Pena que nosso time atual não se compare nem de longe às nossas seleções de ouro 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Copa do Mundo na Espanha, em 1982. Brasil 3 x 1 Argentina, no Estádio Sarriá. Na foto, jogadores da seleção comemoram um dos gols na partida: Oscar em primeiro plano e Éder (à esquerda). — Foto: Anibal Philot / Agência O Globo Não há como escapar: no Brasil, a Copa é o assunto inevitável. Tive o privilégio de cobrir sete Copas do Mundo como cronista de Última Hora, do GLOBO e do Estado de S. Paulo. Minha missão, inventada por Samuel Wainer, em 1970, era uma crônica diária sobre tudo que não fossem jogos da seleção, enquanto esses ficavam com os comentaristas como João Saldanha, Armando Nogueira e Sérgio Cabral, pai. A ideia era levar o leitor ao teatro de operações, vivendo o dia a dia da Copa, do ambiente, das torcidas, dos bares e das cidades-sede, para contar o que a TV e o rádio não estavam contando. Tudo era longe e difícil, a crônica tinha que ser enviada por telex, uma máquina maravilhosa em que você escrevia em Guadalajara e o texto aparecia na máquina do seu colega na redação, e vice-versa. Era como uma máquina de escrever enorme, e você tinha que fazer força para digitar as teclas, uma a uma — a máquina era lenta e barulhenta. Em 1970, no México, todos os dias a concentração era aberta para os jornalistas, que podiam conversar à vontade com jogadores e comissão técnica sem formalidades. Na Copa de 1978, na Argentina sob ditadura militar, a paranoia comandou o espetáculo, dos militares em relação aos torcedores, e de todo mundo em relação aos gorilas. Num inverno congelante, a Copa foi disputada sob suspeitas de um acordo entre os militares no poder no Peru com seus colegas argentinos para uma goleada de 6 x 0 que classificou a Argentina e eliminou o Brasil. A ditadura argentina tinha que ganhar de qualquer jeito, acreditava que a vitória levantaria o moral da tropa e acalmaria a oposição. Pero no mucho, vários livros já investigaram como foi armada e executada a farsa. A de 1982, no verão espanhol de Sevilha e Barcelona, não poderia ser melhor, com o show de bola de Zico, Sócrates, Falcão, Júnior e Cerezo encantando o mundo... e até mesmo a derrota trágica para a Itália contribui para a singularidade dessa seleção. Quanto mais o tempo passa parece que ela joga melhor. Mesmo sem ser campeã, muitos a consideram à altura dos tricampeões de 1970 e dos pentas de 2002 com Ronaldo, Ronaldinho, Rivaldo e Roberto Carlos. A mais chata foi nos Estados Unidos, em 1994, quando eu morava em Nova York e fui à Califórnia para ver um time meio quatro-quatro-meia, menos do que cinco na gíria de Tim Maia, salvo por Romário e Bebeto, mas sempre lembrado pelo futebol de toc-toc mais chato que a seleção já jogou. Nos Estados Unidos ninguém estava ligando para a Copa, os jogos sequer eram transmitidos pela televisão e a cobertura se limitava a um registro do dia no jornal da TV e pequenas matérias na grande imprensa. Os cronistas não tinham assunto para escrever. Na Itália, que era a capital mundial do futebol em 1990, com seus lindos estádios e sua paixão nacional pelo calcio, tinha tudo para ser a melhor mas foi uma das piores, com uma final chatíssima de Argentina e Alemanha campeã com um gol de pênalti duvidoso. Pena que nosso time atual não se compare nem de longe às nossas seleções de ouro.