O teatro para crianças muitas vezes peca pelo excesso de didatismo, simplificando o mundo como se o público infanto-juvenil não acompanhasse pensamentos complexos. "O Pequenino Grão de Areia", de João Falcão, vai na contramão: traz o espanto diante das coisas simples e foge da condescendência. A montagem não mastiga explicações; prefere confiar na sensibilidade das crianças, deixando no ar perguntas sinceras sobre afeto e solidão, sem lição de moral.

Os grãos de areia da praia não são heróis perfeitos. Eles têm contradições, medos, teimosias, choros e risos. A rotina serena do grupo se quebra quando um deles se apaixona por uma estrela. Não há vilão: o conflito brota do choque entre a lógica prática da maioria e o desejo desmedido do sonhador. O deboche inicial logo se desfaz, virando rede de apoio. Assim, o sonho, que parecia delírio solitário, acaba humanizando todo o grupo.

No palco, nada de telas ou truques digitais. A montagem aposta na força do encontro presencial e no trabalho consistente do elenco formado por atores e atrizes com trajetórias diversas no teatro, na música e no audiovisual, reunindo diferentes gerações, formações e linguagens cênicas.

O mar que destrói um castelo de areia, por exemplo, é evocado apenas pelo peso e pelo ritmo dos corpos dos atores. Eles conversam com a plateia, mostram as costuras do teatro e brincam com os próprios erros, num jogo que mimetiza as brincadeiras de infância, em que as regras se reinventam a cada instante.