Havia uma narrativa otimista para investir no mercado de risco no Brasil neste começo de ano. O país certo, na hora certa, com os ativos certos. Essa tese vem sendo construída ao longo de meses, mas vem sendo destruída nas últimas semanas e pode ter atingido um ponto nevrálgico, a partir do qual ficará cada vez mais difícil reverter o sentimento dos investidores em favor do país. Nesta segunda (18), dois indicadores locais mostram como o destino do mercado global está sendo selado: economia mais fraca, inflação tomando impulso. E tudo isso com os bancos centrais de mãos amarradas. O Ibovespa recuou 0,17% e seguiu nos 177 mil pontos no fechamento desta sessão. No mês, o índice está com baixa de 5,5%. No ano até aqui, a carteira acumula alta de 9,84%. Embora o contexto de desaceleração das economias e aquecimento dos preços seja mundial, no Brasil, ele atinge o cerne da tese de investimentos local: a queda dos juros. "A história para o Brasil se inverteu com a guerra e a retomada do setor de tecnologia americano nessa temporada de resultados do primeiro trimestre. As empresas brasileiras trouxeram resultados, em nível agregado, um pouco abaixo das expectativas, mas, lá fora, as teses dos setores de tecnologia foram retomadas, então tanto os Estados Unidos quanto os mercados do Sudeste Asiático voltaram a drenar recursos", avalia o economista Felipe Miranda. O segundo ponto está ligado à queda de taxa de juros, com a mudança para expectativas de um ciclo menor do que estimado no começo do ano. Na última semana, lembra Miranda, esse cenário se acentuou com a "ideia de que uma política fiscal mais responsável no ano que vem ficou machucada". "Neste momento, Lula é o grande favorito para vencer a eleição presidencial, então a expectativa é de continuidade de uma política fiscal perdulária, o que força a taxa de juros mais para cima - acompanhando um prognóstico ruim para a economia brasileira, diante de mais risco de uma crise fiscal à frente, o que acaba sendo ruim para a bolsa brasileira também", conclui Miranda. O adeus precoce às quedas da Selic Um dos últimos países a retomar os alívios monetários, a margem para queda da Selic era significativa por aqui. Em um 2026 para o qual se esperava continuidade das políticas já implementadas por Donald Trump nos Estados Unidos - com um grau de incerteza elevado e, de certa forma, já pacificado -, a tese de que os juros brasileiros tinham mais espaço para cair e que isso poderia destravar o fluxo na bolsa atraía o capital estrangeiro para o mercado de ações local. Esse ambiente, no entanto, foi atingido em cheio pela disparada sustentada dos preços do petróleo diante da baixa visibilidade para um fim dos conflitos entre Estados Unidos e Irã. O Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), conhecido como "prévia do PIB", recuou 0,7% em março na comparação com fevereiro. Para completar, no terceiro mês de guerra no Golfo Pérsico, o Boletim Focus trouxe a décima revisão altista na inflação para este ano. Aos poucos, os investidores globais passaram a revisar o nível de apetite e começaram a se despedir do Brasil. Do começo de maio até o dia 14, estrangeiros sacaram R$ 7,2 bilhões mais do que investiram no mercado à