Considerado um dos encenadores mais revolucionários do século 20, Peter Brook (1925–2022) transitava entre o teatro, a ópera e o cinema com uma clareza rara — longe do pedantismo acadêmico e da leveza excessiva. Em seu livro "Reflexões sobre Shakespeare" (Edições Sesc), Brook liberta o dramaturgo da rigidez dos acervos históricos e o devolve ao seu território de direito: o chão de madeira do palco, a rotina exaustiva do ensaio e a eletricidade do espaço vazio. O resultado é um manifesto que desconstrói dogmas e resgata a essência mais pura e urgente da cena.

A reflexão começa enfrentando a antiga controvérsia em torno da autoria das peças. Diante das teorias anti-stratfordianas, que insistem em atribuir esse legado a nobres eruditos como Francis Bacon (1561-1626) ou Edward de Vere (1550-1604), o décimo-sétimo conde de Oxford , Brook aponta um preconceito elitista persistente: o pressuposto de que um homem sem diploma universitário não poderia dominar a vastidão da experiência humana.

Para um encenador habituado à dinâmica dos bastidores, essa visão ignora como o teatro elisabetano funcionava. O texto de William Shakespeare (1554-1616) não nascia como um monumento no isolamento de um gabinete, mas como material plástico, cortado e adaptado no calor do trabalho coletivo no Globe Theatre. Exigir atestados cartoriais para a genialidade do dramaturgo, nota Brook, é tão inútil quanto tentar explicar a aparição de Mozart pela via burocrática.