O encontro entre a escrita de Newton Moreno, a direção de Ana Rosa Genari Tezza e o fôlego de Marco França dá ao espetáculo "A Última Cova" a energia de uma conversa ao pé do ouvido. Juntos, eles constroem um espetáculo que nos lança de imediato na atmosfera "folhetinesca-melofantástica-cordelística", onde a dureza de um cemitério paulistano ganha o calor das histórias de assombração e do repente. No palco, a transição entre os sentimentos é rápida: o riso da palhaçaria abre espaço para o sobrenatural, aproximando a peça do realismo mágico latino-americano.

Os cenários e figurinos de Kleber Montanheiro deixam de lado a reprodução fria dos túmulos e apostam em texturas fragmentadas e pequenos vestígios. É como se o chão e as paredes guardassem os segredos de quem já partiu. Essa presença ganha corpo com os bonecos criados por Fernando Gomes; quando entram em cena, as figuras que habitam as memórias do protagonista passam a dividir o ar com quem assiste.

Essa proximidade física se completa com o desenho de luz de Gabriele Souza, que quebra o isolamento da plateia. A iluminação avança pelas poltronas, envolve os corpos e nos puxa para dentro daquela terra revirada, equilibrando o cinza da metrópole com o aconchego das evocações do Nordeste.