Talvez a Copa sempre chegue pra provar que a gente ainda sabe torcer por algo em comum. E isso vale mais que gol de placa. Embora eu não faça a menor ideia do que seja um gol de placa 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Como os brasileiros tomaram conta da Times Square na espera pela estreia da seleção na Copa — Foto: Reprodução/X Tenho inveja do futebol. A verdade é que não tem peça, show ou festa que se iguale a 22 jogadores correndo atrás de uma bola. Eu sou brasileira com muito orgulho, apesar de estar tendo uma relação tóxica com a camisa do Brasil nos últimos anos. E, embora adore arrumar motivo pra reunir amigos, o futebol sempre foi jogado pra escanteio por mim. E antes que eu seja cancelada ainda no primeiro tempo: cresci cercada por homens que sabiam a seleção inteira da Copa de 70, mas não sabiam o que tinha na segunda gaveta da cozinha. Passei a infância vendo meu avô com radinho na orelha, jogando pó de arroz na gente cada vez que o Fluminense ganhava, e meu pai, todo domingo à noite, revendo os gols da rodada. A primeira vez que fui ao Maracanã eu era criança e fui com meu pai ver o Flamengo jogar. Depois casei com outro flamenguista fanático que decidia nosso dia a partir das vitórias ou derrotas rubro-negras. Tive que dividir o amor de todos os meus namorados com algum time. Meu marido ousou me chamar de “pé-frio” porque resolvi levar minha filha a um jogo decisivo em que o Flamengo foi eliminado. Só não deu separação porque eu também sou flamenguista. Apesar de que outro dia quase perdi meu título de torcedora, quando descobri que não saber quem é Arrascaeta, na minha casa, é quase uma falha moral. Minha filha me olhou como se eu tivesse perguntado quem era Papai Noel. Falou que todo mundo sabe quem é o atual camisa 10 do Flamengo. Menos eu. Aprendi a respeitar o futebol como algo sagrado. Em dia de jogo marco qualquer coisa com amigas: jantar, teatro, cinema ou declaro até imposto de renda. Tudo pra não assistir a futebol. E fico quieta a cada dez xingamentos na reprise do Fantástico. Porque eles vibram ou xingam na hora, depois quando comentam com outro torcedor emocionado e vivem tudo isso de novo com o replay. Já vi a impressionante cena de vários marmanjos juntos assistindo 15 vezes ao mesmo gol de uma vitória na Libertadores. E comemorando como se fosse a primeira vez. Não é de dar inveja? E mesmo não sabendo até hoje o que é impedimento (e achando que volante só tem em carro), acabo me contaminando por livre e espontânea pressão quando chega a Copa do Mundo. Do táxi ao elevador, da porta da escola ao set de gravação, alguém sempre pergunta: “tá animada pro jogo?”. Eu digo que sim, mas a vontade é de responder: “Tô sem opção, né?”. Porque o futebol ainda consegue uma coisa rara hoje em dia: fazer um país olhar para o mesmo lugar ao mesmo tempo. Mesmo quando o presidente do país-sede tenta acabar com a nossa festa porque se acha o dono da bola (e do mundo!). Talvez só a novela tenha chegado perto dessa comoção coletiva nas épocas áureas. Mas até ela foi ficando fragmentada: hoje cada um assiste num horário, num ritmo e numa plataforma diferente. O futebol não. Ainda é ao vivo, obriga a gente a sentir junto. E sentir junto está meio em falta. Talvez a Copa do Mundo sempre chegue, de quatro em quatro anos, pra provar que durante 90 minutos a gente ainda sabe torcer por alguma coisa em comum. E isso, hoje em dia, vale mais que um gol de placa. Embora eu não faça a menor ideia do que seja um gol de placa. Mas eu tenho até metade de julho pra aprender. Bora, Brasil!