De repente, 2026 parece reviver 2024. O cenário é diferente, mas o gosto é terrivelmente similar para o investidor brasileiro. A terça-feira (19) coroa o paralelo, tendo sido marcada pelo avanço das taxas dos títulos do Tesouro americano (Treasuries) às máximas dos últimos anos, acompanhando as perspectivas cada vez mais concretas de que o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) pode precisar subir os juros ainda neste ano. Ruim o bastante para minguar o apetite do investidor global por risco, o cenário piora no contexto local, em que as incertezas estrangeiras e domésticas se amontoam, fechando o cerco em torno do Banco Central (BC). O Ibovespa recuou 1,5%, aos 174.279 pontos nesta sessão, no menor nível desde o fechamento de 21 de janeiro. Na semana, o índice tem perda de 1,7% e, no mês, está com baixa de 7%. No acumulado ano até aqui, a alta da carteira cedeu 8%. Numa guinada mais súbita que a de dois anos atrás, com o crescimento das chances de o Fed precisar subir os juros em algum momento no fim deste ano, o mercado brasileiro se despede com mais convicção dos cortes na Selic em um ambiente global mais complexo. A taxa de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 saiu de 14,16% para 14,15% ao ano. Prêmios em contratos de curto prazo estão mais ligados às expectativas dos investidores para a Selic.No médio prazo, os retornos da taxa para janeiro de 2031 oscilaram de 14,19% para 14,28% ao ano.Já para janeiro de 2036, a taxa oscilou de 14,24% para 14,34% ao ano. Vencimentos com prazos mais longos refletem uma maior preocupação com calote do governo. De acordo com o FedWatch, monitor do CME de expectativas do mercado para as próximas decisões do Fed, as apostas no aumento de juros nos EUA na reunião de dezembro alcançaram o cenário majoritário hoje : 41% dos investidores acreditam que o banco central americano aumentará as taxas em 0,25 ponto percentual, e outros 14,6% veem as taxas num patamar 0,5 ponto mais alto que o atual. Outros 2,2% são ainda mais pessimistas, prevendo juros 0,75 ponto acima no fim do ano. A taxa paga pela Treasury com vencimento em 30 anos atingiu 5,19% hoje, o maior nível desde julho de 2007, quando os EUA estavam à beira do seu último colapso econômico. Os rendimentos nesse título de longo prazo da maior economia do mundo são uma espécie de termômetro sobre o sentimento no mercado global. Quando a taxa ultrapassa patamares históricos, como a marca testada perto de 5%, o sob tensão e precificando inflação persistente e juros altos por mais tempo Num ano que se iniciou sob a promessa de alívios monetários, a mudança de cenário engatilhada pelo conflito entre EUA e Irã foi um golpe nas economias em todo o mundo. Com o Estreito de Ormuz fechado - e sem perspectivas de reabrir -, o preço do petróleo se sustenta no patamar acima dos US$ 100 por barril há cinco semanas. A reação dos investidores hoje é tanto o reflexo do que os indicadores de mercado mostraram sobre abril, quanto a realização sobre a duração dos efeitos do choque de energia (pelo estrangulamento da oferta). Assim, as expectativas para a inflação dispararam, puxando com elas as estimativas para