Mesmo com alegações de autoridades em Washington sobre fragilização das forças militares iranianas, Guarda Revolucionária provoca danos ao ter adaptado aparato militar a ambiente de escassez e sanções 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Vídeo divulgado em 16 de julho de 2026 pelo site Sepah News, da Guarda Revolucionária do Irã, mostra míssil sendo lançado em direção a alvos dos EUA na Jordânia, no Kuwait e no Bahrein — Foto: SEPAHNEWS.COM / AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 26/07/2026 - 19:48 Irã mantém poder militar robusto apesar de sanções e desafios dos EUA Mesmo sob alegações de fragilidade por parte dos EUA, o Irã mantém seu poder bélico através de adaptações e planejamento estratégico, utilizando uma indústria militar sofisticada e resiliente. A Guarda Revolucionária iraniana, apesar das sanções, tem conseguido reconstruir rapidamente suas infraestruturas danificadas, mantendo a capacidade ofensiva. A possibilidade de apoio de rivais dos EUA, como Rússia e China, é investigada, mas negada oficialmente. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Enquanto o presidente dos EUA, Donald Trump, intensificava ameaças de destruição do Irã ao longo da semana, e o secretário de Estado, Marco Rubio, afirmava que a liderança do regime teocrático estaria implorando por um acordo para interromper a guerra, a Guarda Revolucionária do Irã completou quase três semanas de troca de hostilidades com as forças americanas antes de uma trégua nos últimos dois dias, no que Washington classificou como um aceno à via diplomática. A campanha militar, que provocou baixas nas tropas americanas e danos a bases e equipamentos, põe mais uma vez em xeque a alegação da Casa Branca sobre danos causados às capacidades ofensivas de Teerã nos primeiros 39 dias da guerra travada ao lado de Israel, cujo cessar-fogo em abril foi interrompido de forma intermitente antes de entrar em colapso no último dia 7. A morte de quatro militares americanos há uma semana — três deles em um ataque direcionado do Irã contra a base Muwaffaq Salti, na Jordânia — foi o desdobramento mais adverso para as forças americanas desde a retomada do conflito, mas não o único. Um levantamento feito pelo jornal americano New York Times na quinta-feira apontou que ao menos nove bases americanas em quatro países foram atingidas nos últimos dias. Embora a extensão completa dos ataques não seja aferível — EUA e países aliados controlam informações sobre o conflito alegando razões de segurança —, o perfil dos ataques leva a questionamentos sobre como o Irã mantém poder bélico após quase cinco meses de guerra. Indústria sofisticada Em entrevista ao GLOBO, Sandro Teixeira Moita, professor de Ciências Militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme), avalia que a manutenção da capacidade ofensiva da República Islâmica se apoia em uma indústria bélica nacional sofisticada e resiliente e em um planejamento de longo prazo que foi se adaptando no decorrer do conflito. — O que muitas vezes se ignora é que o Irã tem capacidade, tecnologia e formação de pessoal — indicou o professor. — O Irã aprendeu a produzir [suas armas] em condições de degradação, sob constante ataque e sob sanções. Eles aprenderam a produzir com escassez, com dificuldade de acesso à cadeia de suprimentos global, e desenvolveram uma tecnologia militar relevante. Mapa mostra ataques do Irã contra alvos no Oriente Médio — Foto: Arte Com base em imagens de satélite e entrevistas com fontes israelenses e do Ocidente, o Wall Street Journal afirmou que o Irã reconstruiu rapidamente infraestrutura danificada durante a guerra, incluindo bases de mísseis encravadas nas profundezas de montanhas, pontes, portos e instalações de produção. Analistas também afirmaram que a ofensiva demonstra que o estoque de projéteis disponíveis para as forças de Teerã permanece relevante. — Eles repuseram seus estoques [de mísseis] — afirmou ao jornal americano Ran