Felipe Hirsch parte de uma imagem que é ao mesmo tempo poética e cirúrgica: a mente humana como uma orquestra fantasma, uma sinfonia de vozes, ruídos, propagandas, sussurros, línguas mortas e frases não ditas que nos atravessam sem pedir licença. Não somos autores dos nossos pensamentos. Somos antenas. A premissa de "Orkhḗstra Phántasma" — com dramaturgia assinada por Hirsch, Caetano W. Galindo e Juuar — é o que acontece quando você finalmente aceita o ruído do mundo.

A estrutura é deliberadamente fragmentada, mas com uma lógica obscura e musical. O espetáculo, encenado no Teatro Antunes Filho, organiza-se em torno de quatro metáforas operacionais: o rádio (o controle que nos é imposto), a jukebox (a ilusão de escolha em um repertório precificado e formatado), o karaokê (onde o indivíduo entra com a voz e o corpo para preencher a representação) e a turntable ou toca-discos (a via de dissidência pela manipulação e colagem).

Essa arquitetura conceitual ganha corpo no espaço criado por Daniela Thomas e Felipe Tassara, onde dezenas de alto-falantes simulam ouvidos mecânicos voltados para a cena. A iluminação de Beto Bruel, com focos restritos e luzes estroboscópicas, faz com que tudo surja de forma fantasmagórica antes de submergir no breu. Sobre esse desenho, a direção de movimento de Eduardo Fukushima alterna o rigor geométrico com explosões de coreografia caótica, enquanto a paisagem sonora do duo Os Fita completa a atmosfera.