Gerando resumoAo chegarem ao escritório pela manhã, os estagiários Gabriel Ambrósio e Pedro Lourenço foram chamados para uma conversa reservada com a chefia. O motivo? Atrasos recorrentes. A gestora queria entender as razões para as demoras sem justificativa. Eles argumentaram sobre o frio extremo que fazia na cidade e pediram empatia. “O que mais me magoa nessa empresa é o presencial”, disse Gabriel aos prantos. Em seguida, Pedro pede que a chefe não fale “mais daquela forma” com eles.PUBLICIDADEO diálogo se trata de um vídeo em tom de sátira criado pela dupla de criadores de conteúdo, que mantém um quadro fixo nas redes sociais sobre os estereótipos atribuídos à geração Z no ambiente corporativo. Embora seja ficção, o influenciador Pedro Lourenço, de 24 anos, revela que as situações retratadas surgiram a partir das próprias experiências e dos relatos de amigos que atuam no mercado financeiro. “O personagem é um exagero das coisas que gostaria de fazer se pudesse. Mas escuto muitas queixas, principalmente de quem trabalha em grandes empresas. São reclamações de ver o mundo de uma forma que as pessoas mais velhas não veem e não entendem”, afirmou Lourenço ao Estadão.PublicidadeA ideia de ironizar o que é pontualidade para as outras gerações partiu de episódios da época em que trabalhava no teatro. Lourenço conta que chegava ao expediente com antecedência, mas os colegas mais velhos julgavam inadequado. “Eles falavam que eu precisava chegar horas antes. Eu perguntava: ”O que eu vou fazer aqui? Mas a resposta era sempre: A vida inteira fizemos assim”, relembra.Ao lado do amigo Gabriel Ambrósio, o criador de conteúdo Pedro Lourenço, de 24 anos, criou um personagem da geração Z, "o estagiário híbrido" Foto: Isabella FinholdtOs vídeos dos influenciadores são um reflexo do que vem sendo propagado nos últimos anos sobre os jovens profissionais, que foram apontados como os responsáveis pelos principais conflitos no ambiente de trabalho. Eles são rotulados como avessos à hierarquia, resistentes ao trabalho presencial, difíceis de se comunicar e conviver, ansiosos, impacientes e até preguiçosos.PublicidadeMas, estereótipos à parte, o fato é que esses jovens estão entrando em um mercado de trabalho marcado por grandes mudanças. O avanço da inteligência artificial, os anúncios de demissões em massa em setores antes aquecidos e a preocupação em substituído por máquinas ampliam as incertezas para quem está começando a carreira.No Brasil, a geração Z faz parte de um contingente de 47 milhões de pessoas, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Desse total, 48% está economicamente ativo e já participa do mercado de trabalho.Jovens negam estereótipos no trabalhoPara Lucas Batista, de 22 anos, o rótulo de pular de galho em galho não é uma realidade. Há quatro anos na mesma empresa, período considerado longo por especialistas que estudam a geração Z, ele não pretende migrar para outro emprego no curto prazo. Atualmente, trabalha de forma remota na área de design digital e mora com os pais. Publicidade“Nossa geração aprendeu o que significa dignidade. Não nos submetemos a qualquer vaga, então gerou o estereótipo de que a gente é preguiçoso, que não quer trabalhar, quando o que queremos é ter uma vida digna”, afirma. Lucas Batista, de 22 anos, revela ter uma boa relação com os chefes e se sente valorizado na empresa que está há quatro anos Foto: Arquivo pessoalA forma como enxergam o espaço que o trabalho ocupa é diferente de outras gerações, como X, millenials e baby boomers. Para os jovens, o ofício faz parte da realização pessoal, mas não é o centro da vida, reforça Letícia Pavim, cofundadora da Rede Pavim, que treina lideranças e desenvolve gen Z.“Não tem essa coisa de ‘vou me matar pelo trabalho, o trabalho é tudo para mim’”, afirma a especialista.PublicidadeNo caso da estudante de medicina Raiane Gois, de 26 anos, ter qualidade de vida é uma das prioridades quando ingressar no mercado de trabalho, mas admite estar disposta a abrir mão do equilíbrio entre vida pessoal e profissional nos primeiros anos da carreira em troca de uma boa remuneração. “Quero adquirir experiência e ganhar estabilidade no começo”, relata a estudante, que assim como Lucas Batista rejeita a imagem de fazer “corpo mole” no trabalho. “Não concordo, só queremos ambientes mais saudáveis”, diz. A estudante Raiane Gois, de 26 anos, valoriza qualidade de vida, mas cogita ter renda financeira como prioridade no começo da carreira Foto: Arquivo pessoalNa disputa entre flexibilidade ou salário, a decisão não se resume a um fator ou outro, avalia Rodrigo Vianna, CEO da Mappit, empresa do Talenses Group especializada em vagas de início de carreira. Na verdade, a escolha é guiada por uma tríade formada por flexibilidade (modelo de trabalho e horários mais flexíveis), remuneração e saúde mental. PublicidadeCaso a empresa tenha gargalo em uma das áreas, o profissional pode ficar balançado e migrar para outro emprego ainda que não esteja com muito tempo de casa. “Eles querem aprender, querem sentir que o trabalho tem impacto e, principalmente, não aceitam a ideia de ‘vestir a camisa’ se a empresa não mostrar que cuida do time e tem valores alinhados aos deles”, ressalta. A especialista em liderança, Andrea Krug, que já recrutou profissionais gen Z e liderou projetos de jovens talentos, confirma as hipóteses do CEO. “Se a empresa é contrária a alguma ideologia que defende, o jovem simplesmente não vai se candidatar. Eles querem fazer a diferença no mundo”, observa. No entanto, Letícia Pavim alerta que a mudança para se ajustar à nova realidade não depende apenas das empresas. “Ninguém tem de se adaptar 100% a ninguém. Não faz sentido uma empresa se adaptar integralmente a uma geração, mas é importante ouvir”, aconselha.