Washington e Teerã têm divergido publicamente sobre a interpretação do memorando de entendimento provisório, o que levou a uma troca de ataques militares ao longo da última semana Crianças brincam na água com navios de carga ancorados ao fundo e um pescador por perto, no Estreito de Ormuz, perto de Bandar Abbas, Irã, terça-feira, 30 de junho de 2026 — Foto: Amirhosein Khorgooi/ISNA via AP Estados Unidos e Irã realizaram nesta quarta-feira, em Doha, negociações técnicas para tentar chegar a um acordo sobre o tráfego marítimo no Estreito de Ormuz e consolidar um cessar-fogo duradouro, disseram uma fonte com conhecimento direto das conversas e uma autoridade iraniana. O genro do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, Jared Kushner, e o enviado especial Steve Witkoff reuniram-se com o primeiro-ministro do Catar — um dos mediadores das negociações, ao lado do Paquistão — para preparar o terreno para as conversas, mas não participariam diretamente das discussões, afirmou a fonte. As negociações têm como base um acordo provisório de 14 pontos assinado no mês passado, destinado a interromper a guerra iniciada pelos ataques conjuntos dos EUA e de Israel contra o Irã em fevereiro, reabrir o Estreito de Ormuz e estabelecer um período de 60 dias de negociações para um acordo de paz permanente. No entanto, Washington e Teerã divergiram publicamente sobre a interpretação do acordo provisório, o que levou a uma troca de ataques militares ao longo da última semana. O Irã está determinado a obter reconhecimento internacional de seu controle sobre o estreito e de seu direito de cobrar taxas de embarcações que entram ou deixam o Golfo, mesmo que tenha de impor isso pela força, disseram duas fontes iranianas de alto escalão nesta quarta-feira. O tráfego pela hidrovia, responsável por cerca de um quinto do comércio mundial de petróleo e gás natural liquefeito antes da guerra, foi parcialmente retomado. Foco em Ormuz e nos ativos congelados Segundo a fonte com conhecimento das negociações, as conversas em Doha estão organizadas em sessões entre os principais negociadores e especialistas técnicos. Elas começaram na noite de terça-feira e continuavam nesta quarta-feira, informou a autoridade iraniana. O Irã declarou publicamente que suas prioridades são chegar a um acordo sobre a administração de Ormuz e obter a liberação de US$ 6 bilhões em ativos iranianos congelados. Segundo a autoridade iraniana, a atual rodada de negociações concentra-se nesses dois temas. A prioridade declarada dos Estados Unidos, entretanto, é garantir a livre circulação de embarcações pelo estreito, disse a fonte. A imprensa estatal iraniana informou nesta quarta-feira que um navio porta-contêineres estrangeiro encalhou no estreito após entrar em águas rasas fora da rota de navegação determinada pelas autoridades iranianas. "Ormuz continua sendo reaberto, mas o processo é irregular, imprevisível e não totalmente transparente", afirmou Vandana Hari, fundadora da consultoria de análise do mercado de petróleo Vanda Insights. A guerra desencadeou ataques iranianos contra países do Golfo que abrigam bases militares americanas e deixou milhares de mortos, principalmente no Irã e no Líbano, além de elevar os preços do petróleo e dos combustíveis. Uma mulher pró-governo segura uma bandeira iraniana sob uma faixa com o retrato do líder supremo assassinado, o aiatolá Ali Khamenei, morto durante o ataque conjunto dos EUA e de Israel em 28 de fevereiro, em uma praça no centro de Teerã, Irã, na terça-feira, 30 de junho de 2026 — Foto: AP/Vahid Salemi Diplomacia intensa sobre o Líbano Trump enfrenta pressão política para conter os impactos econômicos da guerra antes das eleições legislativas de novembro, que definirão o controle do Congresso americano. No Irã, a liderança teocrática sobreviveu ao conflito, mas enfrenta crescente insatisfação interna diante da devastação da economia. Os preços do petróleo, que já haviam recuado fortemente no segundo trimestre do ano, caíam mais de 1% nesta quarta-feira. O acordo provisório entre Estados Unidos e Irã também prevê o encerramento do conflito paralelo entre Israel e o grupo militante libanês Hezbollah, apoiado pelo Irã. Os EUA apoiam uma via paralela de negociações entre Israel e o governo do Líbano, que resultou em um acordo-quadro de segurança rejeitado pelo Hezbollah. Analistas alertam que esse entendimento pode consolidar a ocupação israelense do sul do Líbano. Até a noite de terça-feira, havia intensa atividade diplomática sobre o Líbano envolvendo diversas partes, entre elas os Estados Unidos, afirmou a fonte com conhecimento das negociações. Um veículo blindado de transporte de pessoal israelense manobra no lado israelense da fronteira entre Israel e Líbano após cruzar a fronteira para Israel, em 1º de julho de 2026 — Foto: REUTERS/Avi Ohayon