Com o pior desempenho mensal desde fevereiro de 2023, no menor nível desde 21 de janeiro e diante de um horizonte avassalador. É assim que a bolsa brasileira se despede, nesta sexta (29), de um mês que fez jus ao ditado "sell in May and go away". Só que ninguém do mercado local imaginava que o fluxo de venda e debandada do capital em maio seria mais seletiva. Neste ano, a despedida do risco teve alvos certos - e o Brasil está entre eles. O Ibovespa, que desabou 7,22% em maio e encerra o mês nos 173 mil pontos. Na sessão derradeira deste mês, o índice recuou 0,73%, acumulando perdas de 1,37% nesta semana. No ano até aqui, a alta da carteira está em 7,86%. A ideia de que existe um trade de venda de bolsa em maio nasceu em Londres e foi adotada por Wall Street, baseada num padrão histórico dos seis meses entre maio e outubro, quando as posições em ações rendem menos do que no período de novembro a abril. É quase um folclore financeiro, mas em 2026, no Brasil, virou fato. Já são sete semanas seguidas de perdas na principal carteira teórica da bolsa brasileira, que segue numa tendência de queda no curto, segundo as análises técnicas, e luta para sair da faixa dos 170 mil pontos desde 13 de maio. O marco foi deixado pelo escândalo que revelou as ligações entre o pré-candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o banqueiro preso Daniel Vorcaro. Desde então, os investidores passaram a reduzir as probabilidades de eleger um nome de oposição ao Planalto e a trabalhar com um horizonte de risco fiscal crescente. Os investidores estrangeiros venderam R$ 14,1 bilhões a mais do que compraram em ações no mercado à vista da B3 do começo de maio até o dia 27. É uma inversão brutal: no início do ano, o gringo havia colocado R$ 33 bilhões só em janeiro - mais do que em todo 2025. Agora, está fazendo o caminho de volta. O giro financeiro do Ibovespa ficou em R$ 37 bilhões hoje, mais do que o dobro da média diária nos últimos 12 meses, de R$ 18,3 bilhões. "Mesmo o Brasil sendo um dos principais países emergentes para receber capital estrangeiro, a queda de juros mais curta e morosa e instabilidade fiscal vão fazendo essa oportunidade escorrer pelo ralo e o primeiro reflexo é a bolsa de valores perdendo capital" diz Josias Bento, sócio da GT Capital. Apesar da escalada do risco global, o dinheiro na bolsa do Brasil não sumiu da noite para o dia, ele apenas migrou de geografia. Os índices de Nova York - especificamente o Nasdaq e o S&P 500 - renovaram máximas históricas quase todos os dias neste mês com a volta da febre da inteligência artificial (IA). Para o gestor global, a pergunta é simples: por que ficar exposto a uma bolsa com juros de 14,5% ao ano - que estrangula o fluxo e favorece a renda fixa sobre a ação - se pode surfar um rali de tecnologia que sobe 10% num