Kochav, ex-comandante das Forças de Defesa Aérea e de Mísseis de Israel, apontando que a rápida recuperação já havia sido vista após a guerra de 12 dias entre Israel e Irã, em junho passado. — Eles têm capacidades de industrialização e reconstrução impressionantes. De acordo com Moita, após o conflito do ano passado, houve uma aceleração da descentralização de armazéns de mísseis e drones, com muitas das novas instalações tendo sido concebidas em locais favorecidos por aspectos geográficos, dificultando ataques inimigos. Na semana passada, Trump ameaçou atacar uma suposta instalação nuclear sob a Montanha da Picareta, em uma operação que especialistas dizem que seria um desafio estratégico. Fontes militares com informações sobre o terreno afirmaram a veículos de imprensa internacional que os ataques iranianos mais recentes mostraram um maior nível de sofisticação ao furar a defesa aérea disponível. A rede americana Bloomberg citou relatos de autoridades que mencionam uma “evolução nos mísseis balísticos” utilizados, indicando que seriam mais rápidos e manobráveis do que aqueles empregados anteriormente. Ao WSJ, Kochav pontuou que os ataques atuais estariam sendo mais sentidos em razão de danos causados por bombardeios iranianos na primeira etapa do conflito. — Os radares deles [países do Golfo] estão expostos. A infraestrutura deles está exposta — disse o analista, indicando uma ideia de progressão na ofensiva iraniana. Ajuda externa? O desempenho iraniano também reacendeu teorias sobre uma colaboração direta de rivais estratégicos dos EUA, como Rússia e China, no esforço de guerra do país. Autoridades americanas, incluindo o chefe do Estado-Maior Conjunto, general Dan Caine, sugeriram publicamente que haveria informações sobre laços entre Teerã e Moscou. Após a última onda de ataques, alguns indícios voltaram a ser apontados. Masoud Pezeshkian, presidente do Irã, cumprimenta Vladimir Putin, presidente da Rússia, durante encontro em 2024 — Foto: Alexander Shcherbak/AFP Fontes ouvidas sob condição de anonimato pela agência de notícias Reuters afirmaram na semana passada que uma investigação em curso estaria avaliando um possível compartilhamento de inteligência russa com Teerã, que resultou em ataques a drone contra instalações da CIA na Arábia Saudita e no Iraque. O elo ainda não foi estabelecido pelas autoridades americanas, segundo as fontes, mas uma agência de inteligência ocidental teria circulado um memorando indicando um provável papel russo na definição dos alvos. Embora inconclusivo, um compartilhamento de inteligência por parte de um rival estratégico não seria incomum, diz Moita, lembrando que aliados no Ocidente oferecem inteligência às forças ucranianas na guerra contra os russos no Leste Europeu. — Não posso afirmar com 100% de certeza, mas pode estar acontecendo. Seria o velho chumbo trocado entre potências — disse o professor, recordando também que o Irã mantém uma cooperação de tecnologia com a Rússia desde 2024, intercambiando informações para aprimorar armamentos a partir das experiências nos campos de batalha europeus e do Oriente Médio. Negativa russa e chinesa O analista aponta, ainda, que outros tipos de cooperação estrangeira têm evidências mais firmes, incluindo a aquisição por Teerã de componentes tecnológicos e sistemas de defesa antiaérea da Rússia e também da China. Os dois países negaram supostas colaborações anteriormente citadas. Pequim rejeitou ter fornecido dados militares por meio de um satélite espião, usados por Teerã para atacar uma base americana em março, segundo uma investigação. O Kremlin classificou como falsa uma informação divulgada pela imprensa americana de que teria fornecido o sistema de navegação por satélite Kometa-M para melhorar o desempenho de drones Shahed. Foto divulgada pelo Exército do Irã em 19 de abril de 2023 mostra veículos aéreos militares não tripulados (UAVs ou drones) em exibição durante uma cerimônia — Foto: Exército do Irã via AFP