O que acontece quando o palco deixa de ser o lugar do fingimento e passa a ser o território do risco? Nascido no confinamento de 2021, o espetáculo "Meu Pai, Hamlet" propõe uma revisão da tradição teatral. A diretora Julia Pedreira e seu pai, o percussionista e skatista Marco Monteiro, transformam o espaço cênico em um laboratório onde o tempo cronológico é suspenso por um relógio sem números, questionando a lógica de uma sociedade que invisibiliza os mais velhos.
A montagem se estrutura a partir de uma troca de ofícios, sem personagens. No palco, Marco Monteiro, homem de mais de sessenta anos, assume o texto de Shakespeare e diz as palavras de Hamlet com a crueza de um não-ator. Em contrapartida, Julia Pedreira assume as baquetas para executar a estrutura rítmica de "A Sagração da Primavera", de Igor Stravinsky. Ao deslocar o pai de sua zona de domínio musical e colocá-lo diante do texto, a peça expõe o envelhecimento como um processo de abertura e de aprendizado sem hierarquias.
A encenação transita entre o documentário e o happening, costurando elementos cotidianos e artísticos. No mesmo espaço em que ficam os tímpanos sinfônicos e ecoam os versos ingleses, ouve-se o ruído das rodinhas de um skate. Marco transita entre a orquestra e a rua, unindo memória e risco físico. Julia atua como a âncora cênica dessa dinâmica, sustentando o andamento e o humor do jogo em cena.














