Originalmente publicada no GLOBO, série ‘Quadrinho dos anos 20’ inspira peça que explora dependência de eletrônicos: ‘Sou otimista, mas também sou realista’, diz autor 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Lucas Moreira e Roberto Rodrigues em cena da peça 'Algoritmo', da companhia Circo Dux, inspirada na obra de André Dahmer — Foto: Isadora Relvas e Philipp Lavra/Divulgação RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você Com temporada no Sesc Copacabana, no Rio de Janeiro, a montagem mistura palhaçaria e ilusionismo para debater de forma cômica e crítica a dependência dos dispositivos eletrônicos. A peça é uma adaptação livre da série de tirinhas "Quadrinhos dos anos 20", publicada no GLOBO e na Folha de S. Paulo, na qual o cartunista André Dahmer personifica o algoritmo como um vilão que sabota a concentração humana. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO André Dahmer joga cerca de dez partidas de xadrez por dia. O quadrinista, artista visual e poeta adquiriu o hábito depois de se dar conta, há mais ou menos dois anos, de que o Instagram estava “comendo” nacos generosos de seu cérebro, como ele conta. — E aí encontrei uma coisa melhor do que ficar rolando a timeline. Assim alimento a minha cabeça e me preparo para a velhice em vez de ir para o caminho da senilidade... Porque ficar vendo merda nas redes sociais causa senilidade — diz. Veja fotos dos vencedores do Nobel de Literatura do século XXI 1 de 26 Gao Xingjian, vendedor do Prêmio Nobel de Literatura em 2000 - Foto Jwh / Wikimedia Commons 2 de 26 O escritor Vidiadhar Surajprasad Naipaul, vencedor do Nobel de literatura em 2001 — Foto: Ulf Andersen / Aurimages X de 26 Publicidade 26 fotos 3 de 26 O escritor Húngaro Imre Kertész, vencedor do Nobel de literatura em 2002 — Foto: AFP PHOTO / ANDREAS ALTWEIN 4 de 26 J.M. Coetzee, escritor sul-africano vencedor do Nobel de literatura em 2003 — Foto: Divulgação X de 26 Publicidade 5 de 26 A austríaca Elfriede Jelinek, vencedora do prêmio em 2004 - Foto divulgação 6 de 26 Harold Pinter, dramaturgo britânico, morto em 2008, foi o vencedor do prêmio Nobel de Literatura em 2005 X de 26 Publicidade 7 de 26 Orhan Pamuk, romancista turco, venceu o prêmio Nobel de Literatura em 2006 - Foto Helena Celestino 8 de 26 Doris Lessing, morta em 2013, aos 94 anos, foi a pessoa mais velha a ganhar o Nobel de Literatura em 2007 - Foto AFP PHOTO/SHAUN CURRY X de 26 Publicidade 9 de 26 Jean-Marie Gustave Le Clézio, vencedor do Prêmio Nobel da Literatura em 2008 - Foto Holger Motzkau / Wikimedia Commons 10 de 26 Herta Muller, escritora, vencedora do prêmio Nobel de Literatura em 2009 - Foto Robert Caplin/The New York Times X de 26 Publicidade 11 de 26 Mario Vargas Llosa, escritor peruano, vencedor do Nobel de Literatura em 2010. Foto Edilson Dantas / Agencia O Globo 12 de 26 Tomas Tranströmer, vencedor do prêmio em 2011 - Foto Andrey Romanenko / Wikimedia Commons X de 26 Publicidade 13 de 26 Mo Yan, escritor, vencedor do Nobel de Literatura em 2012 - Foto AFP PHOTO / Jonathan Nackstrand 14 de 26 Alice Munro, escritora, vencedora do Nobel de Literatura em 2013 - Foto AFP PHOTO/ Peter Muhly X de 26 Publicidade 15 de 26 Patrick Modiano, escritor, vencedor do Nobel de Literatura em 2014 - Foto divulgação 16 de 26 A bielorrusa Svetlana Alexievich, vencedora do Nobel de Literatura em 2015 - Foto Bárbara Lopes / Agência O Globo X de 26 Publicidade 17 de 26 Bob Dylan, vencedor do Nobel de Literatura em 2016 - Foto Hector Mata / AFP 18 de 26 Kazuo Ishiguro, autor do livro "O gigante enterrado", venceu o Nobel de Literatura em 2017 - Foto Divulgação / Ryan Stevenso X de 26 Publicidade 19 de 26 Olga Tokarczuk, vencedora do Nobel de Literatura em 2018 - Foto