os juros. O giro financeiro do Ibovespa ficou em R$ 20,3 bilhões hoje, 11% acima da média dos últimos 12 meses, de R$ 18,2 bilhões. "Ao longo do dia, os investidores também monitoraram de perto os desdobramentos geopolíticos no Oriente Médio, principalmente após novas declarações envolvendo Donald Trump, o Irã e possíveis negociações diplomáticas. Esse cenário aumentou ainda mais a volatilidade e reforçou a postura defensiva dos investidores", diz Marcelo Boragini, especialista em renda variável da Davos Investimentos. Boragini pontua que o mercado demonstra pouca confiança em relação às declarações políticas recentes, não apenas pelo histórico de Trump, mas tendo o próprio vice-presidente dos EUA afirmado que não há garantias sobre uma evolução concreta das negociações entre os países, o que aumenta a percepção de insegurança. "Na visão do mercado, cresce a percepção de que o petróleo pode permanecer em níveis elevados por mais tempo. Isso é importante porque o petróleo influencia diretamente custos de energia, transporte e produção em diversos países, pressionando a inflação global. Quando a inflação segue elevada, os bancos centrais, especialmente o Federal Reserve, têm menos espaço para iniciar cortes de juros. Esse cenário reduz o apetite por ativos de risco em todo o mundo", resume o especialista da Davos. O cerco à Selic Os problemas externos e internos se amontoam, reduzindo a visibilidade sobre o ciclo de cortes na Selic. Para o Brasil, a escalada das taxas das Treasuries é um golpe pela via cambial. A renda fixa americana pagando mais se torna uma draga de dólares, o que enfraquece os ativos locais. O dólar à vista avançou 0,85% contra o real hoje, a R$ 5,04. Na semana, ficou 0,5% mais barato, mas, no mês, está com alta de 1,8% sobre o real. No ano até aqui, cedeu 8,17% no mercado de câmbio local. Mais importante do que o efeito é o contexto que pressiona os rendimentos das Treasuries. Atualmente, os mercados globais estão ajustado os preços num ambiente de desaceleração das economias e aquecimento dos preços. Em escala global, essa virada de cenário atinge o cerne da tese de investimentos local: a queda dos juros. Pode ser que o BC não precise subir a Selic, mas certamente está em um corredor mais estreito, pelo qual não passam mais novos cortes nos juros - ao menos não de forma sustentada. A expectativa dos investidores locais, neste momento, é por mais alguns cortes marginais na taxa básica antes de ela estacionar próxima dos 13,5% ao ano. Um dos últimos países a retomar os alívios monetários, a margem para queda da Selic era significativa por aqui. Era esse horizonte que fomentava o apetite por risco em escala local, embora, globalmente, os fluxos estrangeiros para o Brasil estivessem associados ao movimento de diversificação das carteiras de risco para fora dos EUA. A tese de que os juros brasileiros tinham mais espaço para cair atraía o capital estrangeiro para o mercado de ações local. Com a narrativa local em xeque e sem clima para tomada de risco, os investidores globais passaram a se desfazer das posições em ações brasileiras. Do começo de maio até o dia 15, os gringos sacaram R$ 9,64 