Depois de 11 semanas monotemáticas com o vaivém dos ataques e negociações entre Estados Unidos e Irã, o disco mudou. Ao menos para o mercado brasileiro, que topou com um inimigo doméstico nesta semana. O furacão político que sequestrou o noticiário financeiro local nos últimos três dias aprofundou uma tendência de queda que vinha se consolidando na bolsa desde meados de abril, mas ganhou corpo - rostos e nomes - nesta semana. Sob a tempestade de más notícias que fechou o tempo no horizonte econômico - local e global - e sem respiro à vista, o Ibovespa encerra sua pior semana desde a primeira sob a guerra no Golfo Pérsico e mergulha numa espiral de perdas no curto prazo. O Ibovespa encerra esta semana em queda de 3,7%, aos 177 mil pontos, no seu pior desempenho desde a primeira semana de março. Na sessão desta sexta-feira (15), o índice registrou 0,6% de perda e, no mês, está com baixa de 2,33%. No ano até aqui, a carteira acumula alta de 10%. O mercado se despediu de vez da monotonia anterior e foi para o outro extremo, enfrentando três narrativas distintas que se somaram com o passar dos dias. A tendência de baixa do Ibovespa no curto prazo, hoje presente na maioria das análises técnicas para o índice, começou a se formar com a evolução da percepção de que o ciclo de cortes da Selic pode ser mais curto do que o esperado. Porém foi o choque político na quarta-feira que ficou conhecida como "Flávio Day 2.0" que coroou a mudança: diante das perspectivas de inflação mais alta e o possível adeus a uma reforma fiscal mais rigorosa de 2027 em diante, o Banco Central (BC) do Brasil tomará a próxima decisão sobre a Selic num ambiente mais tenso, de pressões econômicas que se acumulam. Para fechar a semana, investidores enfrentaram a ressaca diplomática das tensões entre EUA e Irã acompanhando uma cúpula morna entre a comitiva americana de Donald Trump e Xi Jinping em Pequim. Apesar do acordo sobre a necessária reabertura do Estreito de Ormuz e impossibilidade de o Irã ter poder nuclear, nada de efetivo saiu do encontro. Assim, a cúpula que - até aqui - prometeu mais do que entregou, pouco fez para conter a escalada das pressões sobre o petróleo. O giro financeiro do Ibovespa ficou em R$ 22,8 bilhões hoje, 22% acima da média dos últimos 12 meses, de R$ 18,2 bilhões. "O pregão desta sexta-feira consolida um cenário de forte aversão ao risco (risk-off), com uma reprecificação agressiva de ativos globais frente à resiliência da inflação e tensões geopolíticas persistentes. Esse movimento está intimamente ligado à geopolítica, com novas acusações de Teerã e Washington sobre os lados envolvidos na guerra não estarem dispostos a entrar em consenso. O conflito, que mantém o petróleo Brent acima de US$ 108, retroalimenta o choque de oferta e a pressão inflacionária, e o mercado agora trabalha com a tese de juros elevados por muito mais tempo", diz Paula Zogbi, estrategista-chefe da Nomad. Cinco semanas de perdas do Ibovespa É assim que a semana entrega o desfecho para o movimento que vinha se desenhando desde meados de abril, quando o Ibovespa bateu o recorde histórico nos 198 mil pontos (e permitiu aos