único mês? O gringo de fato vendeu em maio, mas ele não foi apenas embora das bolsas, ele foi para o Nasdaq. O dólar à vista encerra o mês 1,8% mais caro, a R$ 5,04. Na sessão, subiu 0,2% e, na semana, a moeda americana avançou 0,3% sobre o real. No ano até aqui, cedeu 8,13% no mercado de câmbio local. Se o gringo vai embora porque há coisa melhor lá fora, o investidor brasileiro não volta à bolsa por questões próprias. A principal em maio foi a certeza de que o corredor para as quedas da Selic ficou mais estreito e, assim, o ciclo de alívios pode ser menor do que o esperado. Os dados mostram um mercado de trabalho desaquecendo nos novos empregos, mas uma economia que ainda não esfriou o bastante para a inflação ceder. Já há bancos, como o Citi, que trabalham com a Selic em 13,75% ao ano no fim de 2026 - apenas mais 3 cortes de 0,25 ponto percentual ou 1,25 ponto percentual de distância do patamar atual da taxa básica. O juro vai cair menos - e mais devagar - do que o mercado esperava. A taxa de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 saiu de 14,05% para 14,09% ao ano. Prêmios em contratos de curto prazo estão mais ligados às expectativas dos investidores para a Selic.No médio prazo, os retornos da taxa para janeiro de 2031 oscilaram de 13,89% para 13,88% ao ano.Já para janeiro de 2036, a taxa oscilou de 13,99% a 13,96% ao ano. Vencimentos com prazos mais longos refletem uma maior preocupação com calote do governo. Para o setor financeiro, a notícia é quase tão avassaladora quanto a retomada dos atritos diplomáticos entre Brasil e Estados Unidos, cuja determinação de classificar as facções criminosas locais como grupos terroristas estende os tentáculos do governo americano ao sistema bancário brasileiro. E falando em EUA, a extensão do impasse com o Irã ao terceiro mês emperra as ações da Petrobras, que chegaram a bater máximas no início de abril, quando o Brent (referência mundial) rondou os US$ 120. O chove-não-molha entre EUA e Irã penaliza a bolsa brasileira em duas frentes. A primeira com um petróleo em tendência de queda, as ações das petroleiras locais cedem - caso dos papéis da Petrobras, que chegaram a cair 15% neste mês, acompanhando a derrocada de 12% no preço do barril, com a expectativa de reabertura do Estreito de Ormuz. Das 79 ações que compõem o Ibovespa atualmente, 64 desvalorizaram neste mês; 42 na semana e 58 ficaram no vermelho apenas hoje. A segunda frente que penaliza a bolsa é a baixa convicção do mercado com o avanço a um acordo (mais uma vez adiado) entre os países, o que não traz qualquer visibilidade de quanto o choque de energia irá se desfazer. E nessa frente tanto o Brasil quanto o resto do mundo já pagam a conta, com a inflação pressionada desde o dia um desse conflito. A ironia do "sell in May" é que, historicamente, o