Apesar do alívio momentâneo, risco nuclear permanece, e tensões com Israel não foram resolvidas 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Marcas da guerra em Teerã, capital do Irã — Foto: Arash Khamooshi/The New York Times/ 02/03/2026 O acordo de cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã anunciado na madrugada de segunda-feira deve ser encarado com ceticismo. Depois de inúmeros vaivéns diplomáticos, o governo Donald Trump e o regime dos aiatolás deverão se reunir na próxima sexta-feira em Genebra para assinar um documento cujo teor ainda não veio a público na íntegra. Pelas informações disponíveis, contudo, já é possível afirmar que a interrupção das hostilidades — embora bem-vinda pelos efeitos imediatos, tanto em perdas humanas quanto materiais — não será suficiente para assegurar um Oriente Médio menos sujeito a convulsões. Os termos do “memorando de entendimento” estabelecem um prazo de 60 dias, durante o qual os Estados Unidos se comprometem a interromper o bloqueio naval ao Estreito de Ormuz, o Irã a desmantelar as minas marítimas espalhadas pela área, e — assim se espera — o tráfego naval livre será retomado sem cobrança de pedágios ou ataques de ambos os lados. É uma boa notícia para os mercados de petróleo e para a economia global. Mas o saldo positivo se esgota aí. A principal motivação da guerra — o desmantelamento do programa nuclear iraniano, ameaça não apenas à estabilidade no Oriente Médio, mas a todo o planeta — foi atingida apenas parcialmente. O Irã ainda mantém, sob os escombros dos ataques, urânio enriquecido num patamar suficiente para construir até 12 bombas atômicas em prazo curto. Há no memorando, é verdade, um compromisso formal de que o país não tem a intenção de desenvolver armas nucleares. Mas o retrospecto iraniano mostra que não é um compromisso confiável. E, por ora, não há nenhuma salvaguarda para assegurá-lo. A capacidade militar iraniana foi abalada, mas o regime dos aiatolás resistiu à investida de americanos e israelenses. Diferentes alas da Guarda Revolucionária Islâmica se digladiam pela primazia no poder, e ainda não há um quadro definido sobre o desfecho. Em qualquer cenário, a oposição que atua tanto dentro quanto fora do país se mostra decepcionada com o acerto, elaborado às pressas numa tentativa de interromper a queda de popularidade de Donald Trump antes das eleições de novembro. A esperança de derrocada da teocracia se frustrou. Israel, parceira americana na guerra, foi alijada das negociações por Trump. Ele criticou duramente o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu por tentar sabotá-las mantendo ataques ao Líbano — cujo fim foi imposto como condição pelo Irã para aceitar o acordo. O governo israelense já afirmou que não desocupará o Sul do Líbano, nem a Faixa de Gaza, nem territórios da Síria enquanto julgar haver ameaças terroristas nesses locais. No próprio domingo em que o acordo era discutido, atacou alvos do Hezbollah em Beirute. Por mais que Trump consiga encenar apaziguamento em torno de um documento qualquer, as incertezas persistirão, e as tensões continuarão. Para Israel, enquanto os iranianos puderem obter armas nucleares, e enquanto permanecer no poder o regime cuja meta é acabar com o país — sustentando uma vasta rede terrorista no mundo todo —, permanecerá a ameaça existencial. Netanyahu também enfrenta eleições em outubro. Mesmo que perca, nenhum governo israelense aceitará o risco de um Irã nuclear. Não há como escapar à conclusão de que, mesmo depois do acordo, o planeta terá ficado pior do que antes da guerra.
Acordo entre Irã e Estados Unidos desperta ceticismo
Apesar do alívio momentâneo, risco nuclear permanece, e tensões com Israel não foram resolvidas











