Guerra produziu uma mudança de regime, mas os novos líderes iranianos estão mais dispostos a correr riscos e acreditam que já suportaram o pior que EUA e Israel poderiam impor 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Membros da Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica permanecem próximos a uma exibição de drones durante uma marcha organizada pelo governo em Teerã, em 29 de abril de 2026 — Foto: Arash Khamooshi/Polaris para The New York Times RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 14/06/2026 - 12:35 EUA e Israel enfrentam Irã resiliente em meio a tensões nucleares Os EUA e Israel buscaram mudança de regime no Irã, mas enfrentam um país mais resiliente e disposto a correr riscos. Apesar de um acordo iminente, o Irã mantém firme seu programa nuclear e capacidades militares. O novo regime, dominado pela Guarda Revolucionária, busca preservar seus interesses, incluindo o direito de enriquecer urânio e apoio a aliados. Mesmo com pressões econômicas, o Irã explora as negociações para testar a disposição dos EUA em enfrentar oposição interna. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Os Estados Unidos e Israel entraram em guerra contra o Irã buscando uma mudança de regime. Quase quatro meses depois, houve de fato uma mudança de regime — mas não a que eles desejavam. A chamada por alguns de “República Islâmica 3.0” é agora menos uma teocracia e mais uma junta militar dominada pela poderosa Guarda Revolucionária. Washington e Tel Aviv também foram à guerra para erradicar o programa nuclear iraniano e eliminar a ameaça que ele representa. Até agora, porém, o conflito produziu apenas um Irã ferido, mas mais disposto a correr riscos e mais determinado a prosseguir com seu objetivo de avançar em seu programa nuclear. Estados Unidos e Irã trocaram ataques ao longo desta semana enquanto tentavam encontrar um caminho para encerrar a guerra. Na sexta-feira, apesar das acusações mútuas de má-fé, autoridades em Teerã e Washington afirmaram estar próximas de um acordo, embora tenham ressaltado que um entendimento inicial, conhecido como memorando de entendimento, ainda não havia sido finalizado. O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, declarou que um acordo “nunca esteve tão próximo”. Mesmo que haja um acordo sobre o memorando, Teerã ainda manterá certa capacidade de barganha durante as negociações mais profundas sobre o programa nuclear iraniano e o futuro papel do país no Estreito de Ormuz. Muitos detalhes seriam deixados para um período de 60 dias de negociações, que podem ou não ser bem-sucedidas. Cadetes do Corpo da Guarda Revolucionária iraniana durante o desfile militar anual em comemoração ao 44º aniversário da guerra Irã-Iraque, em Teerã, em 2024 — Foto: Arash Khamooshi / New York Times Ao longo da guerra, o Irã passou de um país aparentemente fraco e indefeso para um regime que não apenas sobreviveu, mas também preservou importantes capacidades militares e nucleares. Seu vasto aparato de segurança parece controlar firmemente todos os aspectos do governo, da sociedade e da política externa. O país é agora liderado por “uma geração mais jovem e mais ousada no poder”, afirmou Sanam Vakil, diretora do programa para Oriente Médio e Norte da África da Chatham House. Segundo Aaron David Miller, ex-diplomata americano da Carnegie Endowment for International Peace, trata-se de uma “transição do poder divino para o poder bruto”. Esses novos líderes acreditam que podem sobreviver até mesmo a uma retomada significativa dos combates sem alterar substancialmente suas posições de negociação ou seus objetivos regionais mais amplos. Entre esses objetivos está a restauração de sua capacidade de dissuasão para evitar novos ataques como os sofridos no fim de fevereiro. Eles também querem manter o direito de enriquecer urânio, mesmo que em níveis baixos após um período de suspensão, além de preservar o conhecimento científico e os equipamentos que lhes permitiriam, caso decidam fazê-lo, voltar a se tornar um país limítrofe da capacidade nuclear — isto é, um Estado que possua todos os elementos necessários para produzir uma arma nuclear sem efetivamente montá-la. O novo governo iraniano demonstrou ser um negociador duro, disposto a suportar um alto nível de sofrimento para preservar seus interesses centrais. Irã fortalecido Essa postura é muito diferente da cautela demonstrada pelo antigo líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, que foi assassinado no primeiro dia da guerra, em 28 de fevereiro. Durante anos, ele proibiu a produção de armas nucleares e sempre procurou evitar um ataque conjunto de Israel e dos Estados Unidos contra o Irã. Depois de sobreviver ao conflito, os atuais líderes iranianos já não se sentem limitados pelas mesmas preocupações. Analistas afirmam que eles estão convencidos de que o presidente Donald Trump