‘Trainee de aposentado’: o eterno embate entre a geração X e ZA dificuldade em ser ouvido e ter ideias aceitas pelas lideranças mais velhas é uma das principais reclamações do influenciador Pedro Lourenço. Os amigos e os seguidores também criticam o excesso de reuniões presenciais — que poderiam ser um e-mail — e a resistência para utilizar ferramentas digitais. “Presencial é um trauma geral”, resume.PublicidadeO uso de tecnologia é uma das faíscas para o embate entre a geração X (1965 e 1980) e a Z, avalia Andrea Krug. Quem está na casa dos 60 anos considera os jovens “mimizentos”, diz. Do outro lado do cabo de guerra, os jovens se intitulam como “trainee de aposentado” por ter de ensinar o que consideram “básico” no trabalho. Lourenço, por exemplo, relembra como ele e o pai têm uma relação diferente com a IA. “Meu pai dedica muito tempo fazendo um cálculo na mão. Com IA, eu faço rápido e o meu trabalho vira outro”, afirma.“O personagem que eu faço é um exagero do que eu queria ser, mas não tinha liberdade para ser porque não poderia agir daquela forma no mercado profissional”, afirma Pedro Lourenço Foto: Isabella FinholdtA boa notícia é que o gatilho da treta diminui na geração seguinte, que são os millennials. “O gap é menor quando o líder é dessa fase. Os millennials foram os primeiros que questionaram essa ideia de fazer tudo pelo trabalho”, diz Krug. PublicidadePara Letícia Pavim, os chefes precisam compreender as expectativas dos mais jovens, por mais difícil que isso seja no dia a dia. Em contrapartida, a geração Z também deve entender o ritmo das organizações e reconhecer que mudanças estruturais levam tempo. “Todo mundo precisa chegar no meio do caminho”, avalia. Assumir ‘mea culpa’ pode ser o caminho possívelEsse trabalho de apagar incêndios é o foco da Rede Pavim, que treina líderes para lidar com a geração Z. Antes de realizar treinamentos com gestores, a empresa faz pesquisas internas, conversa com o RH e analisa a cultura organizacional para mapear conflitos e desafios. Com os jovens, a abordagem é outra. Eles recebem treinamentos de inteligência emocional, comportamento corporativo, separação entre o que é pessoal e o que é profissional, além das “regras não ditas” do mundo do trabalho, como atrasos e maneiras de se comunicar no linguajar do mercado. PublicidadeMas a relação começa no recrutamento. Desde a divulgação da vaga até a integração do funcionário, empresas devem informar as expectativas e precisam estar abertas a ouvir demandas que não comprometam os resultados. É o caso de jovens que pedem flexibilizações de horário para realizar sessões de terapia. “Se isso não vai atrapalhar as entregas nem a dinâmica da empresa, por que não?”, questiona.Leia também Para onde vai o dinheiro dos jovens que não bebem e como as empresas disputam esses consumidoresGeração Z: maioria dos jovens empregados está na informalidade e troca de trabalho em até um anoEu sei como a Geração Z pode sobreviver ao ‘apocalipse do emprego’, diz CEO de empresa de IARodrigo Vianna, da Mappit, acrescenta que o erro mais comum das empresas é querer ser moderno a qualquer custo. “A gen Z tem um radar muito bom para identificar o que é discurso vazio. Se a empresa promete inovação e cultura aberta, mas no dia a dia é engessada, eles percebem na hora”, alerta. O primeiro passo é mostrar o contexto das demandas feitos pelos mais novos. “É importante dizer que aquela planilha ou aquele relatório vai ajudar a diretoria a tomar decisões. Quando ele entende que o trabalho é importante, consegue alinhar aquilo aos próprios objetivos e ao senso de propósito”, explica Letícia.PublicidadePara Andrea Krug, o dilema da gen z é a dificuldade em fazer renúncias e se frustrar. “Eles foram pouco frustrados. Eles são a geração ‘filho de pais culpados’, que resolvem dar tudo que não tiveram. Eles cresceram sem muitos ‘não’ e com pouca frustração”, afirma.O influenciador Pedro Lourenço reconhece que a superproteção familiar piora a má fama da geração Z. Questionado sobre a possibilidade de pais levarem filhos a entrevista de emprego, ele não descarta a possibilidade. “Meus pais iam mandar eu me virar, mas conheço pessoas que fariam isso. Não é tão absurdo quanto parece”, diz.O recado dele para profissionais mais velhos que convivem com jovens no ambiente de trabalho é direto. “Se você acha que o seu estagiário é mimado ou exigente, vale pensar: o que ele está pedindo que eu sempre quis, mas nunca pude?”, provoca.Publicidade