Em "Simplesmente Eu, Clarice Lispector", o desafio de transpor a densidade silenciosa da literatura para a extroversão inevitável do palco encontra uma solução inesperada: em vez de tentar explicar Clarice, o teatro a flagra no ato de se inventar. Beth Goulart, idealizadora do projeto, compreendeu que a autora de "Água Viva" não habitava a crônica biográfica, mas os vãos entre as palavras. Ao transformar a reclusão literária em matéria física, a montagem investiga o peso que o pensamento exerce sobre o corpo.

Trata-se de um trabalho autoral e profundamente pessoal de Beth Goulart: o encontro de uma atriz em seu amadurecimento artístico com uma das mentes mais complexas da literatura. Desse encontro nasce uma comunhão que transborda em emoção e pensamento. O espetáculo convida o público a refletir sobre criação, solidão, o divino e, sobretudo, o amor, oferecendo um retrato da mulher por trás da lenda, feita de contradições e de uma humanidade avassaladora.

Essa passagem da página para a voz ganhou contornos nítidos graças à interferência de Amir Haddad na supervisão de cena. Conhecido por suas dinâmicas no teatro de rua, Haddad atuou como uma âncora à terra, impedindo que a montagem naufragasse no isolamento hermético e estimulando a atriz a buscar o olho no olho com a plateia.