vista de ações da bolsa brasileira. A liquidez sustentada na bolsa atualmente reflete não apetite por risco, mas a fuga dele. O giro financeiro do Ibovespa ficou em R$ 18 bilhões hoje, praticamente em linha com a média dos últimos 12 meses, de R$ 18,2 bilhões. Nos primeiros meses de 2026, o Brasil se encaixou numa narrativa global muito favorável, que atraiu o capital global e acelerou a compra de ações locais: o mundo demandava mais ativos físicos, seja pela geopolítica complicada, seja pela infraestrutura de inteligência artificial que exige energia, metais e commodities. Enquanto o setor de tecnologia americano estava sendo questionado e os EUA embarcavam em novas disputas, o Brasil ficava fora dos conflitos, exportava petróleo, minério e tinha juros reais (o juro nominal menos a inflação corrente) entre os mais altos do mundo. Assim, o Ibovespa foi de 161 mil para quase 200 mil pontos em menos de quatro meses. Essa tese começou a se inverter em meados de abril. O tech americano se recuperou na temporada de resultados do primeiro trimestre. O fluxo que havia migrado para emergentes começou a refluir. Dados da XP apontam que os os investidores estrangeiros retiraram mais de R$ 13 bilhões líquidos da B3 em quatro semanas consecutivas - considerando mercado à vista e derivativos - interrompendo a trajetória que havia sustentado a valorização da bolsa no começo do ano. O dólar à vista cedeu 1,37% hoje e voltou a R$ 5. No mês, está com alta de 0,93% sobre o real. No ano até aqui, cedeu 8,94% no mercado de câmbio local. Cabo de guerra na carteira A sessão desta segunda ilustrou com precisão a fragilidade estrutural do índice, que se apoia basicamente na valorização de commodities para subir neste momento. A Petrobras avançou e garantiu uma queda menos brusca na carteira de ações, sustentada pelo Brent acima de US$ 108 após novos ataques de drones no Golfo Pérsico e o tom belicoso de Trump nas redes sociais. Sem essa contribuição, o Ibovespa teria encerrado bem mais fundo no vermelho. Do outro lado, foi também uma commodity que pressionou: o minério de ferro. A Vale, ação com maior peso individual da carteira teórica, cedeu 2% num dia em que o minério de ferro cedeu na China, pressionado por preocupações com a demanda de aço. O padrão de elevada dependência da bolsa desse cenário externo é familiar. Em um ambiente de incertezas, o fluxo se concentra nas ações mais líquidas, que, no Brasil, estão ligadas a ativos reais - são as exportadoras de commodities. Então o capital estrangeiro tem se movimentando junto com esses mercado. Hoje, os gringos penalizaram os papéis da Vale incorporando dúvidas sobre a consistência dos estímulos chineses e a desaceleração estrutural da demanda por aço. Os papéis da mineradora negociados em Nova York acumularam queda relevante, por isso seu peso de mais de 10% no Ibovespa transforma cada queda numa âncora. A bolsa depende, cada vez mais, da oscilação dessas duas ações para definir sua direção. Quando Petrobras e Vale andam juntas, o índice se move com clareza. Quando se separam - como hoje -, o mercado fica travado numa faixa estreita de indecisão. Com o petróleo mais caro cobrando a conta nos futuros de juros e sem o canal de transmissão