Maciek Nabrdalik/The New York Times 20 de 26 Peter Handke, escritor austríaco, vencedor do Nobel de Literatura em 2019 - Foto Alain JOCARD / AFP X de 26 Publicidade 21 de 26 A poeta americana Louise Gluck, vencedora do Nobel de Literatura 2020 - Foto ROBIN MARCHANT / AFP 22 de 26 Abdulrazak Gurnah, escritor tanzaniano, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 2021 - Foto Tolga Akmen / AFP X de 26 Publicidade 23 de 26 A escritora francesa Annie Ernaux, vecedora do Prêmio Nobel de Literatura em 2022 - Foto Isabelle Eshraghi/The New York Times 24 de 26 Jon Olav Fosse, escritor e dramaturgo norueguês, vendedor do Prêmio Nobel de Literatura - Foto Ole Berg-Rusten / NTB / AFP X de 26 Publicidade 25 de 26 Han Kang, escritora da Coreia do Sul — Foto: Jean Chung/The New York Times 26 de 26 Húngaro László Krasznahorkai vence o Nobel de Literatura 2025 — Foto: NEUMAYR / APA / AFP X de 26 Publicidade . Ele contém uma risada ao citar a lente de “ingenuidade” com a qual enxergava o mundo digital na juventude. No início dos anos 2000, quando a internet era apenas uma marolinha discada, o artista vislumbrava uma permanente ressaca de liberdade: achava que emergiria dali a mais confiável e democrática fonte de conhecimento, a cura de doenças, o esclarecimento político geral... Foi nesse mar aberto da web, aliás, que ele surfou os primeiros anos da carreira e ganhou notoriedade com a publicação de tiras de humor ácido no blog “Malvados”. Até que levou um caldo. Hoje, ele crê que a maré virou e desaguou num “negócio terrível”. Nos traços de Dahmer, a internet virou o reino de um vilão trajado e protegido com macacão laranja e luvas e capacete amarelos — e que ganha a vida corroendo a concentração dos outros, propagando desinformação e vendendo (clique aqui!) qualquer tipo de serviço ou quinquilharia. Protagonista da série “Quadrinhos dos anos 20”, publicada originalmente nas páginas deste Segundo Caderno, no GLOBO, e na Folha de S. Paulo (e vertida, em 2023, para um livro editado pela Companhia das Letras), o vilão Algoritmo, esta entidade onipresente e com ar sobrenatural, agora ganha carne e osso numa montagem teatral. Como gastar 1/4 da vida Livre adaptação da obra do cartunista carioca, “Algoritmo” dá vigor, no palco, ao painel cômico e, por vezes, assustador dos reveses da hiperconectividade. O espetáculo da companhia Circo Dux — que estreia na próxima quinta-feira (29) no Sesc Copacabana, na Zona Sul do Rio de Janeiro, onde seguirá em cartaz até 9 de agosto — transpõe para o tablado, em linguagem que mistura palhaçaria e ilusionismo, algumas das tirinhas de sucesso do autor. E vai além, ao compor uma dramaturgia própria que escarafuncha a miríade de absurdos relacionada à crescente dependência de dispositivos eletrônicos. — Sou otimista, mas também sou realista demais — afirma Dhamer, que vê o tema como algo incontornável, já que “a arte é reflexo do tempo”, como sublinha. — Mas não sou ludista para amaldiçoar as tecnologias. O problema está em outra instância, no capitalismo. Há pouco, conversei com a minha filha mais velha sobre isso (ele é pai de três meninas, de 2 anos, de 10, e a primogênita, de 15). Ao perder três horas do dia com rede social, ela gasta um quarto da própria vida. E não há interesse nenhum das empresas para que a gente saia dessas plataformas. Elas nos mantêm ali o tempo necessário para comprarmos alguma coisa. No fundo, a coisa é simples: a gente é só uma moeda. Ao mesmo tempo, precisamos estar ali dentro... Até se você é um dentista, vai precisar dançar e cantar no TikTok para se divulgar. De outro jeito, não se sobrevive. ‘Infocalipse’ à vista Está aí a caricatura de uma época movida a excessos de conteúdo e sustentada sobretudo por