B3 foi impulsionada pelo capital estrangeiro ao longo do ano, mas redução do ímpeto do investidor internacional reduz ganhos do Ibovespa desde meados de abril Painel da B3, a Bolsa de São Paulo — Foto: Edilson Dantas / Agência O Globo RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 02/06/2026 - 20:01 Fuga de Capital Estrangeiro na B3 Atinge Recorde Desde 2020 Em maio, a B3 registrou a maior saída de capital estrangeiro desde março de 2020, com um fluxo negativo de R$ 14,91 bilhões. A redução no ímpeto dos investidores internacionais, refletida em fatores como juros elevados nos EUA e cautela fiscal no Brasil, impactou o Ibovespa, que desacelerou seu crescimento. Analistas apontam que cenários de juros altos drenam capital de economias emergentes, afetando o mercado de ações brasileiro. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO A Bolsa de São Paulo, a B3, registrou em maio a maior saída de capital estrangeiro em um único mês desde março de 2020, durante o início da pandemia do coronavírus. No mês passado, o fluxo dos investidores internacionais no mercado de ações brasileiro ficou negativo em R$ 14,91 bilhões, somente superado pela fuga da classe em março de 2020, de R$ 24 bilhões. Foi justamente o forte fluxo de capital estrangeiro que renovou, mês após mês desde meados de 2025, os recordes nominais do Ibovespa neste ano. Em 14 de abril, o índice superou os 198 mil pontos, máxima histórica de fechamento, alimentando a expectativa de que superaria 200 mil pontos. A maré virou. Na semana passada, por exemplo, o Ibovespa encerrou pela sétima semana seguida em queda, um recorde em 22 anos. Ontem, o principal índice da B3 reagiu, subindo 1,16%, aos 174 mil pontos, ainda muito distante dos níveis de abril. Fluxo estrangeiro no ano ainda no azul Apesar do resultado expressivo de saída do capital estrangeiro no mês passado, o fluxo acumulado de investidores estrangeiros em 2026 permanece positivo em R$ 41,6 bilhões. Ainda assim, o principal índice da Bolsa, que chegou a subir 23% — 30% se medido em dólares — agora registra valorização de 8,1% no ano. De acordo com análise da consultoria Elos Ayta, a saída observada em maio reflete uma combinação de fatores externos e domésticos, como a realização de lucros após a forte valorização dos ativos brasileiros nos primeiros meses do ano e a migração parcial de recursos para mercados desenvolvidos. Isso porque, diante da manutenção de juros elevados nos Estados Unidos e do aumento da cautela dos investidores globais em relação ao cenário fiscal brasileiro enquanto se aproximam as eleições de outubro, a tendência é que os investimentos se encaminhem a economias mais seguras, caso dos Estados Unidos. Juros frustram expectativas A descida “menos inclinada” dos juros nos próximos meses contribui para a diminuição do apetite, como avaliam Victor Natal e Mathias Venosa, estrategistas de ações do Itaú BBA, em relatório: “Com o petróleo nesse patamar (a commodity opera acima dos US$ 100 desde o início de abril), os temores de um repique inflacionário mais prolongado voltaram ao centro das discussões, levando ao entendimento de que os principais bancos centrais do mundo precisarão manter juros elevados por mais tempo do que se imaginava – e drenando capital de países emergentes, como o Brasil”. Os analistas afirmam que “historicamente, cenários de juros altos nos países desenvolvidos drenam capital de economias como a do Brasil”, prejudicando o mercado de ações. No ano passado, um dos fatores que promoveram o forte ingresso dos estrangeiros na segunda metade do ano foi a leitura de que o ciclo de juros no país fosse intenso, com a Selic podendo sair dos então 15% para 12%. Hoje, a curva de juros vê a taxa básica brasileira alcançando os 14% no fim do ano. Tecnologia atrai do outro lado do mundo A redução do apetite de papéis brasileiros aconteceu também, segundo a dupla de analistas, por conta da retomada do interesse global por ações de empresas de tecnologia, impulsionando as Bolsas americanas, de Taiwan e Coreia do Sul, estes últimos países emergentes que possuem exposição a empresas fabricantes de chips necessários para a corrida da inteligência artificial. Para efeito de comparação, o Kospi, principal índice da Coreia do Sul, valoriza 108% somente em 2026. O de Taiwan, país também emergente, beira os 60% de alta. O Nasdaq, que concentra ações de tecnologia nos EUA, sobe 16,6% em 2026 e, das mínimas registradas em abril, supera os 30% de valorização em pouco mais de um mês. Nos últimos dias, a perspectiva de ofertas inicias de ações de big techs como SpaceX e Anthropic nos EUA aumentaram a expectativa de maior saída de capital estrangeiros de mercados emergentes como o Brasil, cujo forte está nas empresas de commodities. Eleições também influenciam Com a aproximação das eleições brasileiras e os últimos episódios da corrida ao Planalto, como a ligação do banqueiro Daniel Vorcaro ao pré-candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e a proposta de um novo tarifaço de Donald Trump contra o Brasil, os investidores começam a estimar uma possível manutenção da política econômica, e não de uma mudança de governo. Relatório do Bank of America divulgado na última sexta-feira afirma que “uma guinada para políticas mais ortodoxas poderia melhorar o sentimento dos investidores e fortalecer as perspectivas de crescimento e da política fiscal, além de criar mais espaço para cortes significativos dos juros”. Em contraste, dizem os analistas do banco americano, “resultados associados a uma política fiscal mais frouxa, menor investimento privado ou maior incerteza institucional provavelmente deixariam o cenário macroeconômico mais frágil”, o que enseja juros maiores. O mercado vê uma mudança na política fiscal como necessária para domar a crescente relação entre a dívida pública e o PIB, tudo que o país produz, que já está em 80%. Quanto maior essa relação, maiores as chances de um país não honrar com seus compromissos de dívida, logo, juros maiores são cobrados pelos investidores estrangeiros para apostar nos títulos de dívida locais. Em se domando a crescente relação, há maior alívio dos juros, o que influencia num maior crescimento da economia. Um crescimento maior reflete positivamente no resultado das companhias listadas na Bolsa.