Com o petróleo tipo Brent retomando a faixa dos US$ 110 o barril e sem perspectivas de um acordo entre Estados Unidos e Irã que possa liberar o tráfego de navios no Estreito de Ormuz, o dia foi de estresse nos mercados globais, comportamento que se refletiu nas curvas de juros ao redor do mundo. Nesse contexto, os riscos políticos locais, após o episódio envolvendo Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, nesta semana, mantiveram os investidores domésticos na defensiva, o que ampliou ainda mais a dinâmica de piora das taxas brasileiras, que voltaram aos níveis máximos do ano na parcela longa da curva. No encerramento da sessão, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 passou de 14,18% do ajuste anterior para 14,235%; a do DI para janeiro de 2028 subiu de 13,98% para 14,135%; a do DI para janeiro de 2029 avançou de 13,975% para 14,165% e a taxa do DI para janeiro de 2031 disparou de 14,055% para 14,25%. Desde quarta-feira, a cautela dos agentes domésticos cresceu de forma importante após a revelação de áudios que ligam o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) a Daniel Vorcaro, do Banco Master. A leitura atual é que o episódio diminuiu consideravelmente as chances de vitória da oposição nas eleições presidenciais e, por consequência, de mudança na direção da política econômica após 2027. Mas o humor dos mercados globais vem se mostrando decisivo para a direção dos preços domésticos. Ontem, por exemplo, apesar da cautela do mercado brasileiro, o dia mais positivo no exterior permitiu uma retirada de parte dos prêmios embutidos nos ativos após a revelação dos áudios de Flávio Bolsonaro. Hoje, no entanto, o cenário foi o oposto. O dia foi marcado por ampla cautela ao redor do mundo, com as taxas dos Treasuries de 10 anos saltando mais de 10 pontos-base e os juros dos gilts de mesmo vencimento avançando 20 pontos. Nos EUA, o rendimento da T-note de 10 anos disparou de 4,489% para 4,596% enquanto, no Reino Unido, o juro do gilt escalou de 4,494% para 5,187%. Entre participantes do mercado, há convicção de que o comportamento dos ativos esteve muito mais ligado ao cenário externo do que ao carregado noticiário local. “Hoje pareceu mais um cenário externo muito ruim. Após as notícias da semana, fica difícil de segurar”, aponta um gestor de uma importante asset local. Na visão de um profissional da área econômica de uma importante instituição americana, os estrangeiros parecem dar menos atenção ao noticiário político doméstico, especialmente diante dos juros reais elevados encontrados no Brasil e do carrego elevado da moeda. “É mais um movimento de ‘beta’ global mesmo, com pouca atenção para os fundamentos econômicos”, avalia. Segundo a diretora de macroeconomia para Brasil do UBS Global Wealth Management, Solange Srour, o ambiente de juros elevados ao redor do mundo eleva as incertezas para a condução da política monetária. “Para os bancos centrais, o dilema é agir cedo demais e comprimir economias já pressionadas pelo choque de energia, ou esperar e arriscar uma desancoragem de expectativas, repetindo o erro de 2022. Os diferenciais existem: mercados de trabalho com mais folga, demanda já comprimida, taxas longe do território acomodatício. Mas têm prazo de validade. O mercado de swaps já precifica alta de juros nos EUA antes do final de 2026", nota. Para o Brasil, aponta, os juros longos elevados globalmente estreitam o espaço para a política monetária doméstica. “Um choque de commodities prolongado torna a ancoragem das expectativas de inflação ainda mais dependente da credibilidade fiscal, que já enfrenta pressões conhecidas. O conflito no Oriente Médio não tem prazo de resolução à vista. Os mercados estão começando a cobrar um prêmio de risco que estava ausente", conclui. — Foto: Gerd Altmann/Pixabay
Juros futuros têm alta forte com exterior ruim e ambiente local carregado
Após o episódio envolvendo Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, os investidores domésticos ficaram na defensiva, levando as taxas brasileiras aos níveis máximos do ano na parcela longa da curva













