Nem mesmo no pandêmico ano de 2020 a bolsa mergulhou numa sequência de perdas semanais tão extensa quanto a atual. Nesta sexta (22), o principal índice acionário do Brasil, o Ibovespa, encerrou sua sexta semana seguida no vermelho, a maior série desde maio de 2018, marcada por perdas de 11,2% desde o seu auge histórico em abril. Nesta semana, as perdas do Ibovespa se acumularam a 0,61%, e a carteira fechou o período nos 176 mil pontos. Hoje, o índice recuou 0,8% e, no mês, está com baixa de quase 6%. No acumulado do ano até aqui, a alta da carteira é de 9,36%. Havia um momento, em meados de abril, em que os 200 mil pontos do Ibovespa pareciam questão de dias. Na máxima histórica do índice, o novo marco estava a menos de 1%, e o mercado tinha muito a seu favor: fluxo estrangeiro comprando bolsa no Brasil, petróleo alto beneficiando as ações da Petrobras, diferencial de juros atraindo capital, e um afastamento ímpar dos riscos do cenário geopolítico global. Foi exatamente neste ponto que tudo desandou. Seria apenas mais um evento rotineiro de mercado financeiro, considerando que os movimentos de compra e venda testam sua força exatamente nas novas fronteiras de preços, mas algo fundamental mudou. A guinada seis semanas atrás foi tão profunda a ponto de alterar o foco dos investidores de bolsa no Brasil de "quando a carteira do Ibovespa chegará aos 200 mil?" para "em que ponto essa sangria no mercado de ações vai estancar?" Foi em meados de abril que os investidores passaram a realizar que o petróleo acima dos US$ 100 por barril era uma realidade já incontornável àquela altura e que a conta do choque de energia se movia mais rápida e gravemente pelo globo do que o estimado: o repique de inflação estava na mesa. E foi assim que o mercado como um todo começou a questionar seu horizonte para os juros nos Estados Unidos - o que afetaria necessariamente as perspectivas monetárias no resto do mundo todo. O dólar à vista encerrou a semana com perda de 0,77% contra o real. Nesta sessão, no entanto, ganhou força e subiu a R$ 5,03, alta de 0,55% hoje. No mês, está com alta de 1,54% sobre o real. No ano até aqui, cedeu 8,4% no mercado de câmbio local. A guerra entre EUA e Irã que começou no fim de fevereiro não derrubou o Ibovespa primeiro e de uma vez, e sim foi corroendo por dentro o cenário de investimentos. A deterioração do quadro macroeconômico veio de um mecanismo simples e implacável: petróleo caro demais por tempo demais. Com o Estreito de Ormuz fechado, o Brent (petróleo de referência mundial) se sustenta acima de US$ 100 por barril por meses. Esse patamar de energia cara funciona como um pedágio silencioso sobre a cadeia de insumos e logística. É uma pressão implacável que, no fim, afeta preços de todas as categorias, do Oriente ao Ocidente. O giro financeiro do Ibovespa ficou em R$ 15,2 bilhões hoje, 16% abaixo da média dos últimos 12 meses, de R$ 18,2 bilhões. Acontece que, agora, algo pode estar prestes a mudar - de novo. O que torna esta semana diferente das anteriores não é a perdas intensidade da queda do Ibovespa, mas o cansaço dos movimentos - de compra e mesmo o de venda - no mercado financeiro. E