Linha-dura intensifica pressão contra negociadores em Teerã, enquanto interpretações divergentes sobre o acordo e o controle de Ormuz alimentam nova escalada militar 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Faixa com a imagem do antigo líder supremo do Irã, Ali Khamenei, em prédio de Teerã — Foto: AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 09/07/2026 - 16:29 Divisões Internas no Irã Ameaçam Cessar-fogo com os EUA no Golfo Pérsico No Irã, divisões internas sobre o cessar-fogo com os EUA aumentam à medida que uma cláusula controversa no acordo alimenta novos conflitos no Golfo Pérsico. A linha-dura iraniana pressiona contra negociadores, enquanto ataques de ambos os lados reascendem tensões. O memorando de entendimento, assinado em junho, está ameaçado, com divergências sobre o controle do Estreito de Ormuz e ameaças de retaliação militar. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO O Irã, temendo que seu controle sobre as estratégicas rotas marítimas do Estreito de Ormuz estivesse gradualmente se enfraquecendo, correu o risco de exagerar na aposta ao voltar a atacar petroleiros e potencialmente reacender uma grande guerra com os Estados Unidos, disseram analistas. Entre quarta e quinta-feira, os dois lados intensificaram a troca de ataques militares no Golfo Pérsico, elevando a retórica e ameaçando abandonar o memorando de entendimento assinado em 17 de junho para suspender o conflito. Aviões de guerra americanos realizaram ataques intensos contra pelo menos 170 alvos em todo o território iraniano durante as duas noites, enquanto Teerã atacou aliados dos EUA no Golfo Pérsico com drones e mísseis. Ao menos 14 pessoas foram mortas e 78 ficaram feridas nas ofensivas contra o Irã, que acusou Washington de uma “violação flagrante” das partes do memorando. Em nota, a Guarda Revolucionária iraniana afirmou que poderá ampliar os ataques para outras bases na região caso forças dos EUA mantenham a ofensiva. O acordo básico previsto no memorando, redigido de forma vaga e composto por 14 pontos, estabelecia que o Irã reabriria o Estreito de Ormuz para a navegação comercial em troca do necessário alívio econômico. Questões mais delicadas, incluindo o futuro do programa nuclear iraniano, foram adiadas para negociações posteriores, mas muito pouco mudou. Para analistas, a origem da disputa está concentrada no parágrafo 5, que estabelece que o Irã tomará providências para restabelecer a navegação pela via e, em seguida, trabalhará com Omã para definir como ela será administrada no futuro. O texto, porém, também inclui um compromisso iraniano de garantir a passagem segura das embarcações e remover obstáculos militares, como minas. Autoridades do governo americano interpretaram a cláusula como o mecanismo que reabriria o estreito, considerado a principal conquista do presidente com o acordo. Setores linha-dura do Irã, por outro lado, passaram a defender outra interpretação, segundo a qual a República Islâmica teria controle exclusivo sobre a hidrovia. — Essa diferença de interpretação é ampla, está incorporada ao acordo e não é exatamente surpreendente — disse o analista geopolítico Michael Horowitz ao WSJ. — Washington tentou convencer Teerã de que cumprir o acordo seria mais lucrativo, mas essa lógica perde o ponto principal. O comportamento do Irã não é motivado por questões financeiras, e sim por preocupações de segurança e poder de barganha. Mesmo antes de os EUA lançarem novos ataques contra o Irã nesta semana — e de Donald Trump colocar em dúvida o cessar-fogo entre os dois países —, já começavam a surgir divisões na liderança iraniana em torno do acordo. Os últimos acontecimentos aprofundaram essas fissuras, colocando de um lado uma ala de autoridades iranianas favorável à negociação com Washington e, de outro, os setores linha-dura, que se opõem veementemente a qualquer acordo com os EUA. Ao mesmo tempo, a ala favorável às negociações acusou os EUA de violarem os termos do acordo de