A recente greve nas universidades paulistas não diz respeito apenas à discrepância do tratamento entre docentes e servidores, à necessidade de fortalecimento de políticas de permanência estudantil e à atuação contra um projeto de desmonte das instituições públicas. Embora sejam elementos centrais, parece estar em disputa o significado histórico da universidade pública brasileira, sobretudo em um contexto eleitoral que coloca em debate concepções de país e sociedade.
Esse modelo de universidade, em parte concebido como motor de um projeto de transformação social, voltada à formação cidadã, produção de conhecimento crítico e de democratização do saber, parece atravessar um processo acelerado de esvaziamento de sua função social. Vivemos uma transformação estrutural ampla, marcada tanto pelo aumento de pressão por produtividade, na esteira da plataformização da educação e pela financeirização do ensino superior quanto pelo declínio da própria legitimidade cultural da universidade diante das novas gerações.
As declarações do ex-jogador Túlio Maravilha vocalizam um movimento crescente entre as classes altas e determinados recortes do campo ideológico-político de que as universidades se tornaram espaços de doutrinação esquerdista e degradação moral. Essa versão foi cuidadosamente difundida e alimentada no Brasil desde os anos 1080, com o Instituto Liberal, passando pelo Instituto Millenium, Instituto Mises Brasil e Instituto Rothbard até os mais recentes Estudantes pela Liberdade e Movimento Brasil Livre (MBL), encontrando seu auge com a produção de propaganda ideológica por meio da midiosfera extremista, o Brasil Paralelo. O discurso desses think thanks liberais foi desde o início pautado pela ideia de que as instituições públicas são antros de penetração da ideologia de esquerda, favoráveis ao funcionalismo público e ao fortalecimento do Estado, e, portanto, contrários às formas de empreendedorismo típicas do pensamento liberal.












