Sandra é costureira em ­Aracaju. Em 2022, ela dobrou a camisa da Seleção Brasileira do filho mais novo e guardou no fundo do armário, embaixo de um lençol. Não foi decisão pensada. Foi reflexo. A amarelinha, que por décadas era só o uniforme da Copa do Mundo, havia virado outra coisa. Um sinal, uma bandeira, um risco de confusão na padaria. Preferiu não arriscar. Em 2026, três semanas antes do Mundial, ela tirou a camisa do armário, lavou e pendurou no varal. O filho vai usar. O marido vai usar. Ela mesma talvez vista. E nada disso é declaração política. É só a Copa de novo.

Essa pequena cena doméstica, quase invisível, é exatamente o que uma pesquisa nacional do Instituto Locomotiva, em parceria com a QuestionPro­, acaba de revelar: 62% dos entrevistados, o equivalente a 102 milhões de brasileiros, concordam que têm orgulho de vestir a camisa da Seleção. Entre os eleitores de direita, esse índice chega a 68%. Entre os de esquerda, a 65%. Quando a pergunta é se pretendem usar a camisa nos jogos do Brasil, 93% dos eleitores de esquerda dizem que sim. À direita, 92%. Praticamente idênticos. A camisa amarela está fazendo o caminho de volta para casa.

Essa volta diz uma coisa que a leitura cotidiana da política brasileira tende a esconder: existe um Brasil emocional mais resistente do que a polarização sugere. Sete em cada dez brasileiros concordam que a Copa aproxima familiares, amigos e colegas que pensam diferente. São 118 milhões de eleitores. E os números das duas margens políticas quase se sobrepõem de novo: 75% à esquerda, 74% à direita. Num país onde quase todo dado de opinião pública vem rachado ao meio, esse equilíbrio é uma anomalia que precisa ser olhada de perto.