O efeito do áudio entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro - espécie de Flávio Day 2.0 - deu o tom da volatilidade que deve estar por vir até as eleições de outubro. À sombra da aparente intimidade entre o senador presidenciável e o dono do banco Master, atualmente preso, o mercado tremeu sob polarização semelhante à da esfera política. Em um dos cenários esperados pelos negociantes, Flávio ou qualquer adversário derrotará o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ou não. E, se não, a média dos negociantes terá de lidar por mais quatro anos com uma política econômica que não lhe agrada. Ok. E você com isso, não é mesmo? Investe como na bolsa, a depender desses dois cenários? Entre a possibilidade de mudança ou continuidade da atual política econômica há uma diferença nada desprezível, segundo o Morgan Stanley. Em relatório, os analistas do banco afirmam que, no primeiro caso (o Lula não se reeleger), o rali seria tão intenso a ponto do Ibovespa ultrapassar os 240 mil pontos. No outro extremo (de haver reeleição), o índice cairia abaixo dos 95 mil pontos. A recessão seria “resultado de um forte impulso fiscal ao longo de 2026 e da continuidade da política que mantém a incerteza fiscal elevada”, com impacto na geração de caixa das empresas a partir do final do ano. Apesar da amplitude dos resultados, o relatório afirma que há uma “assimetria entre risco e retorno” e vê mais chances de alta do que de queda. Até porque, no cenário neutro o Ibovespa chegaria aos 200 mil pontos até o final do ano. Parte do mercado acompanhava a tese de um rali eleitoral com base numa maior competitividade da oposição, principalmente na figura do Flávio Bolsonaro, afirma Matheus Spiess, estrategista da Empiricus. "A gente falava em dezembro que Flávio Bolsonaro tinha um telhado de vidro e eventual sensibilidade ao noticiário. Como ele veio muito bem nas últimas pesquisas, ninguém questionou mais. Entretanto, vemos que esse tipo de sensibilidade vai ocorrer, e estamos só no começo da janela eleitoral", diz. O problema é que não há carteira única para os dois cenários: Lula ou Flávio Bolsonaro como presidente. Independente de quem sairá vitorioso, há dois lados muito bem definidos para os analistas: o de continuidade e o de ruptura com a política econômica atual. Como investir no caso de continuidade da política econômica? Se as urnas escolherem pela continuidade, uma combinação explosiva de endividamento público, juros altos, retração da bolsa e volatilidade vão pautar o debate econômico, avalia Rodolfo Amstalden, diretor executivo da Empiricus. "Vamos ter concentrações de volatilidade, como nesse ano. Em janeiro, o fluxo gringo ajudou muito e foi um mês meteórico. Mas depois, se o fluxo gringo cessar temporariamente, por qualquer motivo que seja, entramos em uma ressaca", afirma Amstalden. Nesse cenário, o diretor da Empiricus vê uma tendência de abertura da 'boca de jacaré' (expressão usada para descrever dois grandes extremos, nesse caso, grandes altas e quedas na mesma magnitude) entre os líderes do Ibovespa e as demais companhias listadas na B3. Aqui, a recomendação são aquelas ações "all weather" (aquelas que vencem em qualquer cenário econômico) como Itaú e BTG Pactual. Além disso, grandes exportadoras com diferenciais competitivos, como Vale e Embraer, são recomendadas, pois se beneficiam do mercado externo e das trocas cambiais. Uma vitória da esquerda tenderia a elevar gastos públicos e pressionar a curva de juros, o que aumenta o risco Brasil e enfraquece nossa moeda frente ao dólar, na leitura de Marcos Praça, da Zero Markets Brasil. Com isso, empresas que possuem receita atrelada ao dólar se beneficiam, como Vale, Suzano, JBS e Embraer. Empresas ligadas a commodities também costumam funcionar como proteção à inflação, o que poderia fortalecer a Prio. O caso da Petrobras é mais delicado porque há o risco de intervenção estatal em preços e dividendos. Outro grupo que costuma performar relativamente bem em ambientes de juros elevados são os bancos tradicionais e seguradoras. Instituições como Itaú, BB Seguridade e Porto Seguro tendem a se beneficiar do aumento da rentabilidade da carteira de renda fixa, spreads financeiros maiores e ganhos de tesouraria. Além delas, as