O real se desvalorizou 3,6% desde o seu ponto recente mais valorizado em 11/5, quando fechou em R$ 4,891 reais por dólar. Hoje, quando esta coluna estava sendo escrita, a cotação era de R$ 5,073. A desvalorização mais expressiva acontece justamente hoje: o câmbio fechou a R$ 4,986 ontem, o que significa um recuo de 1,7% do real nas negociações desta sexta-feira.PUBLICIDADEA valorização do real ao longo deste ano - o câmbio fechou 2025 a R$ 5,489 - tem sido um fator favorável ao governo, tanto do ponto de vista econômico como político. No primeiro caso, compensando em parte o choque de oferta do petróleo, o que ajuda o Banco Central no atual ciclo de cortes da Selic - e a flexibilização monetária, por sua vez, mitiga um dos maiores incômodos da população - o alto grau de endividamento -, o que tem um efeito político favorável.Assim, seria bom para o governo que a recente desvalorização do real não passasse de uma flutuação passageira, e a moeda permanecesse no nível ainda apreciado em que vem se mantendo.Projetar a taxa de câmbio é sabidamente uma das tarefas mais inglórias para economistas e analistas do mercado financeiro, e, portanto, qualquer ilação sobre o que vai ocorrer com o real daqui até as eleições é um exercício fútil. Por outro lado, entender o que ocorreu com o câmbio olhando para trás é mais factível, e, no caso, o real sofreu nos últimos dias uma combinação de impulsos externo e doméstico na mesma direção da depreciação.No Brasil, o escândalo envolvendo Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro aumentou significativamente, na percepção do mercado, as chances de que Lula seja vitorioso nas eleições deste ano. A Faria Lima se mantém muito cética sobre a possibilidade de o atual presidente atacar de fato a questão fiscal em 2027 caso seja reeleito, e vê a situação estrutural das contas públicas como insustentável.PublicidadeNo plano externo, o dólar se valorizou nos últimos dias em relação às moedas em geral, com fica claro na alta do DXY, o índice do dólar contra uma cesta de moedas relevantes, que saiu de 97,0 em 7/5 para 99,3 hoje.Como explica um gestor de recursos, o comportamento do dólar mudou com a política econômica populista de Donald Trump, perdendo parte da sua característica de porto seguro para onde fluem os capitais quando há percepção de aumento de risco no mundo.A questão agora é que o risco envolve a alta da inflação americana, com a consequente elevação dos juros nos Estados Unidos, o que atrai capitais. Os juros dos títulos de dez anos do Tesouro americano saíram de um patamar ligeiramente abaixo de 4% em março para 4,58% hoje.Ainda assim, nota o analista, quando se toma o período desde o início do ano, a rentabilidade dos Treasuries de dez anos subiu fortemente (com oscilações), enquanto o DXY até alguns dias atrás ainda apresentava queda no mesmo período.Assim, a incerteza parece dominar o comportamento internacional do dólar. O governo brasileiro ainda tem chance de contar com um real valorizado para enfrentar a eleição deste ano, mas não deveria considerar que esse trunfo está 100% garantido.PublicidadeFernando Dantas é colunista do Broadcast e escreve às terças, quartas e sextas-feiras (fojdantas@gmail.com)Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 15/5/2026, sexta-feira.
Opinião | Real recua com fatores externos e internos
Real recua 3,6% após pico, pressionado por juros nos EUA e cenário político interno. Incertezas eleitorais e sobre forças que movem o dólar globalmente colocam um ponto de interrogação sobre continuidade do real apreciado, trunfo do governo em ano eleitoral.










