Após anos de associação com a direita, uniforme principal da seleção volta a ser usado por torcedores de esquerda e colorem bares e ruas do país durante Copa do Mundo 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Torcedores reunidos para torcer pelo Brasil usando a camisa amarela da seleção — Foto: Alexandre Cassiano/Agência O Globo RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 02/07/2026 - 22:02 Camisa Amarela Retoma Seu Lugar como Símbolo Nacional na Copa A tradicional camisa amarela da seleção brasileira, antes símbolo de polarização política, volta a ser usada nas ruas e bares durante a Copa do Mundo. Após anos de associação à direita, muitos torcedores de esquerda retomaram seu uso, buscando ressignificar a peça como símbolo nacional, acima de clivagens políticas. A demanda pela camisa cresceu, destacando uma mudança no cenário político e social do país. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO O Brasil amarelou, mas em outro sentido. Se nas últimas edições da Copa do Mundo torcedores mais à esquerda evitavam o uso da camisa canarinho pela associação com a direita, agora o país parece mais “pacificado”, apesar das divergências políticas ainda fortes. Desde o impeachment da presidente Dilma Rousseff, em 2016, passando pela ascensão da extrema direita com a eleição de Jair Bolsonaro em 2018, o uniforme principal da seleção brasileira virou símbolo da polarização na política, sendo apropriado por um lado e rechaçado por outro. Não à toa, marcas mais progressistas passaram a apostar em versões não oficiais da camisa na cor vermelha ou com símbolos associados à esquerda, como a estrela do Partido dos Trabalhadores (PT) e a foice e o martelo comunistas. Agora, porém, o quadro parece ter mudado. Como mostrou O GLOBO, às vésperas do início do torneio torcedores enfrentaram dificuldades para encontrar a amarelinha tanto em lojas físicas quanto no comércio online. Numa loja da Zona Norte do Rio, manequins que antes exibiam o uniforme principal usavam a versão azul, que também apresentou oferta reduzida. Na Retrôgol, marca especializada em versões inspiradas em uniformes históricos, a estratégia mudou. Nas últimas edições, a aposta foi em camisas do Brasil em várias cores. Na Copa do Catar, em 2022, os modelos verdes foram os mais vendidos. Agora, as amarelas são as prediletas. — Temos 44 modelos, entre camisetas e jaquetas, e 7 em cada 10 produtos vendidos são amarelos — destaca o CEO Henrique Coronati. Nas últimas Copas, a auditora contábil Sarah Cardoso, de 26 anos, fazia questão de colocar um adesivo ou acessório na camisa do Brasil que deixasse claro sua posição política à esquerda. — Não queria que me associassem a algo com que não me identifico. Agora, percebo que deixar de usar a camisa amarela só reforça a ideia de que ela pertence a um partido político, sendo que ela representa um país inteiro — defende. Já a advogada Beatriz Ribeiro, de 32 anos, aposentou a amarelinha quando Bolsonaro foi eleito presidente, mas retomou seu uso para esta Copa. Para ela, além de uma reafirmação do símbolo nacional, o uso da amarelinha é também uma manifestação de nacionalismo em resposta a ações externas como as tarifas impostas pelos EUA e os ataques do governo americano ao pix. — Acho que está tendo um resgate, as pessoas começaram a se sentir à vontade para retomar a camisa do Brasil, para mostrar que o país é nosso — opina. Para o cientista social Marco Antônio Teixeira, coordenador do Mestrado e Doutorado em Gestão e Políticas Públicas da FGV EAESP, a associação da camisa amarela à extrema direita parece ter se diluído neste Mundial, num reflexo não apenas da mudança na visão dos torcedores, mas também de ações políticas. Ele lembra que parte dos políticos de centro e de esquerda têm se movimentado para dissociar a camisa da política. — A questão fundamental é tratar a camisa como algo acima das clivagens políticas — ressalta. O professor observa, porém, que ainda há disputa entre as lideranças. No fim de junho, o presidente Lula disse que a esquerda tinha que andar de verde e amarelo durante a Copa, “para não deixar que as cores do Brasil sejam tomadas por nenhum fascista”. Alguns dias depois, nas redes sociais, o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) convocou os apoiadores a vestirem o que chamou de “camisa do Bolsonaro”. Exemplos na música A polarização política traduzida num uniforme de futebol não é exclusividade brasileira: — Na recente eleição da Colômbia, o candidato eleito presidente, Abelardo de la Espriella, de extrema direita, só andava com a camisa da seleção. É uma polarização tão intensa quanto aqui — destaca Teixeira. O jornalista Gabriel Paes, de 29 anos, voltou a vestir a camisa amarela ainda em 2022, quando se sentiu mais “confiante” ao ver o rapper Djonga usar o uniforme da seleção numa apresentação no festival Lollapalooza — atitude semelhante à das cantoras Madonna e Pabllo Vittar no show da Praia de Copacabana, em 2024. Para ele, foi uma demonstração de que era possível vestir a camisa da CBF “sem parecer bolsonarista”. Desde então, não parou. Agora, quer intercalar a amarelinha com o uniforme azul, à medida que a seleção brasileira avança na disputa: — Mas se o Brasil passar nas quartas, eu fico só na amarelinha, porque aí vira a camisa da sorte.