em meio ao desgaste dos fluxos nos mercados de risco, surgiu, pela primeira vez desde o início do conflito no Golfo Pérsico, um sinal concreto - não retórico - de que o Estreito de Ormuz pode começar a se abrir. O primeiro movimento de navios que o mercado registra em semanas não ficou isolado no Oriente Médio, ele veio acompanhado ontem da notícia mais esperada dos últimos três meses: ontem, os EUA e o Irã anunciaram que haviam desenhado um rascunho de acordo preliminar prevendo cessar-fogo e garantias de navegação no Estreito de Ormuz Só que a reação nas bolsas ainda foi contida. Em março, um anúncio como esse teria valido 3% de alta num único pregão. Esta semana, valeu apenas a contenção das perdas dos índices acionários. Três meses pós muito vaivém nessas negociações, o investidor aprendeu a não comprar promessa sem entrega - afinal, já foram muitas até aqui. Junto com o cansaço geopolítico, algumas teses se consolidaram ao longo da semana, o que por que a bolsa não encontrou chão mesmo nos dias em que o acordo parecia próximo. O primeiro e mais importante no contexto brasileiro é a inversão de fluxo do capital estrangeiro em maio, o que murchou a liquidez do mercado de ações local. O saldo de investimentos dos gringos no mercado à vista de ações, que chegou a R$ 56,5 bilhões em entrada líquida neste ano, cedeu a R$ 44,8 bilhões após a debandada de R$ 11,7 bilhões apenas em maio. Mas esse dinheiro não foi embora sem destino. Ele encontrou um refúgio nas ações ligadas a teses de inteligência artificial, que puxa capital de volta para os EUA e para emergentes asiáticos como Taiwan e Coreia do Sul. E a tese de que o Brasil seria um dos grandes beneficiários da demanda por commodities e ativos reais perdeu força enquanto o setor de tecnologia se provou nessa temporada de resultados do primeiro trimestre. A segunda tese - e central para todas as movimentações de mercado globalmente - é a revisão permanente dos juros. No Brasil, o Boletim Focus desta semana registrou a décima semana consecutiva de alta nas expectativas de inflação para 2026. A XP elevou sua projeção para a Selic ao final do ano de 13,5% para 13,75%. Com o choque de energia ainda presente, a convicção de que os juros podem continuar cedendo em meio ao repique da inflação está mais distante, por isso agora o mercado precifica o encerramento do ano com a Selic em 13,25% - muito acima dos 12% que se esperava antes da guerra. E cada revisão para cima comprime os múltiplos das ações e torna a renda fixa mais competitiva por mais tempo. A taxa de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 saiu de 14,04% para 14,08% ao ano. Prêmios em contratos de curto prazo estão mais ligados às expectativas dos investidores para a Selic.No médio prazo, os retornos da taxa para janeiro de 2031 oscilaram de 14,01% para 13,97% ao ano.Já para janeiro de 2036, a taxa oscilou de 14,12% para 14,05% ao ano. Vencimentos com prazos mais longos refletem uma maior preocupação com calote do governo. À beira da virada O sentimento de fuga do risco que domina os mercados no mundo todo pode mudar se a fila de navios atravessando Ormuz crescer na semana que