Memorando de entendimento firmado com os EUA adia as etapas mais difíceis para Teerã para negociações posteriores, ao mesmo tempo que lhe garante benefícios cruciais 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Mulher caminha ao lado de um outdoor com a bandeira nacional do Irã na Praça Enghelab, em Teerã — Foto: AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 18/06/2026 - 19:35 Acordo EUA-Irã: Alívio Econômico em Troca de Concessões Nucleares O acordo preliminar entre EUA e Irã oferece alívio econômico ao Irã, permitindo a exportação de petróleo, em troca de concessões mínimas no programa nuclear. Esse memorando favorece Teerã, aliviando sanções e prometendo negociações futuras. Apesar das críticas, o acordo é visto como potencial abertura nas relações bilaterais, em meio a uma economia iraniana em crise. Analistas destacam que poderia ter sido alcançado sem conflito. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO O acordo inicial entre os Estados Unidos e o Irã para suspender a guerra concede ao Irã importantes benefícios econômicos, ao mesmo tempo que adia as concessões mais difíceis que o país teria que fazer em relação ao seu programa nuclear. O acordo suspende o bloqueio naval imposto pelos EUA aos portos iranianos e, crucialmente, conced ao Irã isenções para exportar seu petróleo antes da negociação de um acordo final sobre seu programa nuclear. Isso dará à República Islâmica um importante fôlego econômico. Nos últimos anos, sua economia tem estado em queda livre, com uma moeda em colapso e inflação altíssima. A principal medida a ser tomada pelo Irã é a reabertura do Estreito de Ormuz para livre passagem pelos próximos 60 dias, embora o acordo pareça deixar em aberto a possibilidade de cobrança de taxas após esse período. — Em resumo, o memorando parece favorecer o Irã — disse Nicole Grajewski, professora do Centro de Estudos Internacionais da Sciences Po, na França, e especialista em política externa iraniana. — Teerã garante avanços rumo ao alívio das sanções, um caminho para a restauração das exportações de petróleo, acesso a benefícios econômicos e uma redução da pressão militar, ao mesmo tempo em que assume compromissos nucleares relativamente limitados. Mas muitas das concessões mais difíceis que os Estados Unidos buscavam foram adiadas, acrescentou ela, embora seja possível que um futuro acordo possa reequilibrar as concessões e os ganhos de cada lado. — Mas, a julgar apenas pelo memorando em si, os benefícios imediatos e concretos se acumulam desproporcionalmente para o Irã — analisou Grajewski. O acordo estipula que os Estados Unidos devem começar a suspender imediatamente o bloqueio naval ao Irã e que Teerã deve permitir o tráfego comercial pelo Estreito de Ormuz, mas não ficou claro se essas medidas foram tomadas. Mesmo assim, a notícia de que os dois países haviam chegado a um acordo fez com que os preços do petróleo caíssem, com o preço médio da gasolina nos EUA chegando a menos de US$ 4 por galão nesta quinta-feira, pela primeira vez em meses. Os críticos estão alarmados com a cláusula sobre as vendas de petróleo, em particular, porque ela também compromete os Estados Unidos a suspender temporariamente as restrições bancárias para facilitar o comércio de petróleo com o Irã. “Ampliar a autorização para transações financeiras quebraria a estrutura central das sanções financeiras e petrolíferas dos EUA contra o Irã, possivelmente a alavanca econômica mais poderosa que os EUA exercem sobre esse regime, na ausência do bloqueio naval”, escreveu Miad Maleki, ex-funcionário do Tesouro dos EUA e pesquisador sênior da Fundação para a Defesa das Democracias, nas redes sociais. O governo do presidente americano, Donald Trump, afirmou que o acordo provisório mantém a influência dos Estados Unidos sobre o Irã e que o acordo final incluirá a verificação do cumprimento das restrições nucleares iranianas. Também afirmou que a remoção de todas as sanções depende de uma transformação fundamental no comportamento do Irã, incluindo o fim do apoio a grupos militantes no exterior. — Eles realmente acham que vamos suspender as sanções contra o sistema iraniano se eles ainda estiverem financiando uma organização terrorista? — questionou o vice-presidente dos EUA, JD Vance, em entrevista à seção de Opinião do New York Times, publicada na quinta-feira. Mas, embora muitas restrições ao Irã permaneçam em vigor durante o período provisório, antes de um acordo definitivo, o país provavelmente se beneficiará com bilhões de dólares com a retomada das vendas de petróleo. Aqueles que defendem a diplomacia com Teerã elogiaram o memorando, afirmando que ele oferece a oportunidade de um novo capítulo nas relações entre EUA e Irã. "As medidas deste acordo não devem ser interpretadas como concessões, mas sim como correções a uma política de coerção de décadas que foi um fracasso abjeto e tornou a guerra inevitável”, afirmou Jamal Abdi, presidente do Conselho Nacional Iraniano-Americano, um grupo de defesa de direitos, em um comunicado. O colapso da economia da República Islâmica tem sido uma fonte de descontentamento para o povo iraniano na última década. Desde 2017, três grandes ondas de protestos eclodiram devido a preocupações econômicas e rapidamente levaram os manifestantes a exigir mudanças fundamentais no sistema de governo do Irã. A última onda, que começou em dezembro após uma queda acentuada no valor do rial, a moeda iraniana, resultou na repressão brutal das manifestações pelas autoridades. O aumento das receitas do petróleo ajudaria a sustentar o valor do rial, a moeda local, e aliviar a pressão sobre o orçamento do governo, dando algum alívio aos consumidores e contribuintes iranianos. Mas a corrupção e a má gestão governamentais também são as principais causas dos problemas econômicos do país persa e provavelmente continuarão sendo no curto prazo. Alguns analistas ficaram perplexos com o fato de um acordo semelhante não ter sido firmado antes de uma guerra que durou meses, matou civis iranianos, destruiu partes da infraestrutura do país e permitiu que o Irã exercesse influência sobre a economia global. — É difícil escapar à conclusão de que essas negociações poderiam ter ocorrido sem uma guerra de três meses — pontuou Holly Dagres, pesquisadora sênior do Washington Institute. — Grande parte do que está delineado no acordo — incluindo o Estreito de Ormuz, que historicamente permaneceu aberto — poderia ter sido resolvido por meio da diplomacia. Holly ressaltou ainda que o acordo deixou as questões mais difíceis, incluindo os limites precisos a serem impostos ao programa nuclear iraniano, para negociações posteriores. — Estou cética de que os próximos 60 dias de negociações produzirão resultados concretos — declarou ela. — Isso é apenas adiar o problema.