Assisti ao Jornal Nacional desta segunda-feira 9 e senti uma irritação que demorei um pouco para entender. A Copa do Mundo se aproxima e a Globo colocou em marcha sua operação habitual para transformar o torneio em acontecimento nacional obrigatório. Renata Vasconcellos ancorava o telejornal de Nova York, de uma varanda na Times Square, enquanto as reportagens exibiam imagens bonitas, trilha emocional e aquela embalagem que funde publicidade e entretenimento com muito pouco de jornalismo até ninguém saber exatamente onde termina uma coisa e começa a outra.

Eu deveria ter sido capturado pelo ufanismo. Durante boa parte da vida, fui um alvo fácil para esse tipo de convocação sentimental. Gosto de Copa do Mundo desde antes de entender direito o que era uma Copa do Mundo. Na infância, acompanhei a de 1990 datilografando escalações das seleções em uma máquina de escrever que havia em casa. Além do Brasil de Careca, Alemão (mineiro de Lavras, como meu pai sempre ressaltava) e de Dunga, adorava Camarões de Roger Milla e a Colômbia de Higuita e Valderrama.

Em 1994, aos 12 anos, vi o Brasil ser campeão como quem assiste a uma revelação. Lia a revista Placar de forma compulsiva, decorava nomes, esquemas, camisas, histórias e estatísticas. Até poucos anos atrás, sabia de cor todos os placares e autores dos gols, mas a Covid corrompeu minha memória. Antes de querer ser repórter, antes de passar anos cobrindo desgraças e violações de direitos humanos, eu queria ser jornalista esportivo. Mais especificamente: queria trabalhar na Placar e saber tudo de futebol. Nunca fui, como todos que acompanham minhas colunas nesta CartaCapital podem imaginar.