas, Teerã e Washington podem pressionar seus respectivos aliados — Hezbollah e Israel — a alcançar um acordo. A preocupação é ainda maior nos países do Golfo, onde ataques iranianos abalaram a confiança nos tradicionais arranjos de segurança. Os Estados do Golfo emergem como os principais perdedores da guerra — meros espectadores de decisões que remodelaram seu ambiente de segurança e agora obrigados a lidar com as consequências. Israel pode ser um fator de instabilidade Fontes do Golfo afirmam que o acordo já está transformando o pensamento estratégico da região: reduzindo a confiança na proteção americana, consolidando o Irã como uma força regional duradoura e acelerando uma mudança em direção à acomodação em vez do confronto. O especialista em Irã Alex Vatanka, porém, contesta essa preocupação. Em vez de uma capitulação, ele vê o acordo como a menos ruim das alternativas após anos de tentativas fracassadas de coerção. “Tentaram derrubar o Irã pela via militar. Não conseguiram. A alternativa teria sido catastrófica — uma guerra mais ampla poderia devastar o Golfo por décadas”, afirmou Vatanka, pesquisador sênior do Middle East Institute, em Washington. Segundo ele, o verdadeiro teste ainda está por vir: na implementação do acordo, nas negociações nucleares ainda pendentes e nas reações regionais que ele provocará. “É algo grande, mas não é o fim da história. É apenas o começo.” Alguns analistas veem Israel como a principal incógnita. Embora seja improvável que consiga interromper um processo liderado por Trump, eles alertam que o risco permanece — especialmente no Líbano. “Israel ficou isolado, após esta guerra, tanto na região quanto no mundo”, afirmou um funcionário iraniano que pediu anonimato. “O Irã conseguiu o que queria... Não abandonamos nossos amigos, como o Hezbollah. Pelo contrário, estávamos até preparados para abandonar as negociações e voltar à guerra por causa deles”, acrescentou outro.
Análise: Acordo com os EUA fortalece o Irã e alarma rivais no Oriente Médio
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