Este é um dos truques mais antigos do mundo. Os vilões de William Shakespeare o usavam no Globe, caminhando em direção à plateia para sussurrar suas verdades distorcidas. Desde então, ele foi ampliado. Em grandes momentos de musicais como “A Chorus Line” e “Ragtime”, o elenco invade a ribalta como se fosse destruí-la — e depois destruir você. Mas eu nunca vi uma travessia de todo o elenco na frente do palco tão dramática como a que agora dá as boas-vindas ao público em um antigo campo de golfe a cerca de 80 minutos de carro da Times Square, em Nova York. Os 17 atores da remontagem de “As you like it” (“Do jeito que você gosta”) da Hudson Valley Shakespeare (HVS) vêm em sua direção do horizonte distante, parecendo crescer e se erguer à medida que emergem da paisagem. E que paisagem: Breakneck Ridge à direita, Storm King Mountain à esquerda, o Rio Hudson entre eles, as Montanhas Catskills ao fundo. O que torna possível esse feito teatral é o próprio teatro: um edifício de US$ 41 milhões projetado para a HVS pela arquiteta Jeanne Gang e o Studio Gang. “As you like it”, que estreou sábado, é a produção inaugural na estrutura de madeira, com laterais abertas e formato de tartaruga, após anos em que a companhia se apresentou em locais alugados sob tendas temporárias, como circos. Mas o novo teatro, formalmente chamado de Samuel H. Scripps Theater Center, não é apenas uma melhoria estética. É um reflexo das ambições ampliadas da companhia. Assim, quando o elenco de “As you like it” cruza o palco, isso diz algo novo sobre tradição, mudança e resiliência. Para Davis McCallum, diretor artístico da companhia, isso significa: — Aqui vamos nós. O teatro, parte de um novo campus da HVS em uma colina em Garrison (NY), incorpora a convergência de duas histórias: a da instituição e a da terra. Por milhares de anos, a área era do povo Wappinger. Os holandeses começaram a cultivá-la no século XVIII, prática que continuou até o início do século XX, quando o local se tornou a sede da Fazenda de Saúde de Bill Brown. Em 1961, veio o campo de golfe. Para evitar a comercialização excessiva e a degradação ambiental do local, o bilionário gestor de investimentos Christopher Davis o comprou em 1999. O terreno estava profundamente danificado. Nos 20 anos seguintes, ele buscou restaurar o local, ao mesmo tempo que o convertia para um uso mais nobre. Público diante do Hudson Valley Shakespeare — Foto: Mohamed Sadek/The New York Times/13-6-2026 Sem que ele soubesse, em outra parte da floresta, o Festival Shakespeariano do Vale do Hudson (como era chamado na época) havia apresentado sua primeira produção, em 1987, uma temporada de quatro apresentações de “Sonho de uma noite de verão”. Depois a produção se mudou para uma tenda alugada numa mansão do século XIX às margens do Rio Hudson: bonita, mas infestada de insetos. Apesar de apresentar apenas um espetáculo por temporada, o impacto da companhia cresceu; em 1994, um segundo espetáculo foi adicionado e, em 2008, um terceiro. Nesse meio tempo, a companhia adquiriu sua própria tenda personalizada. Em 2021, o HVS podia se considerar um teatro de repertório, de pequeno porte e bem conceituado. Mas a renovação do aluguel com Boscobel fracassou, e o HVS teria que se mudar — mas há algo de shakespeariano na história, com seus videntes, atores, exílios e reviravoltas. Em 2019, a HVS abordou Davis para ver se o teatro poderia montar sua tenda temporariamente em um canto de sua propriedade. A resposta foi surpreendente. Davis sugeriu: por que não construir uma sede permanente ali? Além disso, ele lhes daria os 98 acres inteiros gratuitamente, incluindo um espaço de casamentos e um restaurante que se esperava que rendesse várias centenas de milhares de dólares por ano. Oportunidade histórica Continuando a produzir novas temporadas em sua tenda, agora armada