ditado não funciona tão bem assim - a maioria dos estudos acadêmicos mostra que a diferença de retorno é pequena e inconsistente. Só que quando fluxo, macro e geopolítica se alinham, como aconteceu neste mês, o ditado vira uma profecia autorrealizável: o gringo vende, a bolsa cai, e quem não vendeu se pergunta se deveria ter vendido. O potencial grande divisor de águas para a bolsa do Brasil agora é o Copom de junho. O mercado espera redução da Selic a 14,25%, mas o que importa é o tom do comunicado: se o Banco Central sinalizar espaço para cortes no segundo semestre, a bolsa pode ter um alívio. Se não, a sangria continua. Lá fora, Trump disse hoje que fará uma "determinação final" sobre o acordo de cessar-fogo com o Irã ainda neste fim de semana. Se Ormuz reabrir de fato, o petróleo pode buscar a faixa dos US$ 70 a 80 o barril. É um começo, mas aliviaria a inflação no mundo inteiro e abriria caminho para o dinheiro encontrar seu caminho de volta aos mercados emergentes, incluindo o Brasil. Comportamento das ações do Ibovespa em 29/5/2026 Código Nome Abertura Mínima Média Máxima Fechamento Var. % TOTS3 TOTVS ON 31,81 31,40 32,99 33,76 33,07 4,16 USIM5 USIMINAS PNA 10,63 10,60 10,92 11,15 11,08 4,04 ENEV3 ENEVA ON 24,96 24,67 25,38 25,63 25,63 2,52 EGIE3 ENGIE BRASIL ON 32,32 31,95 32,92 33,10 33,10 2,41 BBSE3 BB SEGURIDADE ON 34,70 34,52 35,20 35,40 35,40 2,37 CXSE3 CAIXA SEGURI ON 17,44 17,36 17,62 17,71 17,71 1,55 CEAB3 CEA MODAS ON 11,45 11,20 11,45 11,58 11,58 1,22 EQTL3 EQUATORIAL ON 38,29 37,65 38,42 38,55 38,55 0,92 WEGE3 WEG ON 43,60 43,10 44,05 44,30 44,10 0,87 CPFE3 CPFL ENERGIA ON 42,92 42,39 43,20 43,39 43,39 0,84 CPLE3 COPEL ON 14,49 14,14 14,49 14,56 14,56 0,76 VIVT3 TELEF BRASIL ON 33,79 33,04 33,68 33,82 33,82 0,65 SUZB3 SUZANO S.A. ON 41,65 41,03 41,81 41,91 41,91 0,53 DIRR3 DIRECIONAL ON 13,43 13,20 13,38 13,53 13,40 0,22 ABEV3 AMBEV S/A ON 16,29 16,02 16,26 16,46 16,32 0,18 ITUB4 ITAU UNIBANCO PN 39,87 39,54 39,98 40,16 40,04 0,10 CYRE3 CYRELA REALT ON 22,59 22,08 22,42 22,68 22,52 0,09 PSSA3 PORTO SEGURO ON 48,29 47,83 48,30 48,60 48,31 0,06 BRAV3 BRAVA ON 20,25 19,92 20,22 20,54 20,25 0,05 B3SA3 B3 ON 16,53 16,22 16,47 16,64 16,50 0,00 KLBN11 KLABIN S/A UNT 16,80 16,54 16,68 16,80 16,67 0,00 MOTV3 MOTIVA SA ON NM 14,09 13,76 14,03 14,24 14,11 -0,14 TAEE11 TAESA UNIT 39,53 38,83 39,11 39,53 39,16 -0,15 ISAE4 ISA ENERGIA PN 27,08 26,57 26,86 27,24 27,03 -0,22 SANB11 SANTANDER BR UNIT 27,53 27,08 27,34 27,60 27,16 -0,22 AURE3 AUREN ON 12,42 12,17 12,32 12,53 12,37 -0,24 EMBJ3 EMBRAER ON 73,71 71,73 73,27 74,10 73,38 -0,30 ITSA4 ITAUSA PN 12,95 12,83 12,94 13,02 12,92 -0,39 YDUQ3 YDUQS PART ON 9,56 9,37 9,51 9,66 9,54 -0,42 BRAP4 BRADESPAR PN 23,36 23,01 23,18 23,50 23,25 -0,43 CSMG3 COPASA ON 53,20 51,68 52,46 53,48 52,71 -0,43 MULT3 MULTIPLAN