Danny Zahreddine, professor da PUC Minas, vê Teerã com mais força nas negociações agora do que em 2015, quando foi firmado um acordo nuclear rasgado por Trump 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Jornal iraniano Hamshahri traz imagem do presidente dos EUA, Donald Trump e a manchete 'E o vento levou' — Foto: AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 20/06/2026 - 15:44 Assinatura de Memorando entre EUA e Irã Inicia 60 Dias de Negociações Cruciais A recente assinatura de um memorando de entendimento entre EUA e Irã marca um período de 60 dias para negociações sobre o programa nuclear iraniano e questões regionais, segundo Danny Zahreddine, professor da PUC Minas. Apesar de a guerra ter sido devastadora para o Irã, politicamente fortaleceu Teerã nas negociações. Israel, insatisfeito, não quer suspender a ofensiva no Líbano. A morte de Ali Khamenei e a ascensão de líderes mais radicais no Irã alteraram o cenário político e estratégico, causando tensões na região. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Com a assinatura do memorando de entendimento entre EUA e Irã, na semana passada, teve início o prazo de 60 dias para que os dois lados cheguem a um acordo que toca em temas sensíveis, como o programa nuclear iraniano, a navegabilidade no Estreito de Ormuz e o cenário de segurança regional. Nem todos ficaram satisfeitos: Israel não quer suspender sua ofensiva no Líbano, e a oposição interna acusa o premier, Benjamin Netanyahu, de transformar o país em um protetorado. Em entrevista ao GLOBO, Danny Zahreddine, professor da PUC Minas e autor de “O Oriente Médio: Velhos e Novos Conflitos” (Ed. Juruá), destaca a posição de força dos iranianos nas conversas, e como o presidente dos EUA, Donald Trump, se pôs em uma posição complexa ao apostar todas suas fichas no sucesso do plano, mesmo que às custas de velhas alianças no Oriente Médio. O memorando, como o nome diz, é um conjunto de intenções que será trabalhado nos próximos 60 dias. Pensando no resultado final, o senhor acredita que ele ficará muito distante do que estava previsto no acordo nuclear de 2015 ("Plano de Ação Conjunta Global", conhecido pela sigla JCPOA), rasgado pelo mesmo Donald Trump? Sim, mas com algumas pequenas diferenças. Como um pedágio um pouco maior ao Irã, algo entre 10, 15 anos de não enriquecimento de urânio. Mas as condições, no todo, são bem melhores para os iranianos, porque estão falando, por exemplo, de liberar alguns ativos que estão congelados desde a Revolução Islâmica. Há o investimento de US$ 300 bilhões, que é outro ponto de controvérsia. Então eu vejo um cenário, do ponto de vista conceitual, muito parecido com aquilo que foi firmado durante o governo de Barack Obama, como a manutenção do programa nuclear com fins pacíficos Mas do ponto de vista político, o memorando dá muito mais força pro Irã agora do que no passado. Falando do acordo de 2015, um de seus pilares foi a construção de uma relação de confiança entre os negociadores. Agora os iranianos estão mais cautelosos com Trump, que os bombardeou duas vezes em meio a conversas diplomáticas. Neste período de 60 dias, é possível criar alguma base para compromissos? Há duas formas de construir compromissos. Uma delas é a confiança nas pessoas, nos parceiros, nas instituições. Outra forma é pela violência. Quando pensamos em um acordo pós-guerra, ele é feito porque um lado venceu e o outro perdeu. No caso do JCPOA, houve uma tentativa genuína de criar um terreno comum, um acordo com um bom fundo de verdade. Só que Israel jamais aceitou isso, e foi por isso que o acordo de 2015 foi rasgado, porque era um plano bom, que funcionava, mas que era percebido como uma possibilidade de crescimento, de empoderamento do Irã, e para Israel isso era inaceitável. Agora, mesmo sem a confiança mútua, sem o terreno comum, acredito que será possível obter algo, porque o Irã deu um xeque-mate. Ele criou uma condição, usando sua geografia, usando um sistema defensivo único que deixou os americanos em uma sinuca de bico. A guerra foi destrutiva para os iranianos, mas deu resultados do ponto de vista político. Por isso, acredito que, em razão de questões de segurança, alguma coisa pode sair ao final dos 60 dias. Trump e seu vice, JD Vance, apostaram todas as suas fichas no sucesso das negociações com o Irã. Mas eles estão preparados para o caso de dar errado? Hoje, o sucesso dos americanos foi reabrir o Estreito de Ormuz, que estava aberto antes da guerra. Na verdade, não houve sucesso, mas sim fracasso, e em meio a uma dança à beira do abismo. Ao mesmo tempo, é necessário criar uma narrativa, uma saída do ponto de vista conceitual. Então eles vão dizer que o Irã foi enfraquecido, que se comprometeu em jamais ter uma arma nuclear, que a Marinha está acabada e o Exército devastado. Lembra um pouco de [Carl von] Clausewitz, que dizia que a guerra é vencida no âmbito da política, e que é a continuação da política por outros meios. Foi uma fala muito impressionante, não me lembro da última