em um vale úmido em um canto do campo de golfe, a equipe da HVS teve que lidar com as enormes implicações da doação. Teria condições de construir um teatro à altura do local? Mesmo que o grupo pudesse arcar com a construção, teria recursos para mantê-lo? Se sim, isso significaria aumentar os preços, deixar Shakespeare de lado e acomodar mais pessoas sob a tenda — destruindo, assim, a essência que o grupo buscava preservar? — Sabíamos que era uma oportunidade histórica e queríamos aproveitá-la ao máximo — disse McCallum. Parte de seu objetivo era se tornar um polo cultural mais influente para a região, ao mesmo tempo em que os colocava “no radar de locais de peregrinação de renome nacional”. Ainda assim, alguns elementos originais eram inegociáveis. — Poderíamos ter construído um teatro coberto de última geração, indistinguível de qualquer outro no centro de Manhattan — disse McCallum. Mas a companhia decidiu honrar sua tradicional imersão na natureza, optando por um espaço onde “o vento e a chuva podem passar”. Perfeito para “Rei Lear”, que estreou ontem. E como a intimidade também sempre foi uma marca registrada, o espaço teria que permanecer pequeno — e agora é um pouco menor, com 451 lugares em vez de 500. A acústica também precisava ser intimista, permitindo que a companhia continuasse a produzir espetáculos ao ar livre sem microfones. À medida que a antiga tenda dava lugar a uma estrutura de madeira sustentada por enormes cavaletes que abriam o palco para a vista, o preço dobrou. Outras partes do projeto — incluindo alojamento, para que a companhia não precisasse hospedar seus artistas no Best Western em Fishkill por US$ 750 mil por ano — eventualmente elevaram a meta total da campanha de arrecadação de fundos para mais de US$ 70 milhões. (Até agora, US$ 66,8 milhões foram arrecadados.) O orçamento operacional também aumentou, de US$ 3,4 milhões perto do pântano para US$ 5,5 milhões no topo da colina. Evento vibrante A cerimônia de inauguração, em 14 de maio, apenas 596 dias após o início da construção, foi um evento emocionante e vibrante, apesar da programação habitual de dignitários e doadores. McCallum destacou a semelhança do teatro com o Globe: — Shakespeare escrevia para céus abertos e luzes instáveis, com um palco vazio e a plateia lotada em três lados. De certa forma, o elenco e a paisagem estavam agora em tensão, senão em competição. Kurt Rhoads, ator em sua 28ª temporada — este ano interpretando os “veteranos”, incluindo Lear e Adão — disse que esperava que o pôr do sol fosse “um ator a mais no elenco”. A HVS parece ter aprendido essa lição. Retiraram “Festival” do nome quando a construção começou. A temporada, antes limitada a 14 semanas, agora pode se estender por mais cinco semanas. Além disso, o backstage não é mais um chão de terra. E o chuveiro dos atores não é mais uma mangueira presa a um pedaço de compensado. Quando vi pela primeira vez o local do novo teatro, dois anos atrás, onde antes ficava o campo de golfe desativado, a dimensão do projeto pareceu arriscada. Não teria sido suficiente, perguntei a McCallum, permanecer para sempre uma companhia pequena, jovem e determinada? — Por que temos que escolher entre crescer e manter a essência do que nos define? — respondeu ele. — Existem artistas em diversas mídias cujo trabalho mais recente é bem diferente do primeiro, mas eles são sempre a mesma pessoa. McCallum deixou o pensamento amadurecer por um instante, e então arrematou: — Parte do motivo pelo qual estou tão entusiasmado com o prédio não é porque ele é bonito, mas porque ele nos representa.
Como uma pequena companhia dedicada a Shakespeare criou uma sede de US$ 41 milhões num antigo campo de golfe em Nova York
Desde 1987 no local, a Hudson Valley Shakespeare inaugura novo espaço com temporada de 'Do jeito que você gosta'









