Após 108 dias de guerra, Estados Unidos e Irã concordaram em cessar as hostilidades e discutir o futuro na mesa de negociações - desfecho que ainda desperta ceticismo e indica que o conflito nunca deveria ter sido iniciado. O programa nuclear iraniano, um dos alvos do governo americano, continua objeto de acordo futuro, depois que o presidente Donald Trump rejeitou em 2018 o realizado pelo governo de Barack Obama. As sanções, que deveriam levar o Irã a cessar ambições nucleares, continuam sobre a mesa. A guerra provocou o maior choque na oferta de petróleo da história e um impulso inflacionário global relevante, mas com um resultado inútil. A demonstração da força militar inegável dos Estados Unidos foi inconclusiva. Era sabido desde o início da Operação Fúria Épica, em 28 de fevereiro, que nenhuma alteração relevante ou das metas maximalistas de Trump poderia ser conseguida sem tropas no terreno - enviá-las, por outro lado, atrairia os EUA para um novo atoleiro, como no Iraque e no Afeganistão. Ao mesmo tempo em que restringiu o uso de seu poder bélico, Trump, paradoxalmente, ampliou objetivos e ameaças. Sem estratégia definida, não conseguiu atingir quase nada do que dizia pretender. A rendição incondicional exigida nos primeiros dias de bombardeio não aconteceu. Tampouco ocorreu a queda do regime, ilusão que o presidente americano nutriu, após ter matado no primeiro dia de guerra o líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, e parte do primeiro escalão militar e de inteligência do regime. O fim dos programas de mísseis e drones iranianos não se realizou, como mostrou a retaliação do Irã ao disparar contra bases americanas no Kuwait, Catar, Bahrein e Jordânia, após ataques dos EUA a seu território. Não houve também o fim do apoio do Irã a grupos extremistas da região, como o Hezbollah no Líbano. Foi uma exigência iraniana para entendimentos para a paz que Israel parasse de bombardear o grupo xiita no sul do Líbano. Das bandeiras de Trump, restou o programa nuclear, após proclamar seguidas vezes que o Irã jamais teria armas atômicas. É o que restou de substantivo para discutir entre os dois países, em 60 dias depois de sexta-feira, quando passará a vigorar um memorando de entendimento. O Irã repetiu o que sempre disse, e que não é crível: que seu programa nuclear é pacífico. EUA e Irã terão de resolver agora o que será feito de 440 kg de urânio enriquecido a 60%, perto do grau de pureza que propiciaria a confecção de armas nucleares. Não há detalhes do acordo, mas Trump recuou do desejo de retirar esse material do país para os EUA ou outra nação. Fala-se agora em dissolvê-lo no Irã. Alguma forma de supervisão do programa iraniano será estabelecida, e o acordo de julho de 2015, enquanto vigente, pressupunha inspeções in loco, sem restrições, da Agência Internacional de Energia Atômica. Dez anos e uma guerra depois, volta-se ao ponto de partida. A diferença é que a infraestrutura nuclear iraniana foi severamente danificada e o uso bélico do processamento do urânio, se existia a intenção, foi bastante retardado. As sanções dos EUA asfixiam a economia iraniana, às voltas com baixo crescimento e custo de vida em alta, que provocaram manifestações massivas de descontentamento contra a ditadura dos aiatolás, reprimidas com violência pelo regime. Bilhões de dólares do Irã retidos no exterior poderão retornar ao país dependendo dos resultados das negociações. Os EUA abriram uma fresta no bloqueio, ao permitirem, segundo fontes do acordo, que durante 60 dias estarão livre de proibições as exportações de petróleo iraniano. Trump resolveu encerrar a guerra da mesma maneira improvisada pela qual entrou nela, pois seus prejuízos políticos passaram a superar os benefícios. A inflação subiu de 2,4% em fevereiro, antes dos ataques, para 4,2% em maio, o que lhe custou em popularidade - hoje tem 38% de apoio, o mais baixo de seu segundo governo. Diante de uma eleição crucial de meio de mandato, uma parte dos republicanos começou a se rebelar contra o presidente, que estaria conduzindo o partido para uma derrota certa. O choque do petróleo, ademais, reduzirá o crescimento global no ano de 2,9% para 2,6%, segundo o Banco Mundial, ou de 3,4% em 2025 para 2,8% em 2026, de acordo com a OCDE. O custo do conflito para o Tesouro americano varia de US$ 29 bilhões (Pentágono) a US$ 34 bilhões (American Enterprise Institute), com o juro dos títulos americano de 10 anos subindo de 4% para 4,4%. Os EUA destruíram grande parte da capacidade militar iraniana, mas levaram ao poder a ala mais radical do regime. Permitiram, com sua aventura militar, que o Irã demonstrasse sua capacidade de interromper o fluxo de petróleo em Ormuz e de atingir os países vizinhos, a maioria aliados americanos. A guerra não tornou a região mais estável, senão o contrário, dando bons motivos aos países aliados para desconfiarem de que os EUA são incapazes de protegê-los. Um acordo de paz, se vingar, é benéfico para o mundo, ao pôr fim a uma guerra insana deslanchada por um presidente irresponsável.