A nova montagem de "Fim de Partida" no Sesc Pinheiros, dirigida por Rodrigo Portella, é um acontecimento teatral de rara força e inteligência. O espetáculo não apenas revisita o clássico de Samuel Beckett com o respeito que a obra-prima exige, mas também o revitaliza ao propor uma leitura contemporânea afiada, que ecoa com as angústias do nosso tempo.

A encenação nasceu do desejo dos atores Guilherme Weber (que interpreta Clov) e Marco Nanini (Hamm) de voltarem a dividir o palco. Juntos, eles protagonizaram dois dos espetáculos mais marcantes dos anos 2000 no Brasil ("Os Solitários", 2002, e "A Morte do Caixeiro Viajante", 2004), e essa química cênica é um dos pilares que sustentam a produção. Completa o elenco Helena Ignez como Nell, e Ary França como Nagg, dois veteranos que, assim como Weber, já haviam trabalhado com Nanini.

Portella propõe uma leitura que se estrutura em três camadas de sentido: a relação simbiótica e doentia entre Hamm e Clov; uma alegoria política sobre o autoritarismo e a opressão; e, finalmente, uma dimensão metateatral que reflete sobre o próprio fazer artístico. Essa última camada é a chave mestra da encenação, e é onde a direção e a cenografia de Daniela Thomas brilham com mais intensidade.