trégua. Entre esses integrantes está o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, que afirmou na quarta-feira que Washington está “intimidando adversários, criando obstáculos e agindo de forma desleal”. O grupo rival, formado por uma minoria de integrantes da ala linha-dura, direcionou sua ira contra o presidente iraniano e a equipe de negociadores. Tensões elevadas O aumento das tensões dentro e fora do Irã ocorreu durante a semana de cerimônias fúnebres pelo aiatolá Ali Khamenei, líder supremo morto em ataques israelenses e americanos no primeiro dia de guerra, ealizadas em cinco cidades do Irã e do Iraque. O corpo de Khamenei havia chegado a Najaf, no Iraque, quando começaram os ataques aéreos americanos. Ao longo de toda a semana, enquanto o funeral prosseguia, a ala linha-dura iraniana intensificou os ataques contra integrantes do governo. Pezeshkian foi atacado na segunda-feira por um grupo de apoiadores da linha-dura, que tentou derrubá-lo enquanto gritava “morte ao apaziguador”, durante a procissão fúnebre. No mesmo dia, o ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, foi atingido por uma pedra enquanto era perseguido durante o funeral. Seus agressores, que agitavam bandeiras, o insultavam e pediam sua morte, mostraram vídeos do incidente publicados nas redes sociais. Pouco depois desses episódios, as hostilidades em Ormuz recomeçaram. O Irã atacou várias embarcações comerciais que transitavam pela estratégica via marítima, e os EUA realizaram intensos bombardeios contra dezenas de alvos ao longo da costa sul iraniana. Em resposta, Teerã lançou mísseis e balísticos e drones contra bases militares americanas no Kuwait e no Bahrein. Autoridades iranianas descreveram a situação nos círculos políticos do país como caótica, indicando que ainda não foi tomada uma decisão sobre os próximos passos. — O memorando de entendimento parecia cada vez mais uma miragem — disse Vali Nasr, analista e professor na Universidade Johns Hopkins. — A visão em Teerã é de que os Estados Unidos estão envolvidos em um esforço coordenado para tirar o controle do estreito das mãos do Irã, enfraquecer sua posição no Líbano e recuperar sua própria força para exercer ainda mais pressão sobre o Irã ou voltar à guerra. Frustração crescente À medida que o prazo de 60 dias previsto no acordo avançava, o Irã demonstrava crescente frustração com o fato de a Marinha americana incentivar o tráfego marítimo a seguir uma rota mais ao sul, ao longo da costa de Omã, em vez de atender à exigência iraniana de que todas as embarcações se registrassem junto à recém-criada autoridade de trânsito de Ormuz, etapa preliminar para a cobrança de taxas. No fim de semana passado, o tráfego correspondia a cerca de um terço do nível anterior à guerra, dividido igualmente entre os lados. Mapa mostra onder fica o Estreito de Ormuz — Foto: Arte O Globo Além disso, os EUA trabalhavam para concluir um acordo de paz separado entre Líbano e Israel, que incluiria o antigo objetivo de desarmar o Hezbollah, principal força aliada do Irã no Líbano. Nas discussões públicas sobre ajuda financeira, os valores em debate continuavam diminuindo. Por fim, segundo uma autoridade americana, o parágrafo 5 do memorando mostrou ser problemático porque ambos os lados estiveram em “planetas diferentes” para interpretá-lo. De acordo com a fonte, chama a atenção o fato de o texto não mencionar qualquer responsabilidade americana por organizar a passagem segura das embarcações, algo que o Irã tem usado para justificar ataques contra navios que utilizam uma rota coordenada pelos EUA. Principal negociador iraniano nas conversas com Washington, o presidente do Parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf, citou a cláusula para defender que o Irã controla o estreito: “O Estreito de Ormuz só será reaberto por meio de ‘arranjos iranianos’, e não por ameaças”, escreveu. A Guarda Revolucionária Segundo mediadores, a ideia de incluir negociações sobre a futura administração