É preciso cautela antes de fazermos afirmações generalizantes sobre o conservadorismo entre os jovens 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Jovens da geração Z têm sido classificados como conservadores — Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo/30/04/2026 RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 11/06/2026 - 17:18 "Desvendando a Complexidade: A Geração Z e o Conservadorismo" A questão sobre a geração Z ser mais conservadora requer análise cuidadosa. Embora existam percepções de um aumento no conservadorismo entre esses jovens, é essencial evitar generalizações precipitadas. Fatores sociais, econômicos e culturais influenciam suas atitudes, e a diversidade dentro dessa geração impede conclusões simplistas. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Muitos leitores já devem ter escutado que os jovens da geração Z (que têm hoje entre 14 e 29 anos) são conservadores. A tese partiu da observação de certos traços demográficos da preferência partidária nos Estados Unidos, depois se expandiu para outros aspectos e se observou em outros países, inclusive no Brasil. A ideia encontrou respaldo em produtos culturais como as minisséries “Adolescência” e “Por dentro da machosfera” (ambas da Netflix), que mostraram a difusão da misoginia entre os jovens, além de episódios do noticiário policial como o estupro coletivo em Copacabana. Agora, um relatório da More in Common mostra que as evidências dessa tendência no Brasil são bastante ambivalentes. É preciso cautela antes de fazermos afirmações generalizantes sobre o conservadorismo entre os jovens. A primeira análise internacional de grande repercussão foi uma reportagem de janeiro de 2024, do prestigiado jornalista de dados do Financial Times John Burn-Murdoch, mostrando que em muitos países a distância ideológica entre homens e mulheres jovens aumentava. É um fato antigo e conhecido: homens são mais de direita que as mulheres. Mas essa distância ideológica entre os mais jovens aumentava desde os anos 2010 em países tão diferentes quanto Alemanha, Coreia do Sul e Reino Unido. Depois, duas pesquisas de novembro de 2025, ambas realizadas on-line, uma da Fundação Friedrich Ebert, outra da AtlasIntel, mostraram que, entre os jovens, a identificação com a direita é quase duas vezes maior que com a esquerda. A evidência mais impactante foi um estudo do King’s College de Londres, de março deste ano — também baseado em painel on-line —, analisando atitudes sobre gênero em 29 países, entre eles o Brasil. Na média dos 29 países analisados, a pesquisa apontou uma espécie de escada geracional invertida: os mais velhos apareciam sistematicamente como mais igualitaristas que os mais jovens quando questionados se concordavam com questões como “Uma esposa deve sempre obedecer ao marido” e “Fomos longe demais na promoção da igualdade das mulheres a ponto de estarmos discriminando os homens”. No conjunto, os dados dessas pesquisas sugerem que jovens são mais de direita que os mais velhos, homens jovens são mais de direita que mulheres jovens e jovens defendem mais os papéis tradicionais de gênero. Embora autodeclaração ideológica e atitudes sobre gênero não sejam a mesma coisa, elas passaram a ser frequentemente combinadas no debate público para sustentar a tese de uma geração Z mais conservadora. Porém, pelo menos outras três pesquisas, com amostras amplas e entrevistas presenciais, não confirmaram essa conclusão. A pesquisa “Brasil invisível” da More in Common, realizada em 2025 com 10 mil entrevistas presenciais, não encontrou nenhum padrão geracional ou de idade nas atitudes em relação a gênero e sexualidade para 11 questões como “Os papéis de homens e mulheres devem ser diferentes” e “O feminismo é uma ameaça para a família”. Séries de pesquisa de opinião internacionais como Lapop e Latinobarómetro também não mostram maior distância ideológica entre homens e mulheres jovens. Ao contrário do afastamento contínuo sugerido por Burn-Murdoch, as séries presenciais mostram apenas um pico episódico em 2018 — talvez causado pela eleição naquele ano — que desaparece nos anos seguintes. A distância ideológica entre homens e mulheres jovens no Brasil no século XXI é tão pequena que, em quase todos os anos, está dentro da margem de erro. Os dados são muito contrastantes e sugerem cautela para a generalização de que os jovens têm se tornado conservadores. Há uma série de explicações para a divergência. A mais provável é que os dados mostrando conservadorismo entre os jovens vêm de painéis web, que podem ter viés de seleção — sobrerrepresentando jovens conservadores mais engajados. Por esse motivo, as pesquisas presenciais que abordam entrevistados diretamente — e têm menos viés de recrutamento — mostram um retrato diferente. Nada disso é motivo para minimizar o risco causado por grupos misóginos on-line como masculinistas ou red pills. Esses grupos precisam ser monitorados e suas ações ilegais punidas. A escala, porém, importa. Não há indício robusto de que esse movimento seja de massa. Enfrentar a misoginia exige compreender suas causas, mas também sua verdadeira dimensão. É melhor evitar diagnósticos apressados que transformem indícios ambivalentes numa sentença definitiva sobre toda uma geração.