superficialidades (ou “poeiras de informação”, como cita o artista). Dahmer esboça rapidamente um exemplo. Pense só no roteiro: 1) Kant escreve um livro; 2) apenas cem pessoas leem a tese do autor; 3) alguém faz um resumo do calhamaço; 4) internautas fotografam partes da síntese e postam nas redes sociais; 5) o resumo passa a ser citado com o nome de outro autor; 6) ao fim, tem-se um vídeo de 30 segundos sobre o assunto. Eis o cenário perfeito para o processo lento e gradual de um “infocalipse”, conceito criado pelo americano Aviv Ovadya, como lembra o quadrinista, ao descrever o colapso total das ideias de verdade e confiança. Lucas Moreira e Roberto Rodrigues em cena da peça 'Algoritmo', da companhia Circo Dux, inspirada na obra de André Dahmer — Foto: Isadora Relvas e Philipp Lavra/Divulgação Equívocos, não à toa, acometem os próprios sistemas de inteligência artificial — ou o tal vilão Algoritmo. Num dos quadrinhos da série, um homem pede ao anti-herói que toque uma música para relaxar em casa. Ao que vem um batidão: “Senta, senta, senta...” Na contramão do conceito de desenho como “explicação”, a montagem do Circo Dux, em atividade há 21 anos, reforça linhas e falas que mais sugerem do que afirmam. Em cena, Lucas Moreira e Roberto Rodrigues encarnam situações que provocam graça e deixam alguma pulguinha atrás da orelha. — O riso traz a possibilidade de se afastar um pouco do mundo para olhar temas abrangentes — frisa a diretora Juliana Brisson. — E assim, para além do riso, é possível que aflorem emoções menos conclusivas. A gente quer provocar um deslocamento, inclusive físico, nas pessoas. A figura da palhaçaria faz isso, e a obra do Dahmer também causa algo nesse sentido. É a capacidade de provocar angústia, susto, nojo, espanto... E isso gera um curto-circuito que faz o espectador reagir e falar: “Opa, peraí, deixa eu me ajeitar na cadeira.” ‘Inventar é uma das coisas mais petulantes’ André Dahmer avisa que não cometeria falsa modéstia ao classificar o próprio traço no papel como “precário”. Mas ele acha que desenha apenas o suficiente para comunicar uma ideia — e que o centro gravitacional de seu trabalho está mais aí, no pensamento, do que na ilustração. Tirinha de André Dahmer da série 'Quadrinho dos anos 20' — Foto: André Dahmer Talvez por isso enxergue pouca distância entre os ofícios de quadrinista e poeta. Para ele, literatura, pintura e desenho “funcionam no mesmo lugar da cabeça”: estão bem assentados nos miolos responsáveis por qualquer criação. — Inventar é uma das coisas mais petulantes que o ser humano pode fazer. E isso é o que move a Humanidade, tanto para o bem quanto para o mal. Manoel de Barros escreveu que “tudo o que não invento é falso”. E Fernando Pessoa sugeria que fingir é se conhecer — diz Dahmer, que encontrou no minimalismo de tracejar com lápis, quase sem cor, uma maneira de dar corpo às abstrações. — Meu desenho é precário no sentido de ser uma gambiarra. É aquela coisa de “dar um jeito”, sabe? E uma gambiarra, às vezes, é o que se precisa para a água voltar a circular ou a luz retornar para uma casa. É o que salva a gente, muitas vezes... O desenho, e principalmente o quadrinho, está num lugar de conforto, para mim. Já são mais de duas décadas de prática. Então, aprendi a fazer isso. Tirinha de André Dahmer da série 'Quadrinho dos anos 20' — Foto: André Dahmer A disciplina foi uma conquista penosa. Na adolescência, Dahmer repetiu dois anos letivos, foi expulso de uma escola e mal conseguia permanecer sentado durante aulas inteiras. A mudança começou após os pais o matricularem no Centro de Arte Maria Teresa Vieira, no Rio. Entre cavaletes, tintas e oficinas, encontrou um tipo de concentração que classes convencionais jamais lhe