O índice Nasdaq encerrou maio como o grande protagonista nos mercados, com valorização de 8% no mês. Não apenas entregou quase o dobro dos outros índices de Nova York, mas abriu em relação a praticamente todas as demais classes de ativos neste mês. Não foi a carteira americana, no entanto, a que entregou o maior retorno neste mês. O Nikkei-225, principal índice da bolsa do Japão, saiu na frente com ganho de 16% no mês. Na contramão do otimismo em Wall Street, a bolsa brasileira amargou a sétima semana seguida de perdas e as negociações esvaziaram, levando à queda de 7% da carteira, no pior desempenho mensal em mais de três anos. Fortemente exposto a semicondutores e ao ciclo global de Inteligência Artificial (IA), o Nikkei bateu recordes em maio, cruzando os 65 mil pontos pela primeira vez na história neste mês. Mas ele perde para o Nasdaq porque o rali que carregou as ações japonesas nasce em Wall Street e tem entre as grandes estrelas as empresas da carteira do índice americano. O motor que garantiu um bom mês a esses índices enquanto boa parte das outras bolsas no mundo afundava é a IA. E a temporada americana de balanços do primeiro trimestre confirmou ao mercado que o ciclo de investimento em tecnologia não apenas se mantém, mas acelera. Tanto é que as bolsas americanas abriram margem, e o ritmo dos ganhos do Nasdaq acelerou, com alta de 16% no acumulado do ano. Mas o que chamou atenção neste mês foi a intensidade dos ganhos: o índice que reúne as maiores empresas de tecnologia so mundo bateu 17 recordes de fechamento e encerrou o período no novo recorde. Já o rali no Japão combinou o efeito do ciclo tech global com fatores locais, como a expectativa de continuidade do mandato reformista da primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, e o iene mais fraco, que beneficia exportadores. No acumulado do ano, o Nikkei entrega quase 32% - o melhor retorno entre todos os ativos no ranking. A surpresa com essas empresas de tencologia somada a novas perspectivas para o mercado da IA trouxe a esses mercados dois elementos que andam raros: convicção e otimismo. Assim, mesmo em meio ao choque de oferta de energia e à imprevisibilidade para a reabertura do Estreito de Ormuz, o investidor teve ao que se apegar para emergir do poço de ceticismo que tomou o mercado financeiro global. Brasil na contramão Na direção oposta, o Ibovespa anotou em março a sua pior performance mensal desde fevereiro de 2023 e coroa o mau momento para a renda variável no Brasil. O tombo representa uma reversão abrupta iniciada na segunda quinzena de abril, quando o principal índice acionário do país ainda acumulava ganho superior a 20% no ano, impulsionado pelo fluxo estrangeiro recorde na bolsa. E a razão da virada da bolsa brasileira está, em parte, ligada ao próprio sucesso de Wall Street. Com o rali de tecnologia renovando máximas históricas nos EUA, o fluxo de capital que vinha irrigando mercados emergentes fez o caminho de volta. O esfriamento dos fluxos tem relação com a atração gravitacional da Nasdaq. Só que, além do fator externo, pesaram sobre as ações locais neste mês as crescentes incertezas eleitorais, o risco fiscal persistente e um ambiente de juros ainda elevados, com a Selic em patamar restritivo. A virada explica o desempenho misto do dólar: o comercial avançou 1,83% no mês (ou seja, o real se enfraqueceu frente ao dólar em maio), embora no ano acumule queda de mais de 8%. Com a saída de fluxo da bolsa e mais agravantes no cenário local, o diferencial de juros deixa de ser um atrativo para a entrada de recursos via renda fixa no país.