dos preços de commodities para as ações, quase não sobram razões para o investidor alocar no mercado de risco por aqui. Das 79 ações que compõem o Ibovespa atualmente, 47 desvalorizaram hoje. Sob uma economia que parece tender a decepcionar o mercado e uma inflação em trajetória ascendente, o Banco Central (BC) do Brasil se vê num corredor estreito. Se corta juros para estimular a atividade, arrisca engatilhar a desancoragem inflacionária. Se mantém os juros para conter a inflação, a atividade continua perdendo fôlego. A taxa de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 saiu de 14,23% para 14,16% ao ano. Prêmios em contratos de curto prazo estão mais ligados às expectativas dos investidores para a Selic.No médio prazo, os retornos da taxa para janeiro de 2031 oscilaram de 14,25% para 14,19% ao ano.Já para janeiro de 2036, a taxa oscilou de 14,26% para 14,24% ao ano. Vencimentos com prazos mais longos refletem uma maior preocupação com calote do governo. Aquele que ainda não foi nomeado O Brasil não está num cenário de estagflação. Tampouco estão os EUA, Europa ou China. Mas, hoje, líderes da União Europeia deram nome ao risco no horizonte das nações - especialmente as ocidentais. Os mercados hoje estão reunindo ingredientes que, se mantidos e misturados, podem levar a esse diagnóstico: um combo de economia em desaceleração (ou recessão técnica) com alta persistente dos preços. O mais grave é a impotência dos bancos centrais no cenário de choque de energia. Para os EUA e para a Europa, economistas já aventam a necessidade de elevação dos juros - se não neste ano, no próximo. Sem uma recessão técnica, que force para baixo a demanda por energia, o risco é de a oferta estrangulada pelos meses de Estreito de Ormuz fechado não dar conta. O arrefecimento gradual parece quase uma sentença para os países do Ocidente neste momento. Enquanto isso, os preços nas prateleiras e nas bombas de combustível não dão trégua - e nem darão tão cedo. Cada vez mais a conta da guerra se impõe aos investidores, e mesmo os que olharam para o lado no passado estão sendo obrigados a pagá-la. Comportamento das ações do Ibovespa em 18/5/2026 Código Nome Abertura Mínima Média Máxima Fechamento Var. % CSMG3 COPASA ON 51,50 51,49 53,54 54,36 53,50 3,48 HAPV3 HAPVIDA ON 12,51 12,42 12,71 12,97 12,83 3,05 RECV3 PETRORECSA ON 12,26 12,13 12,37 12,52 12,49 2,71 PETR3 PETROBRAS ON 49,57 49,12 50,80 51,79 51,79 2,66 BRAV3 BRAVA ON 18,60 18,52 18,93 19,19 19,17 2,57 PETR4 PETROBRAS PN 45,10 44,47 45,66 46,46 46,44 2,13 CMIG4 CEMIG PN 11,29 11,20 11,41 11,54 11,50 2,04 BRKM5 BRASKEM PNA 12,13 11,07 11,96 12,42 12,41 1,64 PSSA3 PORTO SEGURO ON 47,72 47,48 48,52 49,03 48,70 1,63 LREN3 LOJAS RENNER ON 13,51 13,44 13,66 13,81 13,77 1,62 AZZA3 AZZAS 2154 ON 18,97 18,97 19,42 19,70 19,34 1,52 CXSE3 CAIXA SEGURI ON 17,45 17,30 17,52 17,63 17,62 1,32 TOTS3 TOTVS ON 31,11 31,08 31,44 31,80 31,46 1,03 MULT3 MULTIPLAN ON 29,45 29,19 29,56 29,75 29,75 0,95 ABEV3 AMBEV S/A ON 15,72 15,61 15,79 15,85 15,81 0,76 TAEE11 TAESA UNIT 38,26 38,10 38,43 38,76 38,55 0,68 SUZB3 SUZANO S.A. ON 41,76 41,12 41,78 42,32 41,97 0,65 CEAB3 CEA MODAS ON 11,02 10,87 11,05 11,23 11,06 0,64 SLCE3 SLC AGRICOLA ON 17,23 