investidores sonharem com os 200 mil pontos). Havia dúvidas sobre um movimento de correção dos preços que poderia ser seguido pelo fôlego renovado na bolsa, que jogaria o Ibovespa para os 200 mil pontos, ou se as bolsas estavam apenas refletindo tardiamente a crise (tantas vezes) anunciada. E parece que o segundo cenário está solidificado, já que, em cinco semanas seguidas de perdas, o Ibovespa veio devolvendo todos os ganhos acumulados no último período, sem sinais de conseguir recobrar - tão cedo - o impulso de outrora. Mesmo porque a quarta-feira, marcada pela publicação pelo Intercept Brasil do escândalo que vinculou Flávio Bolsonaro (PL) ao banqueiro Daniel Vorcaro, deu o golpe final no moral do mercado financeiro. Antes, grandes investidores locais ainda se fiavam no pré-candidato de oposição mais forte ao Planalto para projetar uma guinada do governo federal a uma agenda econômica mais alinhada com seus interesses e crenças. A associação do pré-candidato à presidência pelo PL Flávio Bolsonaro a Vorcaro - dono do Banco Master, preso desde novembro de 2025 pelo rombo de R$ 47 bilhões ao Fundo Garantidor de Créditos - trouxe mais convicções ao cenário eleitoral, porém sob um gosto amargo. E diante da menor probabilidade de eleger alguém do centro ou da direita no Brasil, o mercado acionou o modo de fuga do risco. Na toada dessa espiral de perdas movida pela política doméstica, o real amargou o seu pior desempenho semanal desde novembro de 2022. O dólar à vista ficou 3,54% mais caro em relação ao real na semana, que encerrou cotado a R$ 5,07. Hoje, a alta foi de 1,63% e, no mês, subiu 2,33% frente o real. No ano até aqui, cedeu 7,7% no mercado de câmbio local. Desde o fim de 2025, gestores e analistas vinham apostando que a eleição de outubro poderia entregar um governo de oposição comprometido com ajuste fiscal mais rigoroso do que o que o governo atual, de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), não entregou - ao menos não à altura que investidores esperavam. Pacificados os ânimos em torno do nome de Flávio Bolsonaro (PL) como o principal candidato de oposição à Lula, o senador e pré-candidato à presidência vinha ganhado espaço nas pesquisas eleitorais e encarnou essa aposta da Faria Lima. O escândalo do Banco Master o atingiu nesse momento de ascensão nas pesquisas, e aliados da direita têm admitido pelos corredores que o episódio desta semana "praticamente enterrou" o apoio que o pré-candidato pelo PL vinha angariando com políticos do centro e da direira. Essa fragmentação da direita, contida pela força da candidatura do 01 da prole Bolsonaro, voltou à superfície. E gestores e empresários que apoiavam a mudança no Planalto passaram a ter menos convicção no ajuste fiscal - que consideram necessário e inevitável. Por isso, as taxas nos contratos futuros de juros subiram tanto nos vencimentos mais curtos, que mostram a pressão sobre a Selic, como nos vencimentos mais distantes, que refletem a escalada da sensação de risco de crédito do país. A taxa de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 saiu de 14,18% para 14,23% ao ano. Prêmios em contratos de curto prazo