defensivas também ganham espaço, sobretudo ativos como TIM, Telelfônica Brasil e empresas do setor elétrico. Para o Morgan Stanley, a carteira recomendada para garantir os melhores retornos nesse caso é: Vale (VALE3) Itaú Unibanco (ITUB3; ITUB4)Prio (PRIO3) Embraer (EMBJ3) Gerdau (GGBR4) Copel (CPLE3) Suzano (SUZB3) JBS (JBSS3) Raia Drogasil (RADL3) TIM (TIMS3) Telefônica Brasil (Vivo) (VIVT3) BB Seguridade (BBSE3)Klabin (KLBN11) Porto Seguro (PSSA3) Caixa Seguridade (CXSE3) E se houver uma mudança na política econômica? No caso de mudança, os benefícios são generalizados na leitura de Rodolfo Amstalden. A queda dos juros teria um efeito multiplicador, controlando a inflação e beneficiando em massa as famílias mais pobres e a classe média, o que traria alívio a diversos setores. Esse ambiente de juros menores favorece setores cíclicos. Rodolfo destaca o varejo de qualidade, que vem sofrendo com juros altos, e o setor imobiliário (como Cyrela, Cury e Direcional). As empresas menores e com menor liquidez tabmém (conhecidas como "small caps") com baixa ou nenhum endividamento também teriam grande potencial de alta, pois estão defasadas em relação às grandes empresas. Por fim, estatais como Petrobras e Banco do Brasil, que hoje estão descontadas, poderiam ter uma forte valorização sob uma gestão mais responsável e amigável ao mercado. Uma vitória da direita costuma ser interpretada pelo mercado como um cenário potencialmente mais favorável para disciplina fiscal, reformas econômicas, privatizações e menor intervenção estatal, afirma Marcos Praça, da Zero Markets Brasil. "Isso geralmente reduz o prêmio de risco do Brasil, fortalece o real e abre espaço para queda estrutural dos juros", afirma. Nesse ambiente, os ativos mais sensíveis ao ciclo doméstico tendem a liderar os ganhos. O setor de varejo é um dos principais exemplos. Empresas como Magazine Luiza, Lojas Renner e Grupo Casas Bahia dependem fortemente de crédito e consumo. O setor de construção civil e imobiliário também é altamente beneficiado. Empresas como Cyrela e MRV dependem diretamente de crédito imobiliário e financiamento. Outro ativo que costuma responder positivamente a cenários pró-mercado é a própria B3. Com juros menores e melhora da percepção de risco, investidores tendem a migrar parte dos recursos da renda fixa para ações, aumentando o volume negociado na bolsa, IPOs e emissões. Por fim, as estatais também costumam ser extremamente sensíveis ao cenário eleitoral. Petrobras e Banco do Brasil frequentemente registram movimentos expressivos quando o mercado passa a enxergar menor interferência política. Mas Praça reforça que tudo isso considera expectativas baseadas em dados históricas e promessas de campanha. Não há garantia de que um futuro governo, seja qual for, seguirá esses padrões. Para o Morgan Stanley, as ações que mais se beneficiariam de uma mudança de política econômica são as empresas ligadas a ciclos de investimentos financeiros e produtivos. A seleção do banco incluiu: Mercado Libre (MELI34) Petrobras (PETR3; PETR4) Nubank (ROXO34) XP Inc. (XPBR31) Axia Energia (AXIA3) Banco do Brasil (BBAS3) B3 (B3SA3) BTG Pactual (BPAC11) Equatorial (EQTL3) Vibra Energia (VBBR3) Rumo (RAIL3) Cyrela (CYRE3) Motiva (MOTV3) Energisa (ENGI11) Usiminas (USIM5) E o que os preços dizem? Até esta terça-feira (13), o grupo de ações de "mudança de política" reunidos pelo Morgan Stanley acumulava retorno de 86% em dólar desde janeiro de 2025, enquanto o grupo de "continuidade de política" rendia 68% no mesmo período. Isso reflete um desempenho superior de 13% para o grupo de mudança de política. Ou seja, "há sinais de que o mercado estava prevendo a mudança como resultado das urnas em outubro", escreveu o banco. De acordo com os analistas, no mesmo período de 2018 e 2022, o mercado operava com preços menos otimistas quanto a uma mudança. A dúvida é se agora, com a reviravolta provocada pelo noticiário, isso irá se manter. O tempo vai dizer.
Flávio Day 2.0: Como investir na bolsa a depender do resultado da eleição?
Cenários de mudança ou continuidade da política econômica teriam efeitos muito diferentes no mercado acionário, e para cada um deles a carteira recomendada de ações muda, de acordo com o Morgan Stanley