vem. Até porque agora há uma base de comparação - seis semanas de decepção que calibraram o ceticismo - e qualquer dado concreto de reabertura do estreito vai encontrar um investidor menos vendido em narrativa e mais disposto a acreditar no que consegue verificar. Mas a eventual guinada prometida para os próximos dias - caso o cessar-fogo se concretize - tem uma armadilha embutida que a sexta-feira já começou a revelar: o efeito paradoxal de um acordo de paz sobre a bolsa brasileira. Das 79 ações que compõem o Ibovespa atualmente, 61 desvalorizaram hoje. Na semana, 48 ações ficaram no vermelho. Isso porque, por um lado, o Ibovespa como índice tenderia a reagir bem, com redução do prêmio de risco global e abertura de espaço para cortes mais agressivos da Selic. Por outro, as ações que mais se beneficiaram do choque de petróleo (caso das petroleiras) perderiam o prêmio que vinham capturando com o Brent acima de US$ 100. Quer dizer, quem ganhou enquanto o petróleo subia vai ceder e pode buscar outros ativos localmente ou se debandar para outros mercados. Já quem sofreu com os juros altos e o risco de inflação, nomeadamente as ações de bancos, o varejo e outros setores cíclicos domésticos, tende a se recuperar. O problema é que Petrobras sozinha responde por quase 13% do Ibovespa, então quando os papéis dela caem, mesmo que o resto suba, o índice pode acabar andando de lado ou até cair na contramão do clima no mercado. É mais ou menos isso que aconteceu nesta sexta, sessão que refletiu as contradições que o investidor vai ter que navegar nas próximas semanas, com um mercado que pode subir por dentro enquanto o índice hesita dependendo de qual rotação do capital se acelera, para onde ele vai e com qual velocidade. O Estreito de Ormuz é a chave para destravar os mercados, Não Trump, não o acordo no papel, não a declaração de algum alto funcionário iraniano, mas os navios passando - e, com eles, o cenário para uma mudança de cenário mais duradoura. Comportamento das ações do Ibovespa em 22/5/2026 Código Nome Abertura Mínima Média Máxima Fechamento Var. % CSNA3 SID NACIONAL ON 6,31 6,26 6,53 6,74 6,73 6,15 USIM5 USIMINAS PNA 9,80 9,75 10,20 10,48 10,35 5,61 AZZA3 AZZAS 2154 ON 19,90 19,73 20,78 21,17 20,72 3,86 CSMG3 COPASA ON 50,85 50,65 52,09 52,43 52,29 2,25 GGBR4 GERDAU PN 23,42 23,34 23,78 24,01 24,01 2,17 EMBJ3 EMBRAER ON 70,80 70,41 72,26 73,51 72,33 2,15 LREN3 LOJAS RENNER ON 14,68 14,66 15,08 15,35 15,07 1,48 GOAU4 GERDAU MET PN 10,22 10,19 10,37 10,47 10,42 1,36 CMIN3 CSN MINERACAO ON 4,40 4,34 4,42 4,51 4,48 1,13 TAEE11 TAESA UNIT 38,61 38,20 38,63 38,95 38,73 0,81 RECV3 PETRORECSA ON 12,19 12,07 12,25 12,35 12,31 0,74 WEGE3 WEG ON 42,14 42,05 42,79 43,27 42,73 0,61 PRIO3 PETRORIO ON 68,01 67,27 68,18 68,75 68,40 0,59 BBAS3 BRASIL ON 20,83 20,60 20,82 20,97 20,94 0,58 VALE3 VALE ON 82,33 81,85 82,67 83,14 83,10 0,57 BRAP4 BRADESPAR PN 22,90 22,85 23,09 23,24 23,17 0,39 CEAB3 CEA MODAS ON 11,14 11,06 11,30 11,51 11,19 0,18 FLRY3 FLEURY ON 15,50 15,42 15,60 15,74 15,69 0,00 EGIE3 ENGIE BRASIL ON 32,29 31,96 32,25 32,55 32,31 -0,09 KLBN11 KLABIN S/A UNT 16,51 16,31 16,43 16,55 16,46 -0,30 PETR3 PETROBRAS