bilhões mais do que investiram no mercado à vista da B3. Enquanto o setor de tecnologia americano estava sendo questionado e os EUA embarcavam em novas disputas, o Brasil ficava fora dos conflitos, exportava petróleo, minério e tinha juros reais (o juro nominal menos a inflação corrente) entre os mais altos do mundo. Mas a virada no setor de tecnologia americano, que se recuperou na temporada de resultados do primeiro trimestre, e uma temporada de resultados morna no Brasil acabaram com a empolgação com a bolsa local. Das 79 ações que compõem o Ibovespa atualmente, 74 desvalorizaram hoje. Localmente, a situação do Brasil se agravou na última semana com a queda das chances de o candidato à presidência do mercado financeiro se eleger ao Planalto em outubro. Com o pré-candidato pelo PL, Flávio Bolsonaro, ficando menos competitivo diante da publicização de suas conexões com o banqueiro Daniel Vorcaro - preso por comandar a maior fraude financeira da história do país com o Banco Master -, as chances de um ajuste fiscal minguaram na visão da Faria Lima. "O movimento fortalece o DXY e derruba as bolsas lá fora, com efeito negativo majorado, no Brasil, pelo resultado da pesquisa Atlas/Bloomberg, que mostrou forte queda nas intenções de voto em Flávio Bolsonaro no segundo turno, bem como aumento agudo de sua rejeição", avalia Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos. Perri lembra que, ao longo do pregão, novas notícias envolvendo o pré-candidato e Daniel Vorcaro aprofundaram o mal humor e pressionaram a bolsa e os juros por aqui. Lá fora, a conta da guerra se impõe, enquanto, por aqui, a corrida eleitoral começa a ganhar tração - e contornos inesperados. Comportamento das ações do Ibovespa em 19/5/2026 Código Nome Abertura Mínima Média Máxima Fechamento Var. % USIM5 USIMINAS PNA 8,91 8,91 9,13 9,26 9,13 1,11 PRIO3 PETRORIO ON 68,18 68,18 68,92 69,56 69,32 0,73 TIMS3 TIM ON 21,98 21,88 22,10 22,26 22,21 0,63 SMFT3 SMART FIT ON 18,10 18,08 18,56 18,78 18,57 0,11 ABEV3 AMBEV S/A ON 15,65 15,53 15,81 15,91 15,81 0,00 NATU3 NATURA ON 9,61 9,54 9,80 9,91 9,74 -0,10 PETR3 PETROBRAS ON 51,23 50,80 51,39 51,74 51,67 -0,23 SANB11 SANTANDER BR UNIT 26,50 26,38 26,64 27,02 26,75 -0,37 MOTV3 MOTIVA SA ON NM 14,38 14,38 14,65 14,73 14,68 -0,41 MRVE3 MRV ON 6,05 5,97 6,12 6,20 6,11 -0,49 CXSE3 CAIXA SEGURI ON 17,62 17,45 17,57 17,76 17,53 -0,51 BBSE3 BB SEGURIDADE ON 34,12 33,85 34,01 34,25 33,91 -0,62 PETR4 PETROBRAS PN 45,99 45,59 45,98 46,30 46,09 -0,75 AXIA3 AXIA ENERGIA ON 53,50 53,03 53,88 54,44 53,82 -0,90 BBAS3 BRASIL ON 20,19 20,07 20,22 20,52 20,23 -0,93 HAPV3 HAPVIDA ON 12,50 12,23 12,68 13,00 12,71 -0,94 LREN3 LOJAS RENNER ON 13,53 13,35 13,66 13,79 13,64 -0,94 VALE3 VALE ON 80,80 80,17 80,75 81,28 81,02 -0,99 AXIA6 AXIA ENERGIA PNB 59,00 58,30 59,20 59,84 59,20 -1,00 CPLE3 COPEL ON 14,66 14,49 14,66 14,74 14,70 -1,01 GGBR4 GERDAU PN 23,00 22,81 23,07 23,27 23,02 -1,03 AURE3 AUREN ON 12,42 12,09 12,39 12,56 12,28 -1,13 BRAP4 BRADESPAR PN 22,34 22,18 22,35 22,53 22,40 -1,15 KLBN11 KLABIN S/A UNT 16,30 16,10 16,20 16,37 16,10 -1,23 WEGE3 WEG ON 42,19 41,51 41,86 42,42 41,82 -1,23 DIRR3 DIRECIONAL ON 12,50 