Duas mulheres trancadas em um apartamento pequeno demais para comportar o tamanho de suas angústias. Na sala, caixas com roupas e discos testemunham um confronto silencioso, onde um suspiro contido ou um olhar desviado machuca mais do que um grito. É essa atmosfera de saturação emocional que dita o tom da temporada de "Querida Mamãe", clássico teatral em cartaz no Rio de Janeiro, que se concentra na mais universal e complexa das arenas: a relação entre mãe e filha.
O texto, escrito por Maria Adelaide Amaral na década de 1990, carrega a necessidade de quem escreve com as próprias veias pulsantes. Não há espaço aqui para o clichê da maternidade sagrada e amor incondicional. A autora despiu suas personagens de qualquer romantismo para expor o afeto em sua forma mais crua: sufocante, exigente e, por vezes, punitiva.
Esse embate coloca duas gerações em rota de colisão. De um lado está a mãe, um baluarte moldado por regras rígidas e valores tradicionais, que assiste à derrocada do seu mundo idealizado. Do outro, a filha, uma mulher de meia-idade que tenta respirar fora desse sufoco doméstico, buscando retomar seus próprios desejos e assumir sua homossexualidade. Se na produção original da década de 1990 a trama batia de frente com o tabu social, hoje ela ecoa como um manifesto doloroso pelo direito à identidade e à liberdade afetiva dentro do próprio lar.