ofereceram. O desenho passou a ser, então, um chão. A literatura, por outro lado, sempre despertou insegurança. Por muitos anos, como Dhamer confidencia, a escrita em versos permaneceu como uma experiência íntima recolhida às gavetas. Ele publicou livros de forma independente, com tiragens pequenas, até ser convencido por Alice Sant’Anna, poeta e editora, a reunir a produção numa coletânea. Semifinalista do Oceanos As palavras reverberaram. Lançado em 2021 pela Companhia das Letras, “Impressão sua” acabou alçado ao posto de semifinalista do prestigioso Prêmio Oceanos, para surpresa do autor. — Alice me ligou gritando: “Eu falei, eu falei!” Mas eu não entendia que se tratava de uma coisa importante. E nem sabia que as editoras inscreviam livros em premiações à revelia do autor — ele ri. O quadrinista André Dahmer — Foto: Divulgação Embora cite o improviso como principal motor da criação, Dahmer afasta a imagem do artista tomado por surtos de inspiração. Produz duas tiras por dia, além de livros, ilustrações e trabalhos sob encomenda. Cumpre prazos. Muitos, vários. Ainda assim, diz confiar mais na intuição — ele repete a palavra com fôlego — do que em métodos. — O ser humano improvisa o dia inteiro. A camisa verde está lavando? Vai, então, com a azul! Não tem pão de forma? Come pão francês! O ônibus quebrou? Vai de metrô! — compara. — Nas artes, acontece da mesma maneira. A gente nunca sabe bem quando uma ideia vai nascer e crescer. De repente, dá-se conta e vê-se que um personagem ganhou vida própria. Tirinha de André Dahmer da série 'Quadrinho dos anos 20' — Foto: André Dahmer Por isso, aliás, ele se encanta tanto com a “liberdade” do desenho — e não há internet ou algoritmo capazes de cerceá-lo, como sugere. A rigor, Dahmer precisa de pouco para inventar mundos: — Tenho amigos que precisam de R$ 5 milhões ou R$ 10 milhões para fazer um filme. Não preciso de nada. Uma caneta, um papel, um telefone para digitalizar os desenhos... Nem scanner eu preciso mais. O resto é um pouquinho de luz elétrica. Aos 51 anos — e com três filhas pequenas a tiracolo —, o ritmo de trabalho está diferente. Ele já não vara madrugadas com uma ideia na cabeça e um lápis na mão, como fazia há alguns anos. Nos armários, contabiliza cerca de 15 mil desenhos ou rascunhos inéditos (“Isso não vai faltar quando eu morrer”, avisa). — Eu queria trabalhar mais porque amo desenhar, escrever e pintar. Mas minhas filhas são muito mais importantes — ressalta. — Antes, trabalhava por prazer. Hoje, trabalho mais por responsabilidade. A gente muda muito. Sei que pode parecer clichês, mas filho muda a gente. Muito mesmo. IA, ‘o maior lixão’ Nem por isso, Dahmer deixa de acompanhar (e olhar com desconfiança) para o sem-número de novas ferramentas que chacoalham o universo artístico. Embora rejeite discursos “tecnofóbicos” — ele insiste que o problema nunca é a tecnologia em si, mas o uso que se faz dela —, o quadrinista vê a inteligência artificial como mais um mecanismo capaz de ampliar desigualdades. — Acho que vai acontecer como acontece com as cadeiras de plástico. Elas continuam existindo. Mas a cadeira feita à mão, de madeira boa, continua sendo vendida, só que para os ricos, né? A inteligência artificial vai popularizar um tipo de imagem barata. Honestamente, acho tudo o maior lixão. Veja só os convites de festinha de criança. É tudo igual e mal feito — diz. — O trabalho artesanal continuará existindo, só que cada vez mais como artigo de luxo.
Espetáculo da Cia Dux adapta tirinhas de André Dahmer sobre poder do algoritmo para o teatro
Originalmente publicada no GLOBO, série ‘Quadrinho dos anos 20’ inspira peça que explora dependência de eletrônicos: ‘Sou otimista, mas também sou realista’, diz autor