vez que um vice-presidente dos EUA foi tão direto com Israel. Isso confirma que, neste momento, as negociações são a única saída que os americanos têm. Eles não querem voltar para a guerra, e precisam de uma saída minimamente honrosa. Vão se agarrar ao elemento político como tábua de salvação para a reputação do país. Netanyahu tentou moldar o acordo, mas até os EUA sabiam que, nos termos dele, nada seria assinado. Por isso, Trump inicialmente não permitiu que os israelenses tivessem acesso ao memorando, só depois, quando tudo já estava encaminhado. De fato, o maior perdedor desse protocolo de intenções é Israel, porque não alcançou absolutamente nada do que esse [David] Ben-Gurion às avessas prometeu. Agora ele não vai conseguir mexer no documento, mas vejo a possibilidade de tentarem destruir a possibilidade de sucesso continuando a atacar o Líbano. Hoje, o Líbano é o pomo da discórdia, um país que se transformou no elemento que pode dar legitimidade a vários atores. Como o Hezbollah, que hoje trava uma luta existencial. Ao mesmo tempo, o governo libanês tenta recuperar seu papel de força soberana, que deixou de existir há muitos anos. Neste cenário, Israel dá mostras de que quer levar ao limite as margens de manobra que os americanos lhe deram nos últimos três, quatro anos, vistas em cenários como Gaza, Síria e Irã. Irã aperta controle sobre Estreito de Ormuz e impõe vitória estratégica no conflito contra os EUA e Israel — Foto: Editoria de Arte/O Globo Trump não consegue controlar Netanyahu, e ele acha que pode controlar o presidente sírio. Ele acredita que Netanyahu exagera em suas ações, é muito pressionado pela extrema direita sionista messiânica e faz coisas que as pessoas geralmente não deveriam fazer. E Ahmed al-Sharaa demonstrou uma fidelidade canina a Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Egito e aos Estados Unidos. Controlar os sírios hoje seria muito mais fácil do que os israelenses, mas é uma avaliação de curtíssimo prazo, e feita por quem não conhece a História. A experiência dos sírios com a atuação do Hezbollah na Guerra Civil Síria e a memória da Guerra Civil Libanesa mostram que isso não daria certo. Al-Sharaa sabe disso, e vai trabalhar no intuito de controlar bem a fronteira, não permitindo que qualquer tipo de munição entre no Líbano, essa é a maior contribuição que pode dar. As monarquias árabes do Golfo foram puxadas à revelia para a guerra, e terão que lidar diretamente com o Irã na vizinhança. Como deve se desenvolver essa relação? Durante 30, 40 anos, a relação dos países sunitas do Golfo com o Irã foi antagônica, e a guerra mostrou que isso não funcionou. Isso começou a se revelar no final do governo de Joe Biden, quando os EUA pressionaram os sauditas por causa do assassinato do jornalista Jamal Khashoggi. Isso estremeceu as relações entre os dois lados e jogou a Arábia Saudita no colo dos chineses. E aí temos a mágica, de uma hora para a outra, da reaproximação dos sauditas com o Irã, e com os dois entrando para os Brics. Na guerra de 12 dias no ano passado, quando Israel atacou o Irã, os sauditas disseram ser contra a guerra “contra uma nação irmã”. Agora, através da violência, os iranianos disseram que a integração é melhor do que a destruição. Eu vejo um momento parecido com o que aconteceu com a União Europeia, que nasce da compreensão de que uma terceira guerra no continente levaria ao extermínio geral e completo. O que aconteceu nos últimos 100 dias será muito impactante para a História da região, dos Estados Unidos e de Israel. Por isso, vejo um movimento de integração. Não na base do amor, mas da necessidade. O Irã passou por uma mudança crucial desde o início da guerra, com a morte de Ali Khamenei e o empoderamento de elementos mais radicais e ligados à Guarda Revolucionária. Será necessário mudar a forma como o mundo dialoga com o Irã daqui para a frente? No primeiro dia de guerra, Khamenei foi morto em seu palácio ao lado da família. Ele não correu dali, talvez antecipando o bombardeio, e imaginando que sua morte seria capaz de salvar o regime. E ele não apenas salvou o regime, mas o tornou ainda mais radical. Ali Khamenei acreditava que seu filho, Mojtaba, tinha uma visão diferente da sua, uma vez que havia servido na Guarda Revolucionária e não iria manter o equilíbrio entre os clérigos, o Parlamento, a sociedade e a Guarda caso se tornasse líder supremo. Mas foi justamente a postura de Mojtaba e da Guarda Revolucionária que abriu caminho para o Irã fazer o que fez na guerra. Ali Khamenei sempre tentou contemporizar com o Ocidente, mas ele foi morto no primeiro dia da guerra, e a linha dura assumiu seu lugar. Agora, foram eles que pressionaram os negociadores para que não aceitassem qualquer acordo, e só por isso o memorando, em sua forma final, foi obtido. Vivemos um momento histórico, no qual a maior potência militar vai aceitar um acordo que é muito negativo para sua aliança no Oriente Médio, e que revelou que não alcançaram quase nada do que pensavam ser possível.