O dólar à vista exibiu valorização consistente frente ao real na sessão desta sexta-feira, em um misto de mau humor externo e desconfiança com o cenário local. Diante disso, o diferencial de juros - que ao longo deste ano ancorou bem a moeda brasileira, assim como os preços do petróleo - hoje não fizeram peso, e o real apresentou a segunda maior desvalorização diária entre as 33 moedas mais líquidas, atrás apenas do florim húngaro. Operadores não classificam o momento como uma reversão total da dinâmica recente, mas, ao menos, como um ajuste da euforia que havia em torno do bom desempenho do real. A piora desta semana foi resultado da reprecificação dos Treasuries, em meio à preocupação com a inflação nos Estados Unidos, além das dúvidas sobre o cenário eleitoral no Brasil, após notícias mostrando a ligação entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. O resultado disso foi a alta acumulada de 3,54% do dólar frente ao real nos últimos cinco dias, na maior valorização semanal da moeda americana desde a segunda semana de novembro de 2022, quando houve apreciação de 5,45% na semana, período em que eram definidos os nomes dos ministros do governo de Lula. Encerradas as negociações de hoje, o dólar à vista fechou em alta de 1,63%, cotado a R$ 5,0673, depois de bater na máxima do dia de R$ 5,0813. Já o euro comercial apreciou 1,19%, cotado a R$ 5,8884. Perto das 17h30, o índice DXY, que mede a força do dólar contra uma cesta de seis moedas de mercados desenvolvidos, avançava 0,49%, aos 99,301 pontos. Desde o começo da sessão, o mau humor externo contaminou a dinâmica do câmbio doméstico, que já estava abalada desde a última quarta-feira, quando surgiram notícias sobre a relação do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) com Daniel Vorcaro, do Banco Master. Em nota, o estrategista sênior Kenneth Broux, do Société Générae, diz que o “momentum” do real perdeu força, e movimentos de realização de lucro começaram a surgir após o ruído político doméstico substituir a dinâmica favorável de carry. “Reportagens ligando o candidato presidencial Flávio Bolsonaro ao controverso chefe do Banco Master, Vorcaro, levaram o dólar de volta acima do nível de R$ 5,00. A realização de lucros na Ibovespa representa um risco adicional de queda para a moeda, à medida que o posicionamento do mercado é desmontado”, diz. Há uma possível redução da exposição dos investidores ao real por conta do combo de maior risco no exterior e no Brasil. Segundo um broker, dados da B3 sobre o mercado de derivativos indicam que os fundos locais reduziram em US$ 2 bilhões suas posições compradas na moeda brasileira contra o dólar nos últimos cinco dias. Grandes gestoras mencionam terem “tirado o pé” da aposta no real. Para um gestor de moedas ouvido em condição de anonimato, ainda é cedo para saber se essa dinâmica deve ser uma reversão da tendência recente de apostas a favor do real. “Hoje temos dois vetores ruins — o externo e o local —, porque as eleições jogam para uma piora [da perspectiva do mercado, em especial das contas públicas]”, diz o profissional. “Não sei se essa perda de confiança no real é definitiva, por enquanto pode ser algo temporário.”
Dólar registra alta forte e real tem pior semana desde novembro de 2022
Moeda americana acumula alta de 3,54% frente ao real nos últimos cinco dias












