'Causar estranhamento tem dado certo', diz dramaturgo, em cartaz em SP com peça sobre 'as vozes na cabeça' 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O dramaturgo Felipe Hirsch: “A gente nunca foi tão sozinho. É muito louco, estamos doentes por causa do capitalismo. Estão ganhando dinheiro com a nossa solidão” — Foto: Edilson Dantas/ Agência O GLOBO Na família do dramaturgo Felipe Hirsch, conta-se que, ainda menino, ele teria interrompido uma peça infantil, mostrando, precocemente, sua vocação para questionar as convenções teatrais. Mas Hirsch desconfia que a cena nunca aconteceu, que é só uma lenda doméstica. A narrativa oficial é que sua iniciação teatral se deu na adolescência. Depois de assistir a uma adaptação de “Feliz ano velho”, o best-seller de Marcelo Rubens Paiva, ele quis escrever sua própria peça. Aos 14 anos, estreou “Meu Deus, meu Deus é ateu!”, um diálogo etílico entre o Criador e Sigmund Freud. Conhecido por seu teatro radical, com forte diálogo com a música e a literatura, Hirsch está completando 40 anos de dedicação ao ofício e inaugura uma nova fase (a terceira) de sua carreira. “Orkhéstra Phántasma” é o nome tanto de sua nova trupe (depois da Sutil Companhia e do Coletivo Ultralíricos) como o espetáculo que ele estreou em 20 de junho no Sesc Vila Mariana, em São Paulo. Nunca é fácil dizer do que se trata um trabalho do dramaturgo, mas uma mensagem que ele enviou ao linguista Caetano Galindo, seu dileto colaborador, durante o desenvolvido do projeto (e que está reproduzida no programa) oferece um bom resumo: “e se fosse sobre as vozes na cabeça? A cabeça é uma orquestra para os fantasmas”. O fio condutor do espetáculo — que tem no elenco outros parceiros de Hirsch, como Georgette Fadel e Pascoal da Conceição — é um programa de rádio chamado “Madame Psychosis” (mesmo nome de uma personagem do romance “Graça infinita”, de David Foster Wallace). Enquanto ouvem a transmissão, os personagens dançam, gritam, ficam em silêncio por longos minutos no escuro, fazem sexo por telefone, repassam a própria vida diante de uma mãe sem memória e se perguntam como diferenciar o eu do ruído incessante dentro da cabeça. “Orkhéstra Phántasma” fica em cartaz até 2 de agosto. A atriz Georgette Fadel em “Orkhéstra Phántasma”, novo espetáculo de Felipe Hirsch — Foto: Flavia Canavarro Em quatro décadas de carreira, Hirsch assinou cerca de uma centena de obras, entre peças, óperas, filmes e shows. No ano passado, ele e Galindo organizaram uma antologia de contos de Dalton Trevisan, “Educação sentimental do vampiro”, cuja versão em audiolivro, dirigida pelo dramaturgo, sai esta semana pela Supersônica. Nesta entrevista, o diretor carioca que se formou como artista em Curitiba e hoje vive em São Paulo disse que o novo espetáculo já está “traumatizando” o público e comentou sua fama de difícil. Já com 40 anos de carreira “Aos 14 anos, vi a adaptação de ‘Feliz ano velho’, o livro do Marcelo Rubens Paiva, um livro que minha geração toda leu, que o Paulo Betti levou para o Teatro Guaíra, em Curitiba. Quis escrever uma peça também. Juntei meus amigos, escrevi a peça, voltei ao Guaíra e falei que queria apresentar o texto lá. O funcionário abriu um livro e falou que tinha dias livres em novembro. Meus amigos e eu vendemos os ingressos e lotou. Tanto que prolongaram a temporada por mais seis dias! Não parei mais.” A turma de Curitiba “À meia-noite, no mesmo teatro, tocava uma banda punk chamada Beijo à Força. Eram todos polacos, tinham 20 e poucos anos e orbitavam ao redor do (Paulo) Leminski (1944-1989). Em Curitiba, havia várias agências de publicidade que empregavam esses poetas alcoólatras. Comecei a frequentar as tertúlias deles. Até hoje, quem mais assiste aos meus espetáculos não é só a classe teatral, mas designers, jornalistas, fotógrafos, arquitetos. Gosto que seja assim, senão a gente fica fazendo teatro para nós mesmos.” ‘Orkhéstra Phántasma’ “É um espetáculo mais sensorial, mais provocativo, que não se limita a discursar para o público. Cada vez mais, eu percebo que o público quer ir ao teatro para ouvir a própria opinião, o que ele lê nas redes sociais. Para mim, é a destruição, tenho birra disso. Acredito que este novo espetáculo pode ser comovente e pop. Nessas primeiras apresentações, acho que já conseguimos traumatizar bastante gente.” De onde vêm os traumas? “A coisa das vozes na cabeça. Acho irônico, para não dizer lamentável, ver jovens falando de liberdades nas redes sociais, que são um pátio onde pouquíssimas corporações dominam o discurso, o que você pensa. Se não se opor a isso, você não é mais livre nem dentro da sua cabeça.” Personagens solitários “A gente nunca foi tão sozinho. É muito louco, estamos doentes por causa do capitalismo. Estão ganhando dinheiro com a nossa solidão. Tem uma música do David Byrne chamada ‘The Dream Police’, sobre uma polícia dos sonhos. As big tech entram na nossa cabeça como se fossem essa polícia e estão reeducando nossos sentidos” O teatro como despertar “Acho ultrapassada a ideia do criador que não pensa no público. A graça está em lidar com a expectativa, a sensibilidade do público, em afiná-lo, mas fora dessa tonalidade ocidental, para que ele abra seus sentidos para o que acontece no palco.” Fama de hermético “Não sei como cheguei aos 54 anos fazendo o que eu faço e tenho dinheiro para pagar um café. Faço o que acredito e, para mim, isso é inacreditável. Tento me manter coerente, não quero me tachar de experimental sem experimentar de fato. É óbvio que. enquanto me falarem para fazer peças de uma hora, vou fazer de três. Quando me pedirem espetáculos longos, faço de uma hora. Não vou cumprir o que se espera de mim, entende? Causar estranhamento tem dado certo. Vou fazer isso até morrer.” Audiolivro de Trevisan “Me chamaram para fazer porque o Galindo e eu lemos tudo do Dalton. Um dia, eu estava falando de ‘Língua brasileira’ numa universidade em Curitiba e chega a assistente do Dalton e me dá um desenho que o (desenhista curitibano) Poty tinha feito dele na época em que ele quis ser diretor de teatro. Ele me deu de presente porque tinha lido uma matéria sobre a peça no jornal. Fiquei muito comovido, começamos a ter uma relação. Do jeito que era possível ser próximo do Dalton, né? O Galindo levava o cachorro dele, o Leopoldo, para brincar com Dalton. Ele era o equilíbrio daquela cidade. Todo mundo tinha sua história com o Vampiro.”