ON 49,82 49,11 49,78 50,15 50,15 -0,30 ASAI3 ASSAI ON 8,45 8,30 8,42 8,52 8,44 -0,47 BRKM5 BRASKEM PNA 11,90 11,83 11,98 12,22 11,97 -0,50 SBSP3 SABESP ON 28,30 27,97 28,33 28,54 28,46 -0,56 HYPE3 HYPERA ON 22,56 22,29 22,52 22,88 22,56 -0,57 VIVA3 VIVARA ON 22,23 21,90 22,19 22,51 22,19 -0,58 PSSA3 PORTO SEGURO ON 49,04 48,46 49,04 49,44 49,17 -0,59 TIMS3 TIM ON 22,56 22,33 22,48 22,67 22,50 -0,66 ISAE4 ISA ENERGIA PN 28,17 27,90 28,16 28,35 28,20 -0,74 BBSE3 BB SEGURIDADE ON 34,70 34,21 34,43 34,86 34,47 -0,78 BPAC11 BTGP BANCO UNT 54,47 53,27 53,79 54,47 53,93 -0,81 POMO4 MARCOPOLO PN 5,98 5,87 5,94 6,00 5,93 -0,84 CPFE3 CPFL ENERGIA ON 43,30 43,04 43,37 43,68 43,31 -0,89 ITSA4 ITAUSA PN 12,95 12,73 12,84 13,01 12,87 -0,92 BBDC3 BRADESCO ON 15,45 15,31 15,40 15,53 15,42 -0,96 NATU3 NATURA ON 10,06 9,97 10,07 10,15 10,10 -0,98 PETR4 PETROBRAS PN 44,74 43,87 44,30 44,75 44,48 -1,05 CPLE3 COPEL ON 14,82 14,64 14,75 14,86 14,73 -1,14 ENGI11 ENERGISA UNT 47,85 47,71 48,10 48,67 47,91 -1,20 CMIG4 CEMIG PN 11,32 11,09 11,21 11,32 11,22 -1,23 EQTL3 EQUATORIAL ON 37,77 37,00 37,44 38,20 37,67 -1,23 AXIA3 AXIA ENERGIA ON 54,07 53,12 53,88 54,55 54,00 -1,24 SUZB3 SUZANO S.A. ON 41,83 41,45 41,80 42,08 41,70 -1,33 VIVT3 TELEF BRASIL ON 35,05 34,42 34,85 35,21 34,81 -1,36 AURE3 AUREN ON 12,41 12,33 12,46 12,57 12,45 -1,50 RDOR3 REDE D OR ON 34,21 33,53 33,94 34,47 34,07 -1,50 AXIA6 AXIA ENERGIA PNB 59,39 58,35 59,09 59,65 59,28 -1,51 UGPA3 ULTRAPAR ON 29,03 28,44 28,75 29,27 28,70 -1,54 BBDC4 BRADESCO PN 17,80 17,60 17,69 17,93 17,62 -1,56 RENT3 LOCALIZA ON 43,52 42,71 43,34 44,05 43,35 -1,57 CXSE3 CAIXA SEGURI ON 17,74 17,31 17,46 17,74 17,48 -1,63 YDUQ3 YDUQS PART ON 9,60 9,41 9,54 9,72 9,57 -1,64 ITUB4 ITAU UNIBANCO PN 40,01 39,31 39,57 40,04 39,43 -1,72 MULT3 MULTIPLAN ON 30,10 29,35 29,63 30,17 29,60 -1,76 SANB11 SANTANDER BR UNIT 27,31 26,98 27,13 27,47 27,10 -1,78 ABEV3 AMBEV S/A ON 16,20 16,09 16,16 16,30 16,10 -1,83 BRAV3 BRAVA ON 20,01 19,48 19,77 20,18 19,78 -1,84 VBBR3 VIBRA ON 33,03 32,37 32,72 33,29 32,75 -1,98 MGLU3 MAGAZINE LUIZA ON 6,70 6,61 6,70 6,88 6,63 -2,07 ALOS3 ALLOS ON 28,50 27,92 28,08 28,71 28,12 -2,09 B3SA3 B3 ON 17,00 16,56 16,72 17,04 16,66 -2,12 CURY3 CURY S/A ON 31,09 30,34 30,71 31,45 30,53 -2,15 ENEV3 ENEVA ON 25,14 24,84 25,04 25,40 24,96 -2,19 DIRR3 DIRECIONAL ON 13,15 12,71 12,87 13,16 12,82 -2,29 IGTI11 IGUATEMI S.A UNT 26,34 25,81 26,03 26,36 25,90 -2,30 HAPV3 HAPVIDA ON 12,46 11,71 12,06 12,64 12,05 -2,35 COGN3 COGNA ON 2,50 2,44 2,47 2,53 2,45 -2,39 TOTS3 TOTVS ON 31,91 31,49 31,87 32,80 31,49 -2,42 RADL3 RAIA DROGASIL ON 18,42 18,06 18,24 18,51 18,19 -2,47 CSAN3 COSAN ON 4,30 4,24 4,29 4,39 4,29 -2,50 SLCE3 SLC AGRICOLA ON 16,40 15,87 16,10 16,41 16,07 -2,61 SMFT3 SMART FIT ON 19,36 18,95 19,18 19,65 18,95 -2,82 RAIL3 RUMO S.A. ON 14,60 14,07 14,34 14,61 14,21 -3,14 MRVE3 MRV ON 6,23 5,99 6,06 6,23 6,03 -3,21 MOTV3 MOTIVA SA ON NM 14,80 14,42 14,60 14,98 14,50 -3,33 VAMO3 VAMOS ON 3,35 3,25 3,28 3,37 3,25 -3,56 CYRE3 CYRELA REALT ON 21,88 21,05 21,33 21,97 21,25 -3,93 MBRF3 MARFRIG ON 17,14 16,60 16,71 17,14 16,60 -4,05 BEEF3 MINERVA ON 4,03 3,77 3,83 4,03 3,78 -6,20