ON 29,85 29,26 29,60 30,04 29,79 -0,43 AXIA3 AXIA ENERGIA ON 52,50 50,97 52,23 52,70 52,43 -0,51 BBDC3 BRADESCO ON 15,64 15,39 15,50 15,64 15,50 -0,58 LREN3 LOJAS RENNER ON 15,02 14,80 14,94 15,10 14,90 -0,67 SBSP3 SABESP ON 28,12 27,52 27,87 28,45 27,95 -0,75 ENGI11 ENERGISA UNT 48,25 47,51 47,97 48,53 48,00 -0,83 CMIN3 CSN MINERACAO ON 4,70 4,64 4,68 4,75 4,66 -0,85 RAIL3 RUMO S.A. ON 13,86 13,56 13,72 13,91 13,72 -0,94 IGTI11 IGUATEMI S.A UNT 26,30 25,69 25,93 26,30 25,94 -0,95 BPAC11 BTGP BANCO UNT 54,49 53,21 53,74 54,49 53,75 -1,01 SMFT3 SMART FIT ON 18,80 18,45 18,61 18,85 18,53 -1,07 BBDC4 BRADESCO PN 17,94 17,70 17,74 17,95 17,70 -1,12 PRIO3 PETRORIO ON 62,28 61,03 62,06 62,85 62,25 -1,14 COGN3 COGNA ON 2,53 2,46 2,50 2,54 2,50 -1,19 PETR4 PETROBRAS PN 42,20 41,82 42,04 42,35 42,00 -1,20 RDOR3 REDE D OR ON 34,30 33,50 33,95 34,43 34,02 -1,31 CSNA3 SID NACIONAL ON 6,79 6,66 6,75 6,91 6,71 -1,32 VALE3 VALE ON 84,01 82,38 83,04 84,28 82,82 -1,36 RADL3 RAIA DROGASIL ON 18,87 18,69 18,78 19,01 18,69 -1,37 CURY3 CURY S/A ON 32,17 31,55 31,82 32,36 31,73 -1,40 VIVA3 VIVARA ON 22,14 21,46 21,75 22,15 21,84 -1,40 ALOS3 ALLOS ON 28,66 28,11 28,29 28,84 28,21 -1,47 NATU3 NATURA ON 9,97 9,78 9,91 10,05 9,95 -1,49 BBAS3 BRASIL ON 20,67 20,28 20,45 20,70 20,30 -1,50 AXIA6 AXIA ENERGIA PNB 57,80 56,07 57,06 57,89 56,93 -1,68 PETR3 PETROBRAS ON 47,16 46,73 46,90 47,59 46,73 -1,70 MBRF3 MARFRIG ON 16,25 15,68 15,96 16,36 16,01 -1,72 RECV3 PETRORECSA ON 11,54 11,05 11,28 11,63 11,37 -1,81 RENT3 LOCALIZA ON 42,90 41,35 41,94 42,90 42,02 -1,87 POMO4 MARCOPOLO PN 6,20 6,06 6,10 6,22 6,06 -1,94 TIMS3 TIM ON 22,39 21,90 21,99 22,42 21,90 -1,97 MRVE3 MRV ON 5,97 5,79 5,84 5,98 5,85 -2,01 FLRY3 FLEURY ON 15,70 15,23 15,40 15,76 15,39 -2,22 HYPE3 HYPERA ON 22,35 21,82 21,98 22,47 21,91 -2,23 SLCE3 SLC AGRICOLA ON 15,50 15,40 15,54 15,80 15,50 -2,52 ASAI3 ASSAI ON 8,99 8,68 8,80 9,09 8,75 -2,56 CMIG4 CEMIG PN 11,07 10,76 10,85 11,13 10,76 -2,62 HAPV3 HAPVIDA ON 12,50 11,84 12,08 12,53 12,15 -2,64 AZZA3 AZZAS 2154 ON 19,85 19,08 19,33 19,85 19,31 -2,72 GGBR4 GERDAU PN 23,48 22,74 22,97 23,48 22,77 -3,11 CSAN3 COSAN ON 3,93 3,75 3,82 3,97 3,80 -3,55 VBBR3 VIBRA ON 30,90 29,70 29,83 30,95 29,75 -3,75 UGPA3 ULTRAPAR ON 27,07 25,87 26,00 27,07 25,87 -3,86 VAMO3 VAMOS ON 3,19 3,06 3,11 3,21 3,06 -4,08 GOAU4 GERDAU MET PN 10,29 9,80 9,95 10,29 9,80 -4,11 MGLU3 MAGAZINE LUIZA ON 6,38 5,98 6,11 6,43 5,98 -5,83 BRKM5 BRASKEM PNA 11,04 10,29 10,56 11,13 10,46 -6,02 BEEF3 MINERVA ON 3,98 3,69 3,78 3,99 3,69 -7,05
Ibovespa encerra maio em queda de 7%, pior desempenho mensal em mais de três anos
Saldo do Dia: Num maio que fez jus ao ditado 'sell in May and go away', a bolsa brasileira esvaziou e foi tomada pelo receio de que o fim do ciclo de cortes na Selic está mais próximo
















