Espetáculo em cartaz no CCBB do Rio aborda temas como pertencimento e exclusão social por meio de imagens poéticas e intenso trabalho físico 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Cena do espetáculo 'ConfuZo: está escurecendo dentro de mim', da Cia Dos à Deux — Foto: Renato Mangolin/Divulgação Artur Luanda Ribeiro pedala o equivalente a 28 quilômetros enquanto André Curti equilibra no cocuruto da cabeça um galho de árvore, de cerca de quatro quilos, ao longo de mais ou menos uma hora. Este é apenas o retrato chapado de “ConfuZo: está escurecendo dentro de mim”, novo trabalho da Cia Dos à Deux. Como nas demais obras da dupla, em atividade há 27 anos, um sem-número de pequenos detalhes — vários deles invisíveis aos olhos do público — preenche, numa fina corda bamba entre o claro e o breu, cada centímetro de um arrojado visual descortinado no palco. É arriscada a nova empreitada do duo, em cartaz até 26 de julho no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), no Rio de Janeiro. Sentado numa engrenagem em forma de bicicleta, Artur dá as voltas necessárias num pedal a fim de gerar, vrum, vrum, a energia com a qual opera — num painel analógico montado sobre o guidão — os 42 refletores que iluminam André no centro do tablado. — Se há uma vírgula fora do lugar, tudo desaba — confidencia Artur. — Não entramos em cena para executar simplesmente um texto. A gente faz uma performance com muitos elementos perigosos, em que tudo está frágil. É um cristal... Todas as coisas dependem umas das outras, do vento do ar-condicionado a qualquer passo mal dado. A gente entra no palco, então, num estado de vigília e suspensão. Verbo na carne Expoente do chamado “teatro gestual” — linguagem também tida como “teatro físico” ou “teatro visual”, categorias que, a rigor, não dão mais conta de uma forma “inclassificável”, como consideram os artistas —, a companhia lança mão, pela primeira vez, da palavra. Cena do espetáculo "ConfuZo: está escurecendo dentro de mim", da Cia Dos à Deux — Foto: Renato Mangolin/Divulgação Sim, as criações anteriores da trupe ganhavam a cena sem qualquer texto falado. Os espetáculos eram escritos primeiramente no papel e depois traduzidos para o corpo, para a luz e para os objetos — e assim o verbo se fazia carne, num emaranhado de dança, teatro, circo, mímica e artes visuais. Em “ConfuZo”, o texto finalmente atravessa a fronteira entre a página e o palco: está lá, bem pronunciado em offs e na boca dos atores. Mas a principal marca da Dos à Deux, a invenção por meio da pura fisicalidade, continua intacta. — Num dado momento, a gente sentiu que tinha uma porta aberta para que o verbo chegasse dito, porque ele sempre esteve em cena, só que nunca era falado — analisa André. — A palavra, agora, vem como uma necessidade, um grito. Mas ela não rompe a fisicalidade. Ao contrário. Acho que a palavra nasce justamente de nossa escrita corporal. Cena do espetáculo "ConfuZo: está escurecendo dentro de mim", da Cia Dos à Deux — Foto: Renato Mangolin/Divulgação Obra gestada ao longo de nove meses — e que percorrerá, no segundo semestre, as unidades do CCBB de São Paulo, Belo Horizonte, Brasília e Salvador — , “ConfuZo” parte de uma investigação sobre “pertencimento”. A trama gira em torno do incomum personagem Homem-Árvore, sujeito que deseja fincar raízes em certo lugar, mas é alvo de permanente rejeição. Na outra ponta, o Homem-Luz segue em contínuo movimento, incessantemente, iluminando e escurecendo o próprio mundo. Mas em direção a quê? Os arquétipos simbolizam a “grande complexidade do homem do século XXI”, como indica Artur. Não por acaso, a questão atravessa também sua própria biografia: a de alguém permanentemente em trânsito, entre o desejo de pertencer e a sensação de estar sempre de passagem. Parceiro artístico de André, com quem mantém um longevo casamento desde os anos 1990, o ator e encenador, de 54 anos, nasceu em Angola, foi criado no Brasil e se formou na França. — Sou um estrangeiro, há muito tempo, em vários lugares. Existe esta questão, para mim: onde me situo? — ele indaga. Grito dos excluídos Fábula sobre as diversas maneiras de exclusão social, “ConfuZo” reforça uma temática perseguida pela companhia desde sua fundação. De “Fragmentos do desejo” (2010) à recente “Enquanto você voava, eu criava raízes” (2022), os espetáculos do grupo costumam colocar no centro do palco figuras deslocadas, solitárias ou à margem. O espetáculo “Enquanto você voava, eu criava raízes”, da companhia franco-brasileira de teatro gestual Dos à Deux — Foto: Divulgação/Renato Mangolim Em nenhuma das obras, porém, essas histórias são contadas de maneira direta ou em modo panfletário. Nada disso. As imagens funcionam menos como ilustração de uma ideia, e mais como convites para que o espectador construa um percurso particular na interpretação das metáforas. Daí a impressão de que nenhuma das invencionices corporais e engenhocas em cena, como a tal árvore na cabeça e a bicicleta geradora de luz, configuram qualquer tipo de maneirismo — e aqui não há juízo de valor e, sim, mera constatação. — Uma grande dramaturgia visual abre portas para que o público possa fazer sua própria história. E tudo isso pode surgir por meio de múltiplas camadas sensoriais, algo que a gente tenta desenvolver — avalia Artur. — Hoje somos autores que escrevemos com os corpos. A labuta é resultado de disciplina. Os ensaios acontecem diariamente, das 8h às 20h, na sede da companhia, num sobrado no bairro da Glória que também serve de moradia a ambos. Para manter o corpo na potência máxima, ainda há de duas a três horas de exercícios físicos diários. — A gente trabalha como se fosse uma usina artística — detalha Artur, que compartilha com André as funções de dramaturgo, diretor, ator e cenógrafo. — O corpo é nosso instrumento. Temos, então, uma rotina muito regrada. Somos atores físicos de mais 50 anos, e com um grau de exigência máxima... Cada apresentação, para gente, é um acontecimento, sabe? Não se trata só de uma apresentação. Serviço CCBB (Teatro I): Rua Primeiro de Março 66, Centro. Qua a sáb, às 19h. Dom às 18h. R$ 30. 65 minutos. 14 anos. Até 26 de julho.
Nova peça da Cia Dos à Deux inclui, pela primeira vez, texto falado em linguagem de teatro visual
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