Um relógio digital em contagem regressiva domina a cena. São 110 minutos cravados, em tempo real, para que um tecnocrata veja o castelo de cartas de sua reputação desmoronar. É sob esse ritmo de thriller que se constrói o "Édipo" em cartaz no Auditório do Masp. Dirigido por Clara Carvalho a partir da transposição de Robert Icke, o espetáculo transforma a clássica tragédia grega em um gabinete de gerenciamento de incertezas dentro de um processo eleitoral.

A operação de Icke é precisa: a peste de Sófocles, um fenômeno sobrenatural, se transforma em crise de imagem pública. O oráculo dá lugar ao arquivo. Tirésias não profetiza o futuro, revela o passado. O protagonista descobre que não caminha em direção à ruína, mas já habita nela desde o momento em que cruzou o caminho de Laio. O texto seculariza o miasma tebano. A ameaça agora é o vazamento de dados, a perda de controle sobre a narrativa, a exigência de lisura em um sistema que só funciona enquanto as aparências se sustentam.

A direção de Carvalho explora a arquitetura do espaço. O auditório no subsolo do museu estabelece uma relação direta com o enredo: o espectador atravessa a superfície da Avenida Paulista para descer às profundezas do edifício, onde o topo do poder é desmontado. A cenografia de Chris Aizner incorpora o brutalismo do concreto e sua memória de manifestações e disputas ideológicas.