PUBLICIDADE Acordo é vitória para o regime iraniano que emergiu da guerra, mais ousado que o anterior, afirma Guga Chacra em newsletter especial 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Moradores de Bandar Abbas, no sul do Irã, se banham nas águas do Estreito de Ormuz, com navios de carga ancorados ao fundo: reabertura da passagem é ponto central do acordo entre EUA e Irã — Foto: Amirhossein Khorgooei/ISNA/AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 15/06/2026 - 05:15 Cessar-fogo Irã-EUA fortalece regime iraniano e preocupa Israel O recente cessar-fogo entre Irã e EUA é visto como uma vitória para o regime iraniano, que emerge mais fortalecido após o conflito. O acordo, que permitirá a reabertura do Estreito de Ormuz e o fim do bloqueio aos portos iranianos, não inclui o apoio ao Hezbollah ou o programa de mísseis. Para os EUA, liderados por Donald Trump, isso representa um desafio, pois o objetivo inicial de enfraquecer o regime iraniano não foi alcançado. Israel, por sua vez, é o grande perdedor, temendo o fortalecimento iraniano e a reconfiguração dos interesses americanos no Oriente Médio. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Desde a eclosão da guerra no Irã, Guga Chacra escreve newsletter diária com informações e análises exclusivas. Clique aqui para se inscrever. Estados Unidos e Irã finalmente formalizaram um acordo de cessar-fogo para os próximos 60 dias. Não se trata de um acordo para encerrar o conflito e muito menos de um acordo de paz. Ainda estamos distantes deste momento. Mas é um enorme avanço para a paralisação dos combates militares e o início de negociações das disputas envolvendo estas duas nações depois de duas guerras no último ano. Termos conhecidos – Os termos do acordo já eram antecipados por todos que acompanham o conflito. Escrevi uma série de vezes. Basicamente, o Irã permitirá a reabertura do Estreito de Ormuz e os EUA encerrarão o bloqueio aos portos iranianos. Os enfrentamentos militares deverão ser interrompidos, inclusive no Líbano, por 60 dias. Neste período, Teerã e Washington negociarão um acordo envolvendo o programa nuclear iraniano e o levantamento de sanções. Alguns detalhes ainda não estão claros. A assinatura será na sexta-feira, dia 13, na Suíça. Vitória iraniana – O acordo é uma enorme vitória para o regime iraniano. Teerã se posiciona de uma maneira bem mais forte do que antes da guerra. Basicamente, reabrirá o Estreito de Ormuz, que estava aberto antes do ataque de Israel e dos EUA. Negociará um acordo na área nuclear, mas em uma posição mais forte, especialmente para ampliar o levantamento de sanções. O apoio ao Hezbollah e outras organizações armadas no Oriente Médio não deve ser incluído nas negociações, pelo menos por agora. Tampouco o programa de mísseis balísticos. Situação de Trump – Os EUA obviamente não atingiram seu objetivo inicial no conflito, que era derrubar o regime ou ao menos forçar uma capitulação. Ao mesmo tempo, há espaço para Donald Trump vender como vitória caso consiga um acordo na área nuclear um pouco mais restrito do que o firmado por Barack Obama com os iranianos em 2015. Claro que será criticado de qualquer maneira por ter levado os EUA a uma guerra desnecessária, com todos os impactos econômicos já existentes. Israel perde – O maior perdedor será Israel. O governo de Benjamin Netanyahu e seus opositores são contrários a um acordo porque o Irã sairá empoderado. Pode até haver um acordo restringindo o programa nuclear iraniano, mas Teerã, com o fim das sanções, terá mais dinheiro para fortalecer suas Forças Armadas e grupos como o Hezbollah. É basicamente um pesadelo para os israelenses. Mudança no tabuleiro – O cenário é ainda pior para Israel porque os EUA claramente estão reordenando seus interesses no Oriente Médio. Não haverá mais a intenção de enfrentar os iranianos. Isso não significa que Washington se tornará aliado de Teerã. Longe disso. Mas voltará a um cenário parecido com os tempos de Barack Obama depois do JCPOA, como era chamado oficialmente o acordo nuclear assinado pelos EUA e outras potências com o Irã em 2015. Novo regime – Para agravar, o atual regime iraniano que emergiu depois da guerra é mais ousado se comparado ao anterior. Não tem medo de atacar Israel e interesses dos EUA no Oriente Médio. Deixou de ser teocrático e cauteloso. Agora é basicamente uma junta militar radical. Na época de Obama, o Irã era governado por moderados para padrões do regime e havia a liderança suprema do aiatolá Ali Khamenei. Situação libanesa – O Líbano não sairá vitorioso do conflito e não sairia em qualquer circunstância. Há um lado positivo, que pode ser o fim dos ataques caso o cessar-fogo realmente seja implementado. Não há, no entanto, nenhuma garantia de que isso irá ocorrer — lembrem-se de quantas vezes falamos em cessar-fogo entre Israel e Hezbollah. Tampouco Israel deverá desocupar o sul do Líbano, assim como o grupo apoiado pelo Irã não se desarmará. Ao contrário, tende a ganhar mais força com a entrada de dinheiro para o regime de Teerã depois da retirada de sanções. Sabotagem – A questão libanesa ainda é a maior ameaça para o acordo entre Irã e EUA. Israel fará de tudo para sabotar as negociações. Não dá para saber se terá sucesso em impedir a implementação deste acordo. Caso avancem as negociações entre Donald Trump e a junta militar iraniana, Netanyahu baterá de frente com o presidente norte-americano? Um choque parece cada vez mais inevitável.