não pretende reiniciar uma guerra em larga escala e observam que ele impôs limites ao desejo israelense de fazê-lo. Isso ajuda a explicar por que o Irã, pela primeira vez nesta semana, ousou atacar diretamente Israel após o Estado judeu bombardear redutos do Hezbollah, aliado iraniano em Beirute, algo que vinha fazendo regularmente há meses. O ataque iraniano também foi uma forma de vincular sua exigência de cessar-fogo no Líbano às negociações com os Estados Unidos para encerrar a guerra. Israel, por sua vez, deseja manter os dois temas separados. Com o novo regime, objetivos que Estados Unidos e Israel não conseguiram alcançar pela guerra não serão atingidos por meio de mais coerção, afirmou Ali Vaez. Os iranianos acreditam que o pior já passou e trabalharão para preservar suas exigências centrais: o direito ao enriquecimento de urânio, seu programa de mísseis balísticos e o apoio a aliados como o Hezbollah, o Hamas e os Houthis. Segundo especialistas, em qualquer acordo o Irã provavelmente concordará com uma suspensão limitada do enriquecimento e aceitará exportar metade de seu estoque atual de urânio altamente enriquecido, enquanto a outra metade seria diluída para níveis menores de enriquecimento. Ainda assim, o país manteria seu conhecimento nuclear e sua infraestrutura, incluindo centrífugas avançadas. Isso, combinado com a capacidade de fechar novamente o Estreito de Ormuz quando desejar, dará ao Irã uma “carta para impedir que Israel e os Estados Unidos voltem a atacar”, argumentou Danny Citrinowicz. Também devolverá ao país influência regional. “Uma guerra destinada a impedir que o Irã obtenha armas nucleares acabará sendo justamente a guerra que o empurrou além do Rubicão”, afirmou ele. Citrinowicz e outros especialistas observam que, antes da guerra, o Irã havia oferecido aos enviados de Trump em Genebra um acordo melhor do que o que atualmente propõe nas negociações nucleares com os Estados Unidos. Um Irã fortalecido pela resistência ao conflito tende a pressionar ainda mais por suas demais exigências. Iranianos querem testar Trump Teerã quer cerca de US$ 12 bilhões em ativos congelados liberados imediatamente, além de outros US$ 12 bilhões como pagamento posterior condicionado ao progresso na implementação de qualquer acordo. Os iranianos querem testar até onde Trump está disposto a enfrentar a oposição de setores republicanos e de Israel à transferência de recursos para o país. Quanto às principais questões nucleares, exceto pelo compromisso iraniano de não construir uma bomba atômica, elas foram em grande parte deixadas para negociações mais detalhadas ao longo dos 60 dias seguintes. O Irã também continua exigindo a possibilidade de cobrar algum tipo de taxa dos navios que utilizarem o Estreito de Ormuz. Apesar da disposição para correr riscos, o país deseja um acordo que alivie a crescente pressão econômica interna e permita vender o petróleo que vem produzindo, mas armazenando devido ao bloqueio americano do estreito. A economia iraniana está profundamente fragilizada e pode gerar novos protestos contra o regime quando a guerra finalmente terminar. No entanto, o Irã acredita que Trump tem ainda mais pressa por um acordo e, por isso, não vem fazendo as concessões desejadas por Washington, segundo Vakil. Os objetivos de longo prazo do Irã permanecem os mesmos: impedir futuros ataques, dividir os países árabes do Golfo sobre o grau de aproximação com Teerã, estimular o isolamento de Israel entre os Estados árabes e reduzir a presença e a capacidade militar dos Estados Unidos na região. O risco, segundo Vakil, é que o Irã exagere em sua estratégia e cometa erros de cálculo, como já ocorreu no passado. Mesmo que um acordo inicial seja alcançado, analistas duvidam que as negociações avancem até os temas mais delicados, como um tratado nuclear detalhado, da mesma forma que o acordo para a Faixa de Gaza negociado por Trump acabou estagnado. “Provavelmente permaneceremos em uma espécie de limbo por muito tempo, o que favorece o Irã”, afirmou Suzanne Maloney. “Nem guerra, nem paz é uma situação confortável para o Irã”, disse ela, porque isso aumentará a pressão sobre Trump para aceitar algum tipo de acordo que permita reabrir o estreito e tentar restaurar o equilíbrio nos mercados de energia, fertilizantes, alumínio e muitos outros setores.
Análise: com um acordo aparentemente próximo, os EUA enfrentam um Irã mais disposto a resistir à pressão
Guerra produziu uma mudança de regime, mas os novos líderes iranianos estão mais dispostos a correr riscos e acreditam que já suportaram o pior que EUA e Israel poderiam impor
Irã mantém direito a enriquecimento de urânio e capacidade nuclear; junta militar Guarda Revolucionária resiste a coerção de EUA e Israel. Regime militar impacta estabilidade energética, preços e risk assessment de supply chain internacional para tech.










