Montagem dirigida por Márcio Abreu investiga como experiências íntimas e gestos cotidianos reverberam na memória coletiva 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Os atores Carolina Virgüez e Rafael Bacelar em cena da peça 'História', da Cia Brasileira de Teatro — Foto: Ethel Braga/Divulgação Lá pelas tantas de “História”, nova produção da Companhia Brasileira de Teatro, um paredão de caixas de som ecoa a voz de Waly Salomão (1943-2003). O baiano recita o poema “Na esfera da produção de si mesmo”, em que diz que a pessoa que está ali falando — “eu” — é um pronome pessoal irredutível e também “qualquer coisa além, aquém, qualquer alter, outrem, outra coisa além-aquém”. Os versos, proferidos sem pausa, condensam o centro gravitacional do espetáculo: a História escrita com agá maiúsculo, esta trama coletiva aparentemente apartada da vida comum, é feita justamente das histórias particulares que parecem pequenas demais para caber nela. “História”, a peça, transforma o substantivo em provocação, pergunta, dúvida. Em vez de perseguir respostas acerca dos “grandes” acontecimentos, a montagem se aproxima, veja bem, de experiências individuais, heranças familiares e gestos cotidianos para investigar de que maneira eles reverberam na esfera pública. Veja fotos dos vencedores do Nobel de Literatura do século XXI 1 de 26 Gao Xingjian, vendedor do Prêmio Nobel de Literatura em 2000 - Foto Jwh / Wikimedia Commons 2 de 26 O escritor Vidiadhar Surajprasad Naipaul, vencedor do Nobel de literatura em 2001 — Foto: Ulf Andersen / Aurimages X de 26 Publicidade 26 fotos 3 de 26 O escritor Húngaro Imre Kertész, vencedor do Nobel de literatura em 2002 — Foto: AFP PHOTO / ANDREAS ALTWEIN 4 de 26 J.M. Coetzee, escritor sul-africano vencedor do Nobel de literatura em 2003 — Foto: Divulgação X de 26 Publicidade 5 de 26 A austríaca Elfriede Jelinek, vencedora do prêmio em 2004 - Foto divulgação 6 de 26 Harold Pinter, dramaturgo britânico, morto em 2008, foi o vencedor do prêmio Nobel de Literatura em 2005 X de 26 Publicidade 7 de 26 Orhan Pamuk, romancista turco, venceu o prêmio Nobel de Literatura em 2006 - Foto Helena Celestino 8 de 26 Doris Lessing, morta em 2013, aos 94 anos, foi a pessoa mais velha a ganhar o Nobel de Literatura em 2007 - Foto AFP PHOTO/SHAUN CURRY X de 26 Publicidade 9 de 26 Jean-Marie Gustave Le Clézio, vencedor do Prêmio Nobel da Literatura em 2008 - Foto Holger Motzkau / Wikimedia Commons 10 de 26 Herta Muller, escritora, vencedora do prêmio Nobel de Literatura em 2009 - Foto Robert Caplin/The New York Times X de 26 Publicidade 11 de 26 Mario Vargas Llosa, escritor peruano, vencedor do Nobel de Literatura em 2010. Foto Edilson Dantas / Agencia O Globo 12 de 26 Tomas Tranströmer, vencedor do prêmio em 2011 - Foto Andrey Romanenko / Wikimedia Commons X de 26 Publicidade 13 de 26 Mo Yan, escritor, vencedor do Nobel de Literatura em 2012 - Foto AFP PHOTO / Jonathan Nackstrand 14 de 26 Alice Munro, escritora, vencedora do Nobel de Literatura em 2013 - Foto AFP PHOTO/ Peter Muhly X de 26 Publicidade 15 de 26 Patrick Modiano, escritor, vencedor do Nobel de Literatura em 2014 - Foto divulgação 16 de 26 A bielorrusa Svetlana Alexievich, vencedora do Nobel de Literatura em 2015 - Foto Bárbara Lopes / Agência O Globo X de 26 Publicidade 17 de 26 Bob Dylan, vencedor do Nobel de Literatura em 2016 - Foto Hector Mata / AFP 18 de 26 Kazuo Ishiguro, autor do livro "O gigante enterrado", venceu o Nobel de Literatura em 2017 - Foto Divulgação / Ryan Stevenso X de 26 Publicidade 19 de 26 Olga Tokarczuk, vencedora do Nobel de Literatura em 2018 - Foto Maciek Nabrdalik/The New York Times 20 de 26 Peter Handke, escritor austríaco, vencedor do Nobel de Literatura em 2019 - Foto Alain JOCARD / AFP X de 26 Publicidade 21 de 26 A poeta americana Louise Gluck, vencedora do Nobel de Literatura 2020 - Foto ROBIN MARCHANT / AFP 22 de 26 Abdulrazak Gurnah, escritor tanzaniano, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 2021 - Foto Tolga Akmen / AFP X de 26 Publicidade 23 de 26 A