12,15 12,50 12,68 12,48 -1,27 GOAU4 GERDAU MET PN 10,04 9,91 10,02 10,10 10,02 -1,28 TAEE11 TAESA UNIT 38,48 37,95 38,24 38,50 38,05 -1,30 ENGI11 ENERGISA UNT 48,01 47,16 47,62 48,17 47,62 -1,35 CSMG3 COPASA ON 53,20 52,56 53,12 54,15 52,77 -1,36 BBDC3 BRADESCO ON 15,24 15,02 15,14 15,30 15,13 -1,37 ITSA4 ITAUSA PN 12,69 12,57 12,66 12,78 12,66 -1,40 ISAE4 ISA ENERGIA PN 28,02 27,69 27,93 28,19 27,94 -1,41 BBDC4 BRADESCO PN 17,48 17,26 17,44 17,66 17,39 -1,53 CYRE3 CYRELA REALT ON 21,26 21,16 21,48 21,73 21,40 -1,56 ASAI3 ASSAI ON 8,15 8,09 8,19 8,30 8,16 -1,57 COGN3 COGNA ON 2,41 2,40 2,46 2,51 2,46 -1,60 CMIG4 CEMIG PN 11,41 11,28 11,37 11,45 11,31 -1,65 EGIE3 ENGIE BRASIL ON 32,06 31,67 31,86 32,28 31,77 -1,73 VBBR3 VIBRA ON 32,74 32,36 32,72 33,09 32,67 -1,77 MGLU3 MAGAZINE LUIZA ON 6,51 6,34 6,54 6,68 6,49 -1,82 MBRF3 MARFRIG ON 16,78 16,02 16,32 16,78 16,50 -1,84 IGTI11 IGUATEMI S.A UNT 25,83 25,63 25,89 26,27 25,81 -1,86 FLRY3 FLEURY ON 15,46 15,28 15,45 15,62 15,32 -1,92 RDOR3 REDE D OR ON 34,24 33,93 34,20 34,67 34,10 -1,93 RAIL3 RUMO S.A. ON 14,78 14,50 14,62 14,84 14,61 -1,95 VIVT3 TELEF BRASIL ON 35,00 34,51 34,80 35,29 34,59 -1,98 ALOS3 ALLOS ON 28,30 27,83 28,13 28,48 28,06 -2,03 BPAC11 BTGP BANCO UNT 53,19 52,56 53,12 53,66 53,07 -2,05 EQTL3 EQUATORIAL ON 38,02 37,55 37,85 38,40 37,82 -2,05 RENT3 LOCALIZA ON 41,46 41,36 42,22 42,77 42,09 -2,05 ITUB4 ITAU UNIBANCO PN 39,05 38,70 39,01 39,42 38,78 -2,12 MULT3 MULTIPLAN ON 29,12 28,97 29,15 29,52 29,12 -2,12 SBSP3 SABESP ON 28,60 28,46 28,72 29,15 28,54 -2,13 BRAV3 BRAVA ON 19,03 18,70 18,84 19,15 18,76 -2,14 POMO4 MARCOPOLO PN 5,87 5,79 5,85 5,93 5,83 -2,18 PSSA3 PORTO SEGURO ON 48,50 47,45 47,76 48,52 47,64 -2,18 SUZB3 SUZANO S.A. ON 41,73 40,97 41,27 42,01 41,05 -2,19 CURY3 CURY S/A ON 29,10 28,67 28,99 29,32 28,84 -2,20 CPFE3 CPFL ENERGIA ON 44,50 43,50 43,82 44,51 43,72 -2,24 VIVA3 VIVARA ON 22,74 22,07 22,36 22,81 22,29 -2,24 BRKM5 BRASKEM PNA 12,13 11,84 12,16 12,52 12,12 -2,34 YDUQ3 YDUQS PART ON 9,36 9,25 9,41 9,74 9,32 -2,51 TOTS3 TOTVS ON 31,24 30,29 30,89 31,54 30,64 -2,61 EMBJ3 EMBRAER ON 69,90 68,08 68,90 70,12 68,64 -2,64 SLCE3 SLC AGRICOLA ON 17,30 16,79 17,01 17,30 16,79 -2,84 AZZA3 AZZAS 2154 ON 19,05 18,58 19,00 19,34 18,78 -2,90 BEEF3 MINERVA ON 4,34 4,17 4,24 4,35 4,22 -2,99 VAMO3 VAMOS ON 3,33 3,22 3,27 3,34 3,24 -2,99 RADL3 RAIA DROGASIL ON 18,71 18,47 18,66 19,11 18,53 -3,09 RECV3 PETRORECSA ON 11,95 11,82 11,96 12,18 11,83 -3,10 UGPA3 ULTRAPAR ON 28,73 28,25 28,58 29,08 28,37 -3,11 ENEV3 ENEVA ON 24,40 23,62 24,23 24,99 24,21 -3,12 HYPE3 HYPERA ON 22,50 21,91 22,20 22,61 21,91 -3,90 CSNA3 SID NACIONAL ON 6,07 5,88 5,98 6,12 5,90 -4,07 CMIN3 CSN MINERACAO ON 4,28 4,08 4,16 4,31 4,08 -4,67 CEAB3 CEA MODAS ON 10,80 10,48 10,69 10,99 10,54 -4,70 B3SA3 B3 ON 16,29 15,81 15,96 16,29 15,89 -4,96 CSAN3 COSAN ON 4,32 4,10 4,22 4,37 4,13 -6,35
Chances de alta nos juros dos EUA crescem e derrubam Ibovespa a menor nível em 4 meses
Saldo do Dia: Disparada nas taxas dos títulos do Tesouro americano pressionam o dólar e fecham o cerco em torno do BC do Brasil, limitando os próximos passos deste ciclo de alívios na Selic










