'Ele já reinventou seu teatro tantas vezes, de maneiras tão diferentes, que eu estou curioso para ver onde vai dar essa nova versão', diz Caetano Galindo, colaborador frequente do dramaturgo 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Felipe Hirsch nos bastidores do espetáculo “Orkhéstra Phántasma”, em cartaz em São Paulo até 2 de agosto — Foto: Flavia Canavarro Felipe Hirsch diz que o terceiro ato de sua carreira, que começa agora com o espetáculo “Orkhéstra Phántasma”, em cartaz até 2 de agosto no Sesc Vila Mariana, em São Paulo, será “menos cabeça e mais coração” e até um pouco “constrangedor” de tão pessoal. — Vimos a peça juntos e eu perguntei: “É o seu trabalho mais pessoal?” — conta o linguista Caetano Galindo, que assina a dramaturgia do espetáculo com Hirsch, Juuar e o coletivo Orkhéstra Phántasma. — A peça pode parecer hermética, jocosa, mas para nós é profundamente pessoal, no nível no constrangedor mesmo, porque tem muita exposição ali. Não da nossa vida, mas dos interesses e das obsessões que nos tocam profundamente. Nunca é fácil dizer do que se trata um trabalho do Hirsch, mas uma mensagem que ele enviou a Galindo durante o desenvolvido do projeto (e que está reproduzida no programa) oferece um bom resumo: “e se fosse sobre as vozes na cabeça? A cabeça é uma orquestra para os fantasmas”. O fio condutor do espetáculo — que tem no elenco outros parceiros de Hirsch, como Georgette Fadel e Pascoal da Conceição — é um programa de rádio chamado “Madame Psychosis” (mesmo nome de uma personagem do romance “Graça infinita”, de David Foster Wallace). Enquanto ouvem a transmissão, os personagens dançam, gritam, ficam em silêncio por longos minutos no escuro, fazem sexo por telefone, repassam a própria vida diante de uma mãe sem memória e se perguntam como diferenciar o eu do ruído incessante dentro da cabeça. Hirsch divide sua trajetória no teatro em três fases, todas ligadas às diferentes trupes que ele liderou. A primeira foi a Sutil Companhia, atuante de 1993 a 2012, que montou espetáculos que marcaram época, como “A vida é cheia de som & fúria” (inspirada no romance “Alta fidelidade”, do escritor inglês Nick Hornby) e “Avenida Dropsie” (adaptação da graphic novel do americano Will Eisner). Hirsch afirma que, nessa época, era “doentiamente centralizador” e os ensaios eram verdadeiros martírios — embora ele tivesse vergonha de assumir isso publicamente, já que era incensado como enfant terrible pela imprensa e a dureza dos bastidores não se refletia no palco. A peça “Selvageria”, encenada pelo Coletivo Ultralíricos, atuante de 2013 a 2024, período em que Hirsch pesquisou as contradições da América Latina — Foto: Divulgação O segundo ato é o do Coletivo Ultralíricos, de 2013 a 2024. Nessa fase, Hirsch mudou “completamente a maneira de ensaiar” e a criação se tornou mais colaborativa. Em diálogo com autores latino-americanos (do chileno Roberto Bolaño a Reinaldo Moraes), o dramaturgo se debruçou as contradições que moldaram o Brasil e os demais países do continente. Em 2022, ele estreou “Língua brasileira”, espetáculo com trilha sonora de Tom Zé que investiga a formação do idioma nacional — e que o dramaturgo lamenta nunca ter montado no Rio. O projeto rendeu frutos como o disco homônimo de Tom Zé, o livro-fenômeno de Galindo, “Latim em pó” (Companhia das Letras), e a exposição “Fala, Falar, Falares”, no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, que teve curadoria de Galindo e Daniela Thomas. Tom Zé acredita que “Língua brasileira” seja seu “melhor disco” e agradece a Hirsch pela oportunidade de redescobrir, nesse projeto, o português aprendido na loja do pai, em Irará (BA), e depois reencontrado em Guimarães Rosa. — Uma das palavras da loja do meu pai é “encanarado”. O Hirsch fez essa peça porque ficou “encanarado”, quer dizer, possuído, pela língua — explica o tropicalista. Hirsch mantém colaborações profícuas com profissionais do teatro que acompanharam as diferentes fases da carreira, como a cenógrafa Daniela Thomas, sua parceira desde 2001. Ela brinca que os dois desenvolveram o que o escritor argentino Jorge Luis Borges descrevia como “amizade inglesa”, que “começa evitando intimidades e, com o tempo, elimina a fala por completo”. O diretor chama Daniela de “mestra” e diz que suas parceiras profissionais são resultado de “verdadeiros encontros”. — Criar com o Felipe é estar um espaço de profunda liberdade — diz Juuar, codiretora “Orkhéstra Phántasma”. — Entraram no novo espetáculo as obsessões de vida inteira do Felipe, tanto na arte como na vida, as reflexões dele, os discos e os textos pelos quais ele é realmente apaixonado. Galindo chama Hirsch de “irmão” e diz que o encontro dos dois “foi um negócio de mudar a vida”. — Ele já reinventou seu teatro tantas vezes, de maneiras tão diferentes, que eu estou curioso para ver onde vai dar essa nova versão, esse Felipe Hirsch “pessoal” e “constrangedor”, que é bem diferente do “pessoal” e do “constrangedor” que estão na moda.
Com 'Orkhéstra Phántasma', Felipe Hirsch dá início à terceira fase de sua carreira, a mais 'pessoal' e 'constrangedora'
'Ele já reinventou seu teatro tantas vezes, de maneiras tão diferentes, que eu estou curioso para ver onde vai dar essa nova versão', diz Caetano Galindo, colaborador frequente do dramaturgo






