Perfeita em suas imperfeições, desejada por bilhões e tocada por pouquíssimos, a taça da Copa atravessa gerações, escapa das mãos brasileiras e espera um novo campeão 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Troféu da Copa do Mundo Fifa — Foto: Divulgação RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 16/07/2026 - 22:47 Taça da Copa do Mundo: Símbolo de Glória e Saudade do Brasil A taça da Copa do Mundo, símbolo de desejo e vitória, transcende gerações e representa mais que um troféu: é a ideia de vencer. Apesar de seu fascínio e da glória que traz, permanece uma posse temporária, sempre retornando à FIFA. Desde 1974, com Beckenbauer até Messi, ela mantém sua forma e brilho, enquanto os campeões mudam. Para o Brasil, a taça, sucessora da Jules Rimet, é um objeto de saudade e expectativa, agora distante há 24 anos. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO A taça da Copa do Mundo é um objeto que a gente aprende a erguer muito antes de poder compreender. Na infância, qualquer coisa serve. Um vaso, uma garrafa, uma peça de brinquedo levantada sobre a cabeça enquanto a arquibancada cabe inteira dentro da imaginação. O gesto vem antes do conhecimento sobre seu peso, seu tamanho ou sua história. Crescemos, descobrimos que provavelmente jamais chegaremos perto dela, mas o desejo permanece em algum lugar. Dá vontade de pegar, sentir se o ouro é frio, descobrir se a superfície é lisa ou áspera, saber como seus 6,175 quilos se distribuem entre as mãos. É uma curiosidade quase infantil que sobrevive à idade adulta: como deve ser tocar o mundo? Eu nunca disputei uma Copa e morro de vontade de erguê-la. Se um torcedor, condenado desde o nascimento ao lado de fora do campo, sente essa atração por uma peça de metal, é difícil medir o que ela provoca em quem organizou a vida inteira para chegar até ali. Jogadores treinam desde meninos, atravessam clubes, cidades, países, lesões e derrotas para um dia se aproximarem de um objeto que passaram anos vendo apenas pela televisão. Quando finalmente o encontram, choram, beijam o ouro, dormem abraçados com ele. A taça não fala, não sente nem guarda lembranças, mas faz adultos perderem por alguns minutos qualquer cerimônia. Icônica Parte desse fascínio está em sua forma. Entre tantos troféus bonitos, estranhos, enormes ou excessivos, ela parece ter encontrado o denominador comum de tudo que uma taça deveria ser. Tem ouro suficiente para impor superioridade, uma altura que permite carregá-la junto ao peito e o tamanho exato para ser vista acima de uma multidão. Não precisa das grandes alças da Champions, da longa base da Libertadores, coroada pela figura de um jogador ou das reinvenções periódicas do Brasileirão. Duas figuras se projetam para o alto e sustentam o planeta. A taça da Copa tem a forma do próprio gesto da vitória. Essa aparência perfeita nasce de uma escultura cheia de irregularidades. Vista de perto, sua superfície parece enrugada, os corpos se alongam e se misturam, o ouro se dobra como se ainda estivesse sendo moldado. Existe alguma coisa de bruta em suas linhas. De longe, tudo se resolve numa imagem reconhecida em qualquer parte do planeta. Ela representa uma competição e também algo maior: a ideia definitiva de vencer. Quem a levanta não recebe apenas um troféu. Durante alguns minutos, carrega o mundo sobre a cabeça. A imagem é tão poderosa que costuma esconder uma contradição. A taça representa a maior posse que o futebol pode oferecer, embora jamais pertença inteiramente a quem a conquista. O capitão a ergue, os jogadores a beijam, ela percorre o vestiário e participa da festa. Depois, volta para a guarda da Fifa. O campeão leva uma réplica de bronze banhada a ouro. Até quem conquista o mundo precisa devolvê-lo. Tocar a original é um privilégio reservado a campeões, chefes de Estado e a poucas autoridades. Bilhões de pessoas sabem desenhar suas curvas; quase ninguém conhece sua temperatura. Desde 1974, a taça permanece praticamente igual enquanto os homens ao redor envelhecem. Beckenbauer foi o primeiro a levantá-la. Depois vieram Passarella, Zoff, Maradona, Matthäus, Dunga, Deschamps, Cafu, Cannavaro, Casillas, Lahm, Lloris e Messi. Alguns voltaram a encontrá-la décadas depois, já de cabelos brancos; outros morreram. Ela continua com os mesmos 36,8 centímetros, o mesmo peso e o mesmo brilho, atravessando gerações sem ter uma memória própria. Sua biografia está guardada nos gestos dos outros. Argentina conquistou a Copa do Mundo de 2022 — Foto: Kirill KUDRYAVTSEV / AFP Sucessora da Jules Rimet Para o Brasil, essa relação ganhou uma intimidade difícil de explicar hoje. A taça nasceu quando a Jules Rimet acabava de se tornar definitivamente brasileira e passou cinco Copas longe de nós. Em 1994, deixou de parecer inalcançável. Em 2002, começou a parecer nossa. Entre Dunga e Cafu, só Deschamps conseguiu erguê-la, e uma geração inteira cresceu com a impressão de que aquele objeto passava alguns anos viajando até encontrar novamente as mãos brasileiras. Já se passaram 24 anos desde a última vez. Nesse período, a taça circulou pela Itália, Espanha, Alemanha, França e Argentina. Aquilo que tratávamos quase como uma propriedade voltou a ser um objeto estrangeiro. Pelé beija a taça Jules Rimet, no início da década de 70 — Foto: Divulgação No domingo, essa distância pode ganhar um significado ainda mais incômodo. Se a Argentina vencer, será a primeira seleção a conquistar quatro vezes a taça atual, uma a mais que a Alemanha e o dobro do Brasil. Se a Espanha for campeã, chegará à segunda e igualará nossa relação com esse modelo. Durante duas horas, argentinos e espanhóis passarão diante do objeto que organiza todos os seus desejos. Ao fim, apenas um grupo poderá tocá-lo como campeão. Terá alguns minutos para descobrir aquilo que o resto do mundo imagina desde a infância: o peso exato da glória, a temperatura do ouro, a sensação de carregar o planeta entre as mãos. Depois, também precisará devolvê-lo.
O peso do mundo
Perfeita em suas imperfeições, desejada por bilhões e tocada por pouquíssimos, a taça da Copa atravessa gerações, escapa das mãos brasileiras e espera um novo campeão