16,87 17,15 17,37 17,28 0,52 UGPA3 ULTRAPAR ON 29,06 28,76 29,06 29,28 29,28 0,51 CPFE3 CPFL ENERGIA ON 44,71 44,51 44,72 45,30 44,72 0,45 SBSP3 SABESP ON 28,99 28,84 29,19 29,38 29,16 0,45 VBBR3 VIBRA ON 33,05 32,80 33,19 33,46 33,26 0,42 MOTV3 MOTIVA SA ON NM 14,58 14,55 14,74 14,83 14,74 0,20 FLRY3 FLEURY ON 15,59 15,46 15,63 15,74 15,62 0,13 B3SA3 B3 ON 16,70 16,50 16,67 16,92 16,72 0,12 EQTL3 EQUATORIAL ON 38,44 38,29 38,69 39,12 38,61 0,05 PRIO3 PETRORIO ON 68,51 67,50 68,47 69,24 68,82 0,03 BBSE3 BB SEGURIDADE ON 34,12 33,97 34,09 34,22 34,12 0,00 CPLE3 COPEL ON 14,81 14,77 14,84 14,92 14,85 0,00 CSAN3 COSAN ON 4,44 4,40 4,48 4,59 4,41 0,00 YDUQ3 YDUQS PART ON 9,54 9,26 9,46 9,73 9,56 0,00 RENT3 LOCALIZA ON 43,11 42,35 42,88 43,38 42,97 -0,02 GOAU4 GERDAU MET PN 10,08 10,01 10,13 10,23 10,15 -0,10 BBDC3 BRADESCO ON 15,38 15,21 15,32 15,45 15,34 -0,13 BBDC4 BRADESCO PN 17,69 17,49 17,64 17,81 17,66 -0,17 ITUB4 ITAU UNIBANCO PN 39,67 39,30 39,56 39,85 39,62 -0,20 RDOR3 REDE D OR ON 34,90 34,50 34,75 35,05 34,77 -0,20 SANB11 SANTANDER BR UNIT 26,98 26,75 26,87 27,02 26,85 -0,26 ENEV3 ENEVA ON 24,95 24,75 24,97 25,20 24,99 -0,28 GGBR4 GERDAU PN 23,29 23,05 23,35 23,60 23,26 -0,34 ALOS3 ALLOS ON 28,75 28,35 28,52 28,86 28,64 -0,35 IGTI11 IGUATEMI S.A UNT 26,19 26,04 26,25 26,40 26,30 -0,38 ENGI11 ENERGISA UNT 48,42 48,20 48,45 48,89 48,27 -0,39 CYRE3 CYRELA REALT ON 21,80 21,44 21,69 22,02 21,74 -0,46 RAIL3 RUMO S.A. ON 14,97 14,72 14,88 15,17 14,90 -0,47 TIMS3 TIM ON 22,11 22,02 22,11 22,33 22,07 -0,54 BPAC11 BTGP BANCO UNT 55,02 53,36 53,83 55,02 54,18 -0,59 AXIA6 AXIA ENERGIA PNB 60,17 59,35 59,80 60,44 59,80 -0,61 VIVA3 VIVARA ON 23,00 22,61 22,89 23,28 22,80 -0,61 VIVT3 TELEF BRASIL ON 35,35 34,96 35,22 35,61 35,29 -0,65 AXIA3 AXIA ENERGIA ON 54,54 54,05 54,42 55,09 54,31 -0,66 ISAE4 ISA ENERGIA PN 28,54 28,16 28,33 28,55 28,34 -0,70 EGIE3 ENGIE BRASIL ON 32,46 32,12 32,35 32,71 32,33 -0,74 KLBN11 KLABIN S/A UNT 16,50 16,29 16,36 16,51 16,30 -0,79 SMFT3 SMART FIT ON 18,74 18,48 18,60 18,86 18,55 -0,86 ITSA4 ITAUSA PN 12,95 12,73 12,82 12,99 12,84 -0,93 USIM5 USIMINAS PNA 9,14 8,89 9,09 9,38 9,03 -0,99 HYPE3 HYPERA ON 22,98 22,70 22,86 23,06 22,80 -1,00 EMBJ3 EMBRAER ON 71,51 69,64 70,56 72,12 70,50 -1,05 BEEF3 MINERVA ON 4,40 4,25 4,32 4,46 4,35 -1,14 CURY3 CURY S/A ON 29,66 29,09 29,46 29,83 29,49 -1,21 MRVE3 MRV ON 6,24 6,05 6,12 6,27 6,14 -1,29 BBAS3 BRASIL ON 20,70 20,25 20,44 20,80 20,42 -1,35 BRAP4 BRADESPAR PN 22,93 22,44 22,65 23,02 22,66 -1,44 POMO4 MARCOPOLO PN 6,06 5,88 5,96 6,07 5,96 -1,49 COGN3 COGNA ON 2,53 2,48 2,51 2,59 2,50 -1,57 AURE3 AUREN ON 12,49 12,35 12,58 12,89 12,42 -1,82 WEGE3 WEG ON 43,27 42,01 42,34 43,27 42,34 -1,83 NATU3 NATURA ON 9,93 9,71 9,83 10,08 9,75 -1,91 VALE3 VALE ON 83,00 81,06 81,96 83,60 81,83 -2,00 VAMO3 VAMOS ON 3,42 3,33 3,38 3,43 3,34 -2,05 RADL3 RAIA DROGASIL ON 19,51 18,91 19,22 19,57 19,12 -2,40 ASAI3 ASSAI ON 8,49 8,24 8,34 8,57 8,29 -2,47 DIRR3 DIRECIONAL ON 13,01 12,57 12,72 13,02 12,64 -2,62 MGLU3 MAGAZINE LUIZA ON 6,83 6,61 6,82 6,99 6,61 -2,65 MBRF3 MARFRIG ON 17,27 16,73 16,93 17,42 16,81 -3,50 CSNA3 SID NACIONAL ON 6,36 6,07 6,21 6,44 6,15 -4,21 CMIN3 CSN MINERACAO ON 4,72 4,26 4,43 4,75 4,28 -9,32