estão mais ligados às expectativas dos investidores para a Selic.No médio prazo, os retornos da taxa para janeiro de 2031 oscilaram de 14,06% para 14,25% ao ano.Já para janeiro de 2036, a taxa oscilou de 14,10% para 14,26% ao ano. Vencimentos com prazos mais longos refletem uma maior preocupação com calote do governo. A tendência de perdas na bolsa No campo técnico, o Ibovespa avança sobre um campo desconhecido, esburacado e nebuloso. Das 79 ações que compõem o Ibovespa atualmente, 65 desvalorizaram hoje. Na semana, 70 (ou seja, 89% da carteira) ficaram no vermelho. No relatório de análise gráfica do Itaú BBA, o analista Lucas Piza aponta que "o Ibovespa segue sem tendência definida no curto prazo e negocia próximo ao nível de 175 mil pontos, considerado um suporte forte. A perda desse patamar abriria espaço para uma tendência de baixa, com alvos nos suportes em 163.500 e 159.300 pontos." Em outras palavras, a menos que algo mude em termos de fundamentos, o índice ainda poderia cair outros 8% antes de estancar essa sangia. Na Genial, a tendência de baixa no curto prazo já está consolidada, com o índice mantendo "uma estrutura técnica claramente baixista no gráfico diário, marcada por uma sequência consistente de topos e fundos descendentes após a forte rejeição na região dos 199 mil pontos. O fechamento abaixo da abertura do range anterior reforça a dominância do fluxo vendedor e sustenta o viés negativo no curto e médio prazo", escreve o analista Samuel Ferreira. Olívia Flôres de Brás, CEO da Magno Investimentos, acompanha a leitura de que a trajetória baixista do Ibovespa está dada no curto prazo. "No fundo, a grande batalha desta semana não está nos 178 mil pontos. Está nos 180 mil. Porque romper essa faixa com volume significaria admitir que o mercado talvez tenha exagerado no pessimismo. Não romper significa que o rali pode ter sido apenas mais um bull trap cuidadosamente embalado para capturar compradores ansiosos", diz. Comportamento das ações do Ibovespa em 15/5/2026 Código Nome Abertura Mínima Média Máxima Fechamento Var. % BEEF3 MINERVA ON 4,03 4,01 4,26 4,46 4,40 7,58 BRAV3 BRAVA ON 18,22 18,07 18,55 18,77 18,69 2,75 PRIO3 PETRORIO ON 67,85 67,35 68,08 68,99 68,80 2,24 PETR3 PETROBRAS ON 49,93 49,45 50,12 50,51 50,45 2,17 NATU3 NATURA ON 9,63 9,63 9,87 10,03 9,94 1,53 RECV3 PETRORECSA ON 12,02 11,93 12,13 12,27 12,16 1,08 AZZA3 AZZAS 2154 ON 18,50 18,46 19,00 19,40 19,05 1,06 PETR4 PETROBRAS PN 45,39 44,98 45,37 45,54 45,47 1,04 VALE3 VALE ON 80,65 80,24 82,17 83,50 83,50 0,76 BRAP4 BRADESPAR PN 22,12 21,90 22,51 23,05 22,99 0,61 BRKM5 BRASKEM PNA 12,01 11,51 12,08 12,48 12,21 0,49 RDOR3 REDE D OR ON 34,13 33,91 34,64 35,03 34,84 0,26 EGIE3 ENGIE BRASIL ON 32,09 31,93 32,53 32,88 32,57 0,22 MBRF3 MARFRIG ON 17,46 17,14 17,43 17,87 17,42 0,00 CMIG4 CEMIG PN 11,18 11,13 11,25 11,37 11,27 -0,09 CYRE3 CYRELA REALT ON 20,89 20,20 21,28 21,95 21,84 -0,18 VIVT3 TELEF BRASIL ON 35,22 35,01 35,54 36,02 35,52 -0,20 RADL3 RAIA DROGASIL ON 19,24 19,21 19,65 20,00 19,59 -0,25 VIVA3 VIVARA ON 22,77 22,54 22,90 23,18 22,94 -0,26 BBAS3 BRASIL ON 20,55 20,30 20,57 20,72 20,70 -0,29 MOTV3 MOTIVA SA