Faz tempo que a Seleção deixou de ser um time, e passou a ser uma vitrine de contratos e celebridades. Os jogadores não dão liga. Para alguns de seus protagonistas, é apenas uma plataforma de autopromoção 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Seleção lamenta eliminação nas oitavas de final da Copa do Mundo — Foto: Odd ANDERSEN/AFP Acho muito antipático dizer que não entendo nada de futebol num país de técnicos, mas é isso, não entendo nada de futebol. Não é falsa modéstia. Faço esse disclaimer para deixar claro que o que escrevo não vem de conhecimentos técnicos, mas de observações casuais ao longo dos anos. Não acompanho os campeonatos, desconheço as tabelas e só sei quem é a bola porque, afinal, alguma coisa a vida ensina. Pronto. Tendo esclarecido o que era necessário: acho que já está mais do que em tempo de descermos do salto alto e do ufanismo injustificado com as cinco estrelas da camisa da Seleção. Sim, é um feito único; ninguém tem tantas. Mas elas foram conquistadas quando os jogadores de hoje ainda nem tinham nascido, e pertencem a uma época em que o Brasil cultivava outros ideais de convivência, de autenticidade e de espírito coletivo. Dizer hoje que o Brasil é o país do futebol é mais ou menos como dizer que o Brasil é o país do samba. Foi, um dia. Hoje o Brasil é o país da música sertaneja, do gospel, do piseiro, do funk. Em tese, nada de errado com isso (ou tudo de errado, dependendo do ângulo). Desde que a gente não se iluda: nossas lembranças, que ainda carregam um peso cultural forte, já não correspondem à realidade. O fio que costurava os jogadores uns aos outros se desfez. Neymar é o símbolo dessa mudança, um atleta extraordinário que prefere ser celebridade a ser jogador. Como observou a Ruth de Aquino aqui mesmo nesta página, é um sujeito que leva relógios para a Copa. Numa Copa do Mundo, a única coisa que um jogador deveria levar era vontade de ganhar. Foi isso que ensinaram os Tubarões Azuis de Cabo Verde, que perderam o jogo, mas conquistaram o mundo. A diferença é que os Tubarões jogaram como um time, e não como onze carreiras dividindo o mesmo gramado. Há uma diferença enorme entre vestir a camisa e representá-la; nessa hora, ter cinco estrelinhas bordadas ou nenhuma dá rigorosamente na mesma. Faz tempo que a Seleção deixou de ser um time, e passou a ser uma vitrine de contratos e celebridades. Os jogadores não dão liga. Para alguns de seus protagonistas, ela é apenas uma plataforma de autopromoção. Mas, se o Brasil já não acredita no coletivo, por que a Seleção acreditaria? Ela é apenas o reflexo de um país em que a marca pessoal passou a valer mais do que o projeto comum. Se está descosturada, é porque o Brasil vem, há tempos, se desfazendo pelas costuras.
A camisa da seleção brasileira e a marca pessoal
Faz tempo que a Seleção deixou de ser um time, e passou a ser uma vitrine de contratos e celebridades. Os jogadores não dão liga. Para alguns de seus protagonistas, é apenas uma plataforma de autopromoção