escritora francesa Annie Ernaux, vecedora do Prêmio Nobel de Literatura em 2022 - Foto Isabelle Eshraghi/The New York Times 24 de 26 Jon Olav Fosse, escritor e dramaturgo norueguês, vendedor do Prêmio Nobel de Literatura - Foto Ole Berg-Rusten / NTB / AFP X de 26 Publicidade 25 de 26 Han Kang, escritora da Coreia do Sul — Foto: Jean Chung/The New York Times 26 de 26 Húngaro László Krasznahorkai vence o Nobel de Literatura 2025 — Foto: NEUMAYR / APA / AFP X de 26 Publicidade . A inquietação prolonga um percurso iniciado em “Ao vivo [dentro da cabeça de alguém]”, montagem estrelada por Renata Sorrah entre 2024 e 2025, e aprofundado em “Sonho elétrico”, com elenco capitaneado por Jesuíta Barbosa (e que chegará à capital fluminense em novembro, após temporada bem-sucedida em São Paulo). Ao lado de “História”, em cartaz até 26 de julho no CCBB do Rio de Janeiro, os trabalhos formam uma espécie de tríptico sobre a memória e seus desdobramentos. — A História dos livros nos representa? Estão ali fatos, datas, acontecimentos que não nos dizem tanto, mas que são capazes de mudar as nossas vidas, para o bem ou para o mal. Como a gente pode, então, interferir nela e se implicar no movimento do mundo? Ou como imaginar isso? Falando sem ingenuidade ou delírio, qualquer gesto que se faz move alguma coisa... E, se a gente não tomar mão da história, a gente vai sendo feito por ela — discorre o diretor Márcio Abreu, à frente da companhia em atividade há 25 anos. Cacos no palco As indagações se desdobram, no tablado, em formas abertas. Acompanhados pelo músico Felipe Storino, os atores Carolina Virgüez e Rafael Bacelar dão vida, em cena, a uma sucessão de narrativas em cacos. Costuram relatos, cartas, canções, poemas e lembranças que se interligam por associação, e não por causalidade. A arquitetura fragmentada da dramaturgia, construída coletivamente durante o processo de criação da obra, reforça uma recusa a um enredo linear, algo que se percebe em praticamente todo o repertório da trupe. Cena da peça "História", da Cia. Brasileira de Teatro — Foto: Divulgação/Ethel Braga Não havia como ser diferente, sustenta Márcio Abreu. Se a História é um tecido infinito de vozes múltiplas, dificilmente caberia num fio estendido entre categorias como início, meio e fim. E mais. O diretor reconhece, não tem jeito, a impossibilidade de totalizar o tema. Daí a escolha por uma estética que escancare, por que não?, as lacunas. — O teatro não dá conta de um tema — frisa o encenador. — A imagem do veio da madeira me ajuda a pensar nessas questões sobre a estrutura dramatúrgica. Se alguém corta a madeira no sentido contrário ao veio, esta matéria resiste. Portanto, se o nosso assunto é a História, o veio da madeira não apontará um enredo único. Tem-se que lidar com a coexistência de pluralidades. As lacunas, aliás, não são um efeito colateral da escrita fragmentada, mas parte de seu projeto. Ao justapor cenas, textos e imagens sem submetê-los a uma única lógica narrativa, o espetáculo convoca o espectador a completar as conexões por conta própria — e a “abrir imaginário, delírio e um pouco de loucura, porque senão a vida fica muito restrita”, como defende o diretor. Isso explica, inclusive, a dificuldade de chegar a uma sinopse fácil sobre a peça. Afinal, qual a história de “História”? — Uma espécie de imposição cultural acaba dizendo, muitas vezes, o que é “entender” e o que é “não entender”. Quando uma pessoa fala “entendi” ou “não entendi” após a sessão da peça, o que isso significa? Não quero que as pessoas não entendam o meu trabalho. Mas também não quero julgar, de antemão, o que é “entender” — diz Márcio. — Às vezes usamos termos como “experimental” como se fosse um gênero. Não tem a ver com isso. E também não tem a ver com maneirisimo ou vaidade. Tem a ver, sim, com experimentar um modo de fazer as pessoas pensarem junto e com criar espaços mais arejados.
Nova peça da Cia Brasileira de Teatro, 'História' segue pesquisa de peças recentes do grupo
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