ON NM 14,43 14,33 14,68 14,80 14,71 -0,34 ALOS3 ALLOS ON 28,55 28,11 28,57 28,83 28,74 -0,45 IGTI11 IGUATEMI S.A UNT 25,72 25,72 26,22 26,40 26,40 -0,45 AURE3 AUREN ON 12,49 12,27 12,52 12,65 12,65 -0,47 ABEV3 AMBEV S/A ON 15,67 15,50 15,72 15,89 15,69 -0,51 SMFT3 SMART FIT ON 18,30 18,30 18,67 18,80 18,71 -0,53 CEAB3 CEA MODAS ON 10,65 10,64 10,90 11,07 10,99 -0,54 CPLE3 COPEL ON 14,60 14,59 14,78 14,90 14,85 -0,54 EQTL3 EQUATORIAL ON 38,42 37,93 38,48 38,78 38,59 -0,54 CURY3 CURY S/A ON 29,94 29,89 30,18 31,12 30,37 -0,75 SANB11 SANTANDER BR UNIT 26,98 26,76 26,90 27,04 26,92 -0,81 VBBR3 VIBRA ON 32,85 32,73 33,14 33,32 33,12 -0,81 TAEE11 TAESA UNIT 38,40 37,92 38,28 38,56 38,29 -0,83 BBDC4 BRADESCO PN 17,53 17,47 17,62 17,74 17,69 -0,84 CXSE3 CAIXA SEGURI ON 17,51 17,32 17,42 17,63 17,39 -0,86 SLCE3 SLC AGRICOLA ON 17,09 16,87 17,20 17,62 17,19 -0,87 POMO4 MARCOPOLO PN 6,04 5,96 6,03 6,08 6,05 -0,98 GGBR4 GERDAU PN 22,91 22,72 23,19 23,54 23,34 -1,02 BBSE3 BB SEGURIDADE ON 34,40 34,08 34,23 34,50 34,12 -1,04 ASAI3 ASSAI ON 8,37 8,33 8,52 8,66 8,50 -1,05 CSMG3 COPASA ON 51,47 50,79 51,48 51,94 51,70 -1,05 CMIN3 CSN MINERACAO ON 4,70 4,59 4,68 4,75 4,72 -1,05 GOAU4 GERDAU MET PN 9,98 9,87 10,03 10,20 10,16 -1,07 AXIA6 AXIA ENERGIA PNB 60,10 59,24 59,90 60,33 60,17 -1,13 BBDC3 BRADESCO ON 15,33 15,19 15,29 15,36 15,36 -1,16 ISAE4 ISA ENERGIA PN 28,50 28,17 28,38 28,61 28,54 -1,21 AXIA3 AXIA ENERGIA ON 54,16 53,92 54,59 54,94 54,67 -1,23 LREN3 LOJAS RENNER ON 13,42 13,35 13,53 13,68 13,55 -1,24 ENGI11 ENERGISA UNT 48,51 47,98 48,40 48,76 48,46 -1,26 WEGE3 WEG ON 43,13 42,83 43,18 43,50 43,13 -1,35 B3SA3 B3 ON 16,53 16,45 16,68 16,84 16,70 -1,36 MULT3 MULTIPLAN ON 29,13 28,91 29,47 29,79 29,47 -1,41 UGPA3 ULTRAPAR ON 29,22 28,58 28,98 29,22 29,13 -1,42 HYPE3 HYPERA ON 23,10 22,75 23,08 23,32 23,03 -1,45 TOTS3 TOTVS ON 31,00 30,55 31,30 31,91 31,14 -1,46 CPFE3 CPFL ENERGIA ON 43,65 43,65 44,67 45,13 44,52 -1,53 ITSA4 ITAUSA PN 12,99 12,92 12,97 13,05 12,96 -1,59 PSSA3 PORTO SEGURO ON 48,29 47,82 48,04 48,44 47,92 -1,60 BPAC11 BTGP BANCO UNT 54,59 53,95 54,45 54,84 54,50 -1,61 SBSP3 SABESP ON 28,98 28,70 29,02 29,24 29,03 -1,66 ITUB4 ITAU UNIBANCO PN 39,78 39,58 39,75 40,05 39,70 -1,73 MGLU3 MAGAZINE LUIZA ON 6,82 6,60 6,72 6,84 6,79 -1,74 EMBJ3 EMBRAER ON 71,16 70,90 71,48 72,77 71,25 -1,76 TIMS3 TIM ON 22,33 22,19 22,32 22,51 22,19 -1,81 YDUQ3 YDUQS PART ON 9,49 9,34 9,56 9,82 9,56 -1,85 RAIL3 RUMO S.A. ON 15,00 14,80 14,99 15,22 14,97 -1,96 SUZB3 SUZANO S.A. ON 42,27 41,70 42,09 43,00 41,70 -2,16 RENT3 LOCALIZA ON 42,19 42,01 42,80 43,18 42,98 -2,18 FLRY3 FLEURY ON 15,80 15,46 15,60 15,80 15,60 -2,26 VAMO3 VAMOS ON 3,40 3,34 3,40 3,46 3,41 -2,29 KLBN11 KLABIN S/A UNT 16,81 16,42 16,57 16,93 16,43 -2,55 COGN3 COGNA ON 2,51 2,49 2,54 2,60 2,54 -2,68 MRVE3 MRV ON 6,24 6,18 6,26 6,36 6,22 -3,27 ENEV3 ENEVA ON 25,47 24,95 25,23 25,57 25,06 -3,43 DIRR3 DIRECIONAL ON 13,13 12,92 13,06 13,24 12,98 -3,57 CSNA3 SID NACIONAL ON 6,50 6,22 6,32 6,50 6,42 -3,75 CSAN3 COSAN ON 4,55 4,21 4,37 4,55 4,41 -5,16 HAPV3 HAPVIDA ON 12,95 12,36 12,61 13,15 12,45 -6,11 USIM5 USIMINAS PNA 9,68 9,04 9,27 9,75 9,12 -7,79