O fole do acordeom está lá, no centro do palco do Teatro Faap, inflando e esvaziando num ritmo que parece o de uma respiração que teima em continuar. Na montagem de Beatriz Barros para "Rita Lee – Balada da Louca", a falta de ar que silenciou a cantora transforma-se em matéria de poesia concreta. O que o corpo perdeu em fôlego, o instrumento devolve em som. Trata-se de uma escolha formal que define o tom do espetáculo, estruturado por Guilherme Samora, que não se rende à biografia convencional nem ao melodrama. Instala-se ali, firme, no território do ensaio cênico sobre a despedida.

Samora escreve o declínio sem concessões. O texto transita pelos dias confusos da pandemia, pela vacina que demorava, pelo exame de Covid-19 que trouxe um diagnóstico pior. Mas o prontuário médico não domina a cena, é subvertido por uma espécie de dignidade irônica. A personagem enfrenta a quimioterapia com o distanciamento de quem estuda o próprio organismo em decomposição, mantendo viva aquela inteligência ácida que sempre fez da vida particular combustível para a arte. Essa crônica do isolamento ganha uma camada extra de afeto com as bases de piano gravadas por Roberto de Carvalho em casa, que entram em off como uma moldura sonora e íntima.