de Ormuz foi defendida pela Guarda Revolucionária, responsável pela proteção do regime e pelo controle do estreito. As partes concordaram com essa redação por considerá-la necessária para fechar o acordo, disseram, acreditando que poderiam impor suas interpretações posteriormente. Depois da assinatura, porém, a Guarda pressionou o governo civil iraniano a adotar uma interpretação maximalista. Ainda de acordo com os mediadores, a Guarda Revolucionária também pressionou o governo a insistir na futura cobrança de tarifas das embarcações que cruzarem o estreito. A percepção, por parte do Irã, de que havia superado os Estados Unidos e Israel na guerra no início deste ano provavelmente contribuiu para a retomada dos confrontos, afirmaram analistas. Mesmo que a navegação tivesse fluído livremente antes da guerra, a mensagem do Irã era de que pretendia impor um controle inédito sobre o estreito, disseram os especialistas. Os Estados Unidos, que haviam suspendido as sanções ao petróleo iraniano em vigor havia décadas, restabeleceram imediatamente essas restrições. O Irã afirmou não se importar. Ambos os lados costumam recorrer a uma retórica agressiva e bravatas, observaram analistas, e tendem a usar a guerra como forma de negociação. Mesmo após os novos ataques, Trump não descartou completamente a possibilidade de retomar as conversas. Os ultraconservadores do Irã, porém, há muito criticam a própria ideia de negociar, e surgiram apelos para abandonar o memorando de entendimento por causa da situação no estreito. — A receita é secundária em relação ao controle — declarou Majid Shakeri, economista iraniano e assessor do, presidente do Parlamento, à televisão estatal. — Ou mantemos o controle do estreito, ou cada um de nós se tornará mártir por ele. Diferentes interpretações O Irã apostava que Trump, demonstrando irritação com o conflito e enfrentando eleições legislativas difíceis dentro de quatro meses, não arriscaria reiniciar uma guerra impopular, sugeriram os especialistas. O americano, no entanto, iniciou uma dura ofensiva verbal contra os iranianos, classificando seus líderes como “malignos” e “escória” e sugerindo que os EUA atacariam o Irã com ainda mais força. Ele declarou que o cessar-fogo havia “acabado”, definindo as conversas como “perda de tempo”. — Eles correm o risco de interpretar mal o presidente Trump, algo que fizeram repetidas vezes — disse Joel Rayburn, pesquisador do Hudson Institute, coronel reformado dos EUA e ex-enviado especial para a Síria durante o primeiro governo Trump, acrescentando que, segundo ele, o Irã tem o hábito de realizar ações provocativas, como atacar petroleiros, e depois agir como se fosse a parte prejudicada. — Eles estão exagerando na aposta. Não seria a primeira vez. Logo após a Revolução Islâmica de 1979, o novo governo linha-dura em Teerã manteve reféns da Embaixada dos EUA por 444 dias, muito além do período em que eles serviam como moeda útil de barganha, e, em resposta, bilhões de dólares em ativos iranianos mantidos em instituições financeiras foram confiscados. Em 1982, o Irã recusou uma trégua na guerra contra o Iraque, o que levou a mais seis anos de combates brutais e a centenas de milhares de mortos e feridos. — O principal problema do memorando de entendimento não foi tanto deixar de lado a questão nuclear, mas aparentemente encobrir profundas divergências entre Estados Unidos e Irã justamente nos temas centrais que o acordo deveria resolver: o cessar-fogo, o status do estreito e o alívio das sanções — disse ao WSJ Eric Brewer, ex-analista sênior sobre o Irã na comunidade de inteligência dos Estados Unidos. — Ou os Estados Unidos desconheciam essas divergências ou decidiram ignorá-las.
Divisões sobre cessar-fogo aumentam no Irã enquanto disputa sobre cláusula alimenta ciclo de ataques com EUA
Linha-dura intensifica pressão contra negociadores em Teerã, enquanto interpretações divergentes sobre o acordo e o controle de Ormuz alimentam nova escalada militar







