Se você jogasse uma moeda para o alto 92 vezes e ela caísse "cara" em todas as jogadas, você questionaria as leis da física ou a sua própria sanidade? É com esse tipo de pane no sistema da lógica que a nova montagem de "Rosencrantz e Guildenstern Estão Mortos" dá as boas-vindas ao espectador.
Idealizada por Rafael Gomes e Daniel Haidar, a peça celebra os 60 anos da consagrada obra de Tom Stoppard e ocupa o Nu Cine Copan, sob a direção afiada de Dagoberto Feliz. O espetáculo nos joga no infortúnio de dois homens perfeitamente comuns, meio perdidos e sem bússola, tentando decifrar uma situação colossal que foge totalmente ao controle deles — e, convenhamos, quem nunca se sentiu assim?
A experiência do público começa logo na chegada, ao se deparar com os corpos dos protagonistas cobertos, em uma atmosfera que evoca um necrotério; em seguida, todos são convidados a entrar na engrenagem da peça por um clown, figura enigmática que surge no topo da escada.
O golpe de mestre de Stoppard foi pegar dois personagens periféricos da tragédia de "Hamlet", tirá-los da sombra e colocá-los no centro do palco. Eles não são heróis ou vilões; são homens comuns, como nós, presos em uma teia de segredos políticos que não conseguem decifrar.













