O rali do Ibovespa nos primeiros meses de 2026 perdeu força em maio e, em um mês marcado pelo aumento da aversão ao risco global e pela cautela dos investidores, embora a guerra continue sendo um importante gatilho para os mercados, as ações que lideraram as perdas na bolsa não tiveram relação direta com o conflito. Entre os papéis que mais caíram no período estão Cosan (CSAN3), Axia Energia (AXIA3; AXIA6), Magazine Luiza (MGLU3) e Vamos (VAMO3). Em comum, essas empresas enfrentaram resultados abaixo do esperado, dúvidas sobre alavancagem e pressão do cenário de juros elevados. As 10 maiores quedas do Ibovespa em Maio Class. Papel Código Variação (%) Cotação 1 MAGAZINE LUIZA ON MGLU3 -27,34 5,98 2 COSAN ON CSAN3 -24,60 3,80 3 VAMOS ON VAMO3 -22,73 3,06 4 AXIA ENERGIA PNB AXIA6 -17,07 56,93 5 SABESP ON SBSP3 -15,69 27,95 6 AXIA ENERGIA ON AXIA3 -15,50 52,43 7 MRV ON MRVE3 -15,46 5,85 8 VIVARA ON VIVA3 -15,38 21,84 9 TIM ON TIMS3 -14,95 21,90 10 RAIA DROGASIL ON RADL3 -14,81 18,69 Cosan (CSAN3) A Cosan foi uma das empresas mais penalizadas em maio. Segundo Fabiano Vaz, analista da Nord Investimentos, o desempenho negativo reflete uma combinação de fatores macroeconômicos — como inflação, juros elevados e saída de capital estrangeiro — somados às incertezas específicas da holding. Embora a holding tenha mostrado avanços em desalavancagem e reestruturação, o mercado ficou sensível aos ruídos envolvendo a reestruturação da companhia, pontua Vaz. Especulações sobre possíveis mudanças mais profundas na estrutura da holding, negadas posteriormente pelo controlador, pesaram sobre os papéis no mês. Mas não só isso: outro fator que pesou sobre os papéis foi o prejuízo bilionário divulgado no trimestre. Após a publicação do resultado, as ações chegaram a cair mais de 5% em um único pregão. Além disso, a situação da Raízen segue no radar dos investidores. Segundo Vitor Miziara, analista e sócio da Performa Ideas Mercado, a recuperação extrajudicial da companhia ainda gera incertezas. “A Cosan acaba sendo impactada por ser controladora da Raízen, que segue negociando com credores sem um acordo definitivo até o momento”, explica. Axia Energia (AXIA3; AXIA6) A Axia Energia, antiga Eletrobras, também apareceu entre as maiores quedas do mês. Apesar de ter revertido prejuízo e registrado lucro líquido de R$ 2,63 bilhões no primeiro trimestre de 2026, o mercado reagiu negativamente ao resultado. Segundo Marcos Praça, diretor de análise da ZERO Markets Brasil, o movimento teve menos relação com uma piora operacional e mais com fatores técnicos e realização de lucros. “A ação acumulava forte valorização nos últimos 12 meses. Além disso, a venda de mais de R$ 500 milhões em ações pelo BNDESPar aumentou a percepção de pressão vendedora no curto prazo”, afirma. Também pesou a atualização do balanço energético da empresa, que indicou menor exposição aos preços elevados da energia nos próximos anos. Na prática, isso reduz o potencial de receitas extraordinárias caso o cenário continue favorável para o setor. Além disso, investidores também acompanham conversão das ações preferenciais em ordinárias, tema que mexe diretamente com a dinâmica entre AXIA3 e AXIA6. Magazine Luiza (MGLU3) A Magazine Luiza voltou ao radar negativo do mercado após divulgar resultados fracos no primeiro trimestre. Segundo Caroline Sanchez, analista da Levante Inside Corp, a varejista voltou a registrar prejuízo, revertendo o lucro obtido um ano antes. As vendas totais também caíram mais de 5% na comparação anual, pressionadas principalmente pela desaceleração do e-commerce. “O mercado penalizou a ação porque o resultado reforçou a percepção de que a recuperação operacional da companhia será mais lenta do que o esperado”, afirma. Sanchez explica que a empresa tem conseguido mostrar "alguma evolução em lojas físicas e segue com posição de caixa líquido", mas o ponto central é que o varejo discricionário continua "muito sensível ao cenário macro, especialmente juros altos, crédito mais caro e consumidor seletivo". Isso pesa diretamente sobre demanda, margem e rentabilidade. “Para a ação voltar a performar melhor, o mercado provavelmente vai precisar enxergar uma retomada mais consistente de crescimento, melhora de margem e, principalmente, sinais mais claros de queda dos juros”, pontua a analista. Vamos (VAMO3) A Vamos também figurou o pódio dos tombos do índice. Para Gustavo Bertotti, chefe de renda variável da Fami Capital, o movimento reflete principalmente o impacto dos juros elevados sobre empresas cíclicase (atreladas à ciclos econômicos) e mais alavancadas (ou seja, que possuem alto endividamento com foco em investir os valores dessa dívida na própria empresa). Com a economia ainda aquecida, especialmente no mercado de trabalho e no consumo, cresce a expectativa de juros altos por mais tempo, o que afeta diretamente o caixa de empresas como a Vamos, segundo Bertotti. Soma-se a isso, assim como as outras, o desempenho trimestral. A Nord Investimentos pontua que, apesar de a empresa ter crescido a receita nos três primeiros meses do ano, houve queda no lucro. "Ainda que o modelo de negócios da Vamos se mantenha resiliente em um mercado em consolidação, a companhia ainda possui desafios para superar e avanços operacionais e financeiros para entregar. Nesse sentido, a expectativa é que a empresa continue convivendo com alavancagem elevada e rentabilidade pressionada por mais alguns trimestres", diz o relatório da